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  <title>Geneton.com.br</title>
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  <modified>2008-09-24T05:48:30Z</modified>
  <tagline>DIÁRIO DE BORDO DAS ANDANÇAS DE UM REPÓRTER</tagline>
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  <copyright>Copyright (c) 2008, geneton2</copyright>
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    <title> ...E NÃO EXISTE MAIOR INIMIGO DA ESCRITA DO QUE O JORNALISTA!</title>
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    <issued>2008-09-24T02:40:16-03:00</issued>
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      <![CDATA[<p>AQUI:<br />
<a href="http://www.geneton.com.br/archives/000281.html">http://www.geneton.com.br/archives/000281.html</a></p>]]>
      
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    <title>A GRANDE BRIGA DOS JORNALISTAS CONTRA OS TEXTOS. PODE EXISTIR RAÇA MAIS ESQUISITA ?</title>
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    <modified>2008-09-24T05:49:53Z</modified>
    <issued>2008-09-24T02:36:05-03:00</issued>
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    <summary type="text/plain">Jornalista é bicho esquisito. Quem duvidar deve fazer um teste. Sem chamar atenção, aproxime-se de um grupo de jornalistas o mais sorrateiramente possível, para observar um fenômeno curiosíssimo. É fácil identificá-los, pelos ruídos que emitem: latidos, trinados, uivos, rugidos e...</summary>
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    <dc:subject>O Estado Geral das Coisas: Notas (Quase) Diárias</dc:subject>
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      <![CDATA[<p><strong>Jornalista é bicho esquisito. Quem duvidar deve fazer um teste. Sem chamar atenção, aproxime-se de um grupo de jornalistas o mais sorrateiramente possível, para observar um fenômeno curiosíssimo. É fácil identificá-los, pelos ruídos que emitem: latidos, trinados, uivos, rugidos e outros sons menos votados. Apure os ouvidos. Com toda certeza, um jornalista ( provavelmente, um editor) estará dizendo a outro ( provavelmente, um repórter) : "Pode fazer, mas curta ! Trinta linhas, no máximo!". Ou: "Nada além de um minuto e meio!".</strong></p>]]>
      <![CDATA[<p><strong>Ou seja: cinquenta por cento dos jornalistas que exercem de verdade a profissão nas redações passam noventa por cento do tempo útil proibindo os outros de escrever. Parece que escrever é uma praga. Nenhum assunto seria digno de merecer mais do que um punhado de parágrafos mambembes. Devem achar que todos os leitores sofrem de alfabetofobia ( se a palavra não existe, acaba de ser parida). "Não se estenda !". "O espaço não vai dar!". "Ficou grande!" "Vou ter de cortar!" etc.etc.etc. Os outros cinquenta por cento dos jornalistas passam noventa por cento do tempo implorando por espaço e por tempo.</p>

<p>Parte-se da suposição de que a) ninguém pode escrever; b) ninguém quer ler.</p>

<p>Ah, racinha desgraçada....</p>

<p>Brigar contra o tamanho dos textos - ou o tempo de uma reportagem - passou a ser a ocupação principal desses bípedes esquisitos.</p>

<p>É como se os médicos passassem o dia dizendo uns aos outros: "Vou fazer uma cirurgia, mas tem de ser rápida! Nada de passar dez minutos operando ! "</p>

<p>Ou os engenheiros jogassem fora energia e neurônios discutindo coisas como "vamos fazer a ponte, mas, pelo amor de Deus, nada além de dois metros ! ".</p>

<p>Conclusão: não existe maior inimigo da escrita do que o jornalista.<br />
Se o Brasil fosse uma democracia, qualquer cidadão com idade superior a cinco anos deveria ter o direito de dar voz de prisão ao primeiro jornalista que aparecesse pela frente.</p>

<p>Eu estaria a esta hora na terceira cela à esquerda da ala norte da Penitenciária Agrícola de Itamaracá.</strong></p>]]>
    </content>
  </entry>
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    <title>O ( TRISTE) RESULTADO DE UMA ELEIÇÃO AMERICANA: O DIA EM QUE NORMAN MAILER RECONHECEU A VITÓRIA DA &quot;CULTURA TELEVISIVA&quot; SOBRE A &quot;CULTURA LITERÁRIA&quot;</title>
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    <modified>2008-09-17T18:46:59Z</modified>
    <issued>2008-09-17T15:45:48-03:00</issued>
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    <created>2008-09-17T18:45:48Z</created>
    <summary type="text/plain">http://www.geneton.com.br/archives/000174.html...</summary>
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      <![CDATA[<p><a href="http://www.geneton.com.br/archives/000174.html">http://www.geneton.com.br/archives/000174.html</a></p>]]>
      
    </content>
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    <title>A FALTA QUE ELE FAZ: JOEL SILVEIRA ( OU: O QUE UM REPÓRTER PODE FAZER DE ÚTIL NA VIDA, ALÉM DE TENTAR JOGAR ÁGUA NA GRANDE FOGUEIRA DO ESQUECIMENTO ?)</title>
    <link rel="alternate" type="text/html" href="http://www.geneton.com.br/archives/000279.html" />
    <modified>2008-09-17T18:41:44Z</modified>
    <issued>2008-09-17T15:38:43-03:00</issued>
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    <created>2008-09-17T18:38:43Z</created>
    <summary type="text/plain">Que falta faz o mestre Joel Silveira. Faz um ano e um mês que ele morreu. Durante vinte anos, tivemos uma convivência que guardo como se fosse um tesouro: eu era o discípulo tentando aprender com o mestre. Uma das...</summary>
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    <dc:subject>O Estado Geral das Coisas: Notas (Quase) Diárias</dc:subject>
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      <![CDATA[<p><strong>Que falta faz o mestre Joel Silveira. </p>

<p>Faz um ano e um mês que ele morreu. Durante vinte anos, tivemos uma convivência que guardo como se fosse um tesouro: eu era o discípulo tentando aprender com o mestre.</p>

<p>Uma das falhas da personalidade de um repórter é agir como repórter até diante de amigos. Que coisa! Confesso: é o que fiz com Joel Silveira. Éramos amigos. Mas, ali, eu era, também, um repórter diante de um personagem. Não poderia voltar para casa de mãos vazias. Não voltei. Ao longo desses anos todos, gravei conversas que tive com ele, na sala do apartamento de um sexto andar da rua Francisco Sá, em Copacabana. </strong></p>]]>
      <![CDATA[<p><br />
<strong>Modéstia à parte, a causa era nobre: eu não queria que as coisas que ouvia de Joel ficassem somente comigo. Era preciso repartir, espalhar,compartilhar aqueles ensinamentos, críticas, boutades, lembranças e confissões de um grande repórter que, com todo merecimento, ocupa uma vaga no esfarrapado Panteão do Jornalismo Brasileiro. Joel foi um dos grandes pioneiros no uso de técnicas literárias em textos jornalísticos.</p>

<p>Guardo comigo, com todo cuidado, a pequena coleção de fitas. Pergunto: que outra coisa de útil pode fazer um repórter, além de sair coletando da maneira mais cuidadosa possível as lembranças alheias, para dividí-las com os leitores ? Nada. A essência do jornalismo é esta. </p>

<p>Sem pretensões descabidas, sem megalomanias risíveis, sem exibicionismo vulgar: o repórter pode, sim, ser útil ao funcionar como o pequeno guardião de histórias e memórias que - de outra maneira - estariam inevitavelmente condenadas a desaparecer na poeira da estrada, destino inescapável de tudo e de todos. Em seus melhores momentos, o repórter atua como se fosse um bombeiro ingênuo: tenta fazer com que a Grande Fogueira do Esquecimento não devore tudo. É uma batalha inglória, mas, como nas piores e mais piegas histórias edificantes, ele descobrirá que, feitas as contas, o esforço "vale a pena", sim. A alternativa é terrível: cruzar os braços e não fazer nada. Chamuscado, ele sairá do prédio em chamas com alguma coisa nas mãos: quem sabe, uma velha fita cassete, um bloco de anotações. O resultado do trabalho do repórter é, no fim das contas, uma coleção de "salvados do incêndio".</p>

<p>(Assim, não me arrependo nem um pouco de ter importunado Carlos Drummond de Andrade em agosto de 1987 sem imaginar que ele vivia uma dor indizível: a filha, Maria Julieta, estava à beira da morte, na cama de um hospital. Drummond cedeu à minha insistência. Deu-me uma longa entrevista. Dias depois, a filha morreu. Em duas semanas, o próprio Drummond estava morto. A entrevista terminou virando uma espécie de testamento do maior poeta brasileiro. Importunei o poeta, sim, mas cometi uma "boa ação": produzi um documento sobre ele. Ah, o belo desafio de transformar lembranças em matéria "palpável": as palavras impressas....As declarações que arranquei do poeta arredio ocupam setenta páginas do livro "Dossiê Drummond", republicado há pouco tempo pela Editora Globo, em edição "revista e atualizada". Bem ou mal, as declarações que o poeta quis fazer apenas duas semanas antes de morrer não se perderam no ar: ganharam vida, ficaram guardadas em bibliotecas, vão ajudar um ou outro leitor a compreender o personagem Drummond. Missão cumprida, portanto. Um dia, o "Dossiê Drummond" haverá de cumprir o destino final de tantos e tantos livros: escondido lá no fundo de uma prateleira de um sebo empoeirado, cairá nas mãos de um leitor anônimo. Como se fosse um escanfandrista em busca de ostras perdidas no fundo do oceano, o leitor curioso desembolsará um punhado de reais por aquele feixe de lembranças impressas. O destino do livro terá se cumprido, na íntegra).</p>

<p>Paro por aqui. Ouço o ruído inconfundível das patas de uma fera roçando na porta dos fundos: é o Cão da Subliteratura querendo entrar. Já o conheço de outros carnavais, é claro. Bato em retirada antes que ele se instale na sala. </p>

<p>Mas deixo uma promessa por escrito.</p>

<p>Prometidíssimo: cedo ou tarde, vou reunir em livro as gravações que fiz com Joel. Podem ser úteis à troupe minoritária dos que se interessam de verdade por jornalismo. Joel foi pioneiro no uso de técnicas literárias no texto jornalístico. </p>

<p>Já tínhamos até escolhido um título: "Diálogos com o Último Dinossauro". </p>

<p>Há um ano, a gente falava da visita indesejada que bateu à porta do apartamento de Joel Silveira:</p>

<p><br />
A VIDA IMITA O POEMA NA MORTE DE JOEL SILVEIRA: O AGENTE FUNERÁRIO CHEGOU NA HORA. E A PLACA DO CARRO ERA LFR 1236</p>

<p>Faz pouco tempo, descobri um belo poema de Lawrence Ferlinghetti. O poeta diz, com outras palavras, que o mundo é um belo lugar, mas um dia, cedo ou tarde, ele virá : o agente funerário sorridente.<br />
E o agente veio. Acabo de sair da casa de Joel Silveira. Não quis ver a saída do corpo. A Santa Casa de Misericórdia avisou que o agente chegaria às duas horas. Pensei comigo: "Com a pontualidade brasileira, ele vai chegar lá para as quatro da tarde". Engano. Nem uma hora e cinquenta e nove minutos nem duas horas e um : eram duas em ponto quando o agente apertou a campainha, no apartamento de Joel Silveira, no sexto andar de um prédio da rua Francisco Sá, em Copacabana. O agente encenava, sem suspeitar, o poema de Lawrence Ferlinghetti. Era como se dissesse: tudo pode atrasar no Brasil, mas a morte, quando vem, chega exatamente na hora, sem tolerância. Nem um segundo de atraso.</p>

<p>Desci do sexto andar. Lá embaixo, tive o gesto inútil de observar a placa da Kombi branca da Santa Casa de Misericórdia: LFR 1236. A Kombi trazia, nas laterais, o nome da Santa Casa e o telefone: 0800 257 007.</p>

<p>Joel tinha inveja de um personagem de Vitor Hugo que, minutos antes de ser guilhotinado, dizia, resignado, que estava pronto para a execução,mas "gostaria de ver o resto". Ou seja: o personagem gostaria de descrever a própria morte. Que palavras Joel usaria ? </p>

<p>Quanto a nós, discípulos e aprendizes, já não há o que fazer, além de anotar a placa da Kombi : LFR 1236, três letras e quatro números amargamente inúteis.</strong></p>]]>
    </content>
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  <entry>
    <title>BERT KEIZER, O MÉDICO QUE MATA ( SE O PACIENTE PEDIR PARA MORRER) </title>
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    <modified>2008-06-05T16:58:38Z</modified>
    <issued>2008-06-05T13:55:13-03:00</issued>
    <id>tag:www.geneton.com.br,2008://1.278</id>
    <created>2008-06-05T16:55:13Z</created>
    <summary type="text/plain">Relato de um encontro com um personagem fascinante: o médico-filósofo que tenta salvar vidas mas , a pedido dos pacientes, pode também ajudá-los a morrer...</summary>
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      <name>geneton</name>
      <url>www.geneton.com.br</url>
      <email>geneton@geneton.com.br</email>
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    <dc:subject>Entrevistas</dc:subject>
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      <![CDATA[<p><strong>Relato de um encontro com um personagem fascinante: o médico-filósofo que tenta salvar vidas mas , a pedido dos pacientes, pode também ajudá-los a morrer </strong></p>]]>
      <![CDATA[<p></p>

<p>                                                           <strong>CENA 1.EXTERIOR DIA. AMSTERDÃ, HOLANDA<br />
 <br />
                                                           O Dr.Morte anda por uma rua chamada Vondelstraat, no centro de Amsterdã, numa bicicleta de aros cor de prata. Veste um casaco de couro preto. Os cabelos, embranquecidos pelos cinqüenta e nove anos, estão ralos. Os óculos de aros finos ampliam um olhar inquisidor. O céu encoberto por nuvens escuras dá à paisagem um toque apropriadamente melancólico. </p>

<p>                                                           Depois de prender a bicicleta a um poste com uma corrente, numa atitude que revela uma precaução exagerada, o Dr. Morte caminha para o encontro marcado com o entrevistador. </p>

<p>                                                            CENA 2. FLASH BACK: O AVISO DA CIGANA<br />
 </p>

<p>                                                          Pausa para uma digressão: a visão da bicicleta de aros cor de prata evoca a lembrança da única consulta que fiz a uma cigana, a serviço de uma edição especial do Almanaque Fantástico, em 2005. A Cigana Esmeralda disse que eu tomasse todo cuidado antes de viajar em carros prateados, porque as cartas do baralho que ele manuseava diante de meus olhos descrentes revelavam que havia risco de um grave acidente. Problemas no freio. Mas ela nada disse sobre bicicletas de aro prateado circulando sob o céu de chumbo de Amsterdã. Nossa Senhora do Perpétuo Espanto, padroeira dos repórteres, sopra-me com uma voz claudicante: “Vá em frente! Sinal verde para a entrevista”</p>

<p>                                                              CENA 3. PEQUENA INTERVENÇÃO DO NARRADOR<br />
  <br />
                                                             É bom prestar toda atenção ao que este homem diz. Porque o que ele diz tem tudo a ver com o destino de cem por cento dos seres humanos: a morte. Não é recomendável fazer de conta que o assunto não é fascinante. Porque é. Não adianta chamar o assunto de “mórbido”, “deprimente”, “lastimoso”, “incômodo”, “desagradável”. É bobagem recorrer a este velho arsenal de adjetivos, porque eles, no fim das contas, servem apenas como desculpa para que não se encare um fato irrevogável: um dia, o planeta seguirá existindo sem nossa presença. </p>

<p>                                                       “Não entendo gente que não é fascinada pela morte. Porque a idéia morte faz que com tudo passe a valer a pena. E torna tudo impossível, também. É, portanto, um dos mais terríveis e mais fascinantes temas de nossas vidas!”, ele diria, durante nossa entrevista.  “Não, eu não penso na morte o tempo todo. Mas, o tempo todo, a morte pensa em mim”.</p>

<p>                                                           CENA 4. O PERSONAGEM PRINCIPAL ENTRA EM CENA</p>

<p>                                                        Hora das apresentações. O homem se chama Bert Keizer. É um caso raro de médico que é filósofo. Ou filósofo que é médico. Formou-se em Filosofia na Inglaterra. Em seguida, decidiu estudar medicina, na Holanda, no início dos anos setenta. Formado, passou uma temporada no Quênia. Desde o início dos anos oitenta trabalha com pacientes terminais.</p>

<p>                                                          Pai de um casal de filhos, Bert Keizer pratica eutanásia, quando um paciente terminal lhe pede. Ou seja: ajuda o paciente a morrer. O debate jamais terminará: um médico – o profissional encarregado de zelar a todo custo pela vida – deve ou não apressar a morte de um paciente? Deve, sim, se médico e paciente estiverem na Holanda. Keizer faz um cálculo aproximado: já deve ter tratado de cerca de 1.500 pacientes terminais. Destes, 25 optaram pela eutanásia. Pediram – e receberam – ajuda do médico para que morressem logo. </p>

<p>                                                            A bem da verdade, é injusto chamar Keizer de “Doutor Morte”. O médico-filósofo pratica, sim, eutanásia, a pedido de pacientes, mas é incapaz de pronunciar uma palavra de simpatia à morte. Prefere, sempre, oferecer consolação e alívio a quem vê o apagão final se aproximar.             </p>

<p>                 ]<br />
                                                         CENA 5: DE COMO O MÉDICO SE TORNOU UM SUCESSO EDITORIAL<br />
                               <br />
                                                          Durante anos, Keizer fez anotações sobre a morte. Nunca publicara nada. Um dia, resolveu reunir as anotações num livro, publicado por uma pequena editora holandesa. Sucesso imediato. O texto do médico-filósofo é envolvente, inspirado. Não resvala jamais na pieguice. Uma grande editora inglesa se interessou pela aventura literária do médico, uma espécie de Drauzio Varella holandês. O livro “Dancing With Mister D” (“Dançando com a Sra. Morte”) fez sucesso na Inglaterra. Boa notícia: vai ser publicado no Brasil pela Editora Globo</p>

<p>                                                               Neste momento, o narrador passa a palavra para o médico-filósofo. O que ele diz nos ajuda a falar sobre o indizível, a entender o incompreensível.</p>

<p>                                                            CENA 6. O NARRADOR SAI DE CENA. CLOSE DO MÉDICO – QUE FALA OLHANDO PARA A CÂMERA</p>

<p>                                                            </p>

<p>                                                    “ Nem sempre é possível salvar vidas. Uma das coisas que devemos lembrar é que a porcentagem de pessoas que morrem é de cem por cento! Todo mundo vai morrer um dia. A medicina tenta nos afastar da morte. Mas não funciona. Porque todos nós temos de morrer. </p>

<p>                                                    Uma das razões por que entrei na Medicina foi a vontade de procurar formas de diminuir o sofrimento alheio. Ao insistir, por exemplo, em lançar mão de recursos tradicionais, a Medicina pode até aumentar o sofrimento de quem se aproxima da morte. Mas o médico pode diminuir o sofrimento se tiver a coragem de encarar o fato de que aquela pessoa vai morrer. Assim, ele poderá transformar este processo em algo suportável”.<br />
 <br />
           <br />
                                                   <br />
                                                   “O que ocorre na eutanásia é que você dá ao paciente um comprimido para dormir. Barbitúricos . Você não dá em forma de comprimido. Dá em forma de pó, dissolvido em glicerina e álcool. É uma poção, um drinque. Metade de uma xícara de café. Você dá. O paciente bebe. Em um, dois minutos, minuto, adormece. Não morre: adormece. Você, médico, faz uma promessa ao paciente: se ele, depois de adormecer, não tiver morrido depois de cerca de quarenta e cinco minutos, você dará uma pequena injeção letal, uma substância que se usa em cirurgias. Mas o paciente sabe que, quando tomar o comprimido dissolvido, morrerá. Se o paciente não puder engolir, você dará uma injeção, para administrar os barbitúricos. Também neste caso, os pacientes,primeiro, adormecem. Depois, morrem durante o sono. Parece terrível, mas não é uma maneira ruim de morrer.<br />
                                               </p>

<p>                                                É cair no sono na melhor das companhias”</p>

<p>CENA NUM QUARTO DE HOSPITAL: O MÉDICO ESPERA PELO SUSPIRO FINAL DA MULHER QUE TINHA PEDIDO PARA MORRER. MAS ELA DIZ: “AINDA ESTOU PENSANDO....”</p>

<p>                                                 <br />
                                               “Aconteceu uma vez com uma senhora que tinha tomado esta poção de barbitúricos. Eu e a filha desta mulher estávamos em pé, ao lado da cama, à espera do momento em que ela adormecesse e, em seguida, morresse. A mulher sentiu esse silêncio, notou nossa expectativa de que ela perdesse a consciência. Neste momento, ela nos disse: “Ainda estou pensando....”, o que foi, realmente, engraçado. Mas sei que ela tinha a sensação de estar deslizando rumo a um abismo. Mas o que ela disse trouxe alívio para aquele momento.</p>

<p> EUTANÁSIA SÓ EXISTE QUANDO O PACIENTE, CONSCIENTE, PEDE PARA MORRER. QUALQUER OUTRO CASO NÃO É EUTANÁSIA: É MEDICINA PALIATIVA                            </p>

<p><br />
                                    “Aqui, no meu país, a eutanásia é definida como “suicídio assistido por um médico”. Ou seja: o médico dá a você uma overdose, em caso de sofrimento insuportável sem qualquer perspectiva de recuperação. O médico pode, ao invés de dar a dose a você, administrá-la ele mesmo, se você pedir. Isso é que é eutanásia. </p>

<p>                                         Mas as pessoas têm idéias confusas sobre a eutanásia, porque pensam que é o que ocorre quando, ao tratar de um paciente terminal, que entrou mais ou menos em coma, o médico dá a ele uma dose extra de morfina, para que ele morra um pouco mais rápido. Isso não é eutanásia! Isso é tratar de um paciente terminal. Para nós, o pedido feito pelo próprio paciente para que se pratique a eutanásia é fundamental.<br />
Para que haja eutanásia, é preciso que alguém, em plena consciência, peça para morrer. Somente nestes casos, a eutanásia é possível. Em todos os outros casos, fala-se de medicina paliativa. Ou seja : o bom tratamento de um <br />
paciente terminal”.</p>

<p> UM INSTANTE DE DÚVIDA: DEVERIA OU NÃO TER AJUDADO UM HOMEM “COM RAIVA DA VIDA” A MORRER ? </p>

<p><br />
                                              “Em me lembro de um caso de eutanásia que me deixou intrigado...Um homem me fez ajudá-lo a se suicidar. Era um doente terminal de câncer de pulmão. Ia morrer. Mas ele fez aquilo com raiva. Estava com raiva dos médicos que o trataram, porque ele pensou que seria curado. Mas os médicos não o curaral. O homem ficou, então, furioso. Nesta raiva, ele contou com minha ajuda para se “vingar” da vida. Hoje, acho que é errado, não é um ato equilibrado de um homem sábio, mas um ato raivoso de um homem ferido. Não me sinto bem com relação a este caso”.</p>

<p>O MEDO ÍNTIMO DO MÉDICO QUE MATA:  MORRER NAS MÃOS DE UM MÉDICO INÁBIL                                                </p>

<p>                                                                “Tenho medo da extinção, sim. Isso me preocupa. Mas,biologicamente, sei que não existe escolha. Tenho também medo de morrer nas mãos de um médico que não saiba como cuidar de mim. Ou seja: um médico que continue tirando raios-x, em vez de me consolar e me dar analgésicos.</p>

<p>                                                                 Não entendo gente que não é fascinada pela morte. Porque a morte faz com que tudo valha a pena. E torna tudo impossível. É um dos mais terríveis e mais fascinantes temas de nossas vidas”. </p>

<p><br />
 SÓ HÁ DUAS MANEIRAS DE PENSAR NA MORTE. UMA É BOBA. A OUTRA É ESTÚPIDA</p>

<p>                                                                  “Há duas maneiras de pensar na morte. Você pode pensar na morte o tempo todo, o que é uma bobagem. Também pode não pensar nunca, o que é igualmente estúpido. É difícil encontrar um meio termo. Há quem diga que perco tempo demais me preocupando com a morte. Mas, quando a gente envelhece, estatisticamente passa a ficar mais próximo da morte do que quando tínhamos quinze anos, por exemplo. Não penso na morte o tempo todo. Mas, o tempo todo, a morte pensa em mim”</p>

<p> NÃO SE PODE OLHAR DIRETAMENTE PARA O SOL. NEM PARA A MORTE: “A GENTE NÃO PODE ENCARAR O NADA”<br />
                                    <br />
 <br />
                                                  “Penso em La  Rochefoucauld – que disse: “Não se pode olhar diretamente para o sol - ou para a morte”. É verdade: a gente não pode encarar o Nada, assim como não pode treinar os olhos para encarar o brilho do sol. Não se pode olhar para o Nada. É um abismo. Nem os que estão se aproximando da morte olham para ela! Pelo contrário. Preferem olhar para os que estão próximos e dizer: “Obrigado”,  “aproveite”, “você é inesquecível”. </p>

<p>                                                          A morte é, portanto, uma daquelas condições que não podemos imaginar. Podemos, por exemplo, olhar para a noite passada. Ali, estávamos “mortos”. Porque estar dormindo sem sonhar é como estar morto. É o que todo mundo faz toda noite. Não é nada de grandioso. Mas o medo de uma situação irrecuperável – o “não-ser” – é uma das piores coisas sobre as quais temos de pensar. Porque não podemos imaginar o universo sem nós. A gente pensa: se morremos, todo o universo morre. É inimaginável que as coisas continuem depois”</p>

<p><br />
A GRANDE SÁIDA É IMAGINAR: “DURANTE MILHÕES DE ANOS NÃO ÉRAMOS NASCIDOS. ISSO NUNCA FOI UM PROBLEMA PARA NÓS!”</p>

<p><br />
                                                         “A vida não é perfeita. O que acho que serve de consolo é o fato de que podemos olhar para a morte com alguma distância, com clareza. Não se pode viver sem ilusões. Mas deve-se ter o menor número possível de ilusões. A tarefa de se livrar das ilusões é a Filosofia. Buscar a clareza na vida é uma atitude que nos ajuda a combater o pessimismo. A filosofia é uma maneira de criar clareza sobre nossas confusões.                                                                                                                         <br />
                                                                É impossível contemplar o nada, o não-ser. Mas devemos pensar nos milhões de anos em que não éramos nascidos. O fato de não termos existido antes não é um problema para nenhum de nós. Qualquer criança pode entender! <br />
É algo que não incomoda a ninguém. Mas aí nós nascemos, vivemos por sessenta anos – por exemplo -  e morremos. Por milhões de anos adiante, estaremos mortos. O fato de não termos existindo antes não é um problema, mas o fato de que estaremos mortos por milhões de anos adiante nos incomoda!  É engraçado este incômodo, porque não faz sentido. Creio que este incômodo acontece porque, neste caso, estamos falando de nossa própria morte, algo que não podemos imaginar. Não podemos nos imaginar não estando aqui! </p>

<p>                                                                Mas, antes de nascer, você esteve morto por milhões de anos. Isso não foi nada difícil. Ou foi ? Claro que não”. <br />
                                <br />
                                                                <br />
                                                                       </strong></p>]]>
    </content>
  </entry>
  <entry>
    <title>THEODORE VAN KIRK, NAVEGADOR DO AVIÃO QUE JOGOU A BOMBA ATÔMICA EM HIROSHIMA</title>
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    <modified>2008-06-05T16:51:32Z</modified>
    <issued>2008-06-05T13:22:01-03:00</issued>
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    <summary type="text/plain">O HOMEM QUE PARTICIPOU DAQUELE QUE JÁ FOI CONSIDERADO “O MAIS VIOLENTO ATO DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE” - O LANÇAMENTO DE UMA BOMBA ATÔMICA SOBRE A CIDADE DE HIROSHIMA, NO JAPÃO – DIZ QUE HOJE SE LEMBRA DAS VÍTIMAS “UMA...</summary>
    <author>
      <name>geneton</name>
      <url>www.geneton.com.br</url>
      <email>geneton@geneton.com.br</email>
    </author>
    <dc:subject>Entrevistas</dc:subject>
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      <![CDATA[<p><strong>O HOMEM QUE PARTICIPOU DAQUELE QUE JÁ FOI CONSIDERADO “O  MAIS VIOLENTO ATO DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE” -  O LANÇAMENTO DE UMA BOMBA ATÔMICA SOBRE A CIDADE DE HIROSHIMA, NO JAPÃO – DIZ QUE HOJE SE LEMBRA DAS VÍTIMAS “UMA VEZ POR MÊS,EM MÉDIA” </p>

<p>                                                                                  </strong></p>]]>
      <![CDATA[<p>                                              </p>

<p>                                                  <strong>Eis um dos cavaleiros do apocalipse:  um homem de oitenta e dois anos colhe peras no pequeno pomar que cultiva no jardim de casa, num subúrbio de São Francisco, Califórnia. Oferece-me a fruta. “É boa e doce”. Faz sol. O azul escancarado do céu só é maculado pelo rastro deixado por um avião a jato.  </p>

<p> </p>

<p>                                                  Enquanto saboreia a pêra que acabou de colher, ele se dirige, a passos lentos, para uma cadeira na beira da piscina. Os raios de sol acentuam a brancura dos cabelos ralos. O pomar em casa e o conforto sugerido pela piscina podem dar a impressão de que o homem que colhe peras é um milionário.  Não é. O homem que colhe peras é apenas um militar aposentado.</p>

<p> </p>

<p>                                               A biografia deste octogenário não seria diferente da de tantos outros veteranos de guerra se ele não tivesse levantado vôo, na madrugada de agosto de 1945, a bordo do Enola Gay – o avião que conduzia a primeira bomba atômica usada numa guerra. Ao embarcar no Enola Gay, Van Kirk entrou para a História – para o bem e para o mal.  </p>

<p> </p>

<p>                                             Os que criticam o uso da arma atômica chamam os militares que participaram do ataque de mensageiros da morte. Os que encontram uma justificativa histórica chamam-nos de guerreiros da paz. A polêmica durará séculos. </p>

<p> </p>

<p>                                          A missão que Theodore Van Kirk cumpriu há seis décadas mudou a história da humanidade. Todos os superlativos já foram usados para descrever a enormidade do ataque nuclear a Hiroshima. “Aquele foi o ato mais violento da história da humanidade, mas trouxe um fim para a Segunda Guerra” - diz Bob Greene, autor de um livro recém-lançado, “Duty: a Father, His Son and The Man Who Won The War” - um jornalista que desde criança era fascinado pela Missão Hiroshima. </p>

<p> </p>

<p>                                         Que fantasmas povoam hoje os dias calmos deste homem ?  </p>

<p>                                         Se ele não tivesse embarcado  há meio século para a Missão Hiroshima , certamente não teria o descanso dos seus dias de aposentadoria quebrado pela impertinência de repórteres que o procuram para tirar velhas dúvidas. </p>

<p> </p>

<p>                                      É o que faço agora. Van Kirk  nos recebe com um sorriso largo , uma pergunta bem-humorada (“vocês conseguiram chegar ? Pensei que tinham ficado presos no engarrafamento !”)  e a disposição de abrir o armário onde se escondem os fantasmas de Hiroshima.</p>

<p> </p>

<p>                                         Pergunto se ele levou algum objeto pessoal quando embarcou no vôo histórico. Van Kirk me surpreende com a resposta: o único “objeto pessoal” que ele levou a bordo do avião que carregava a bomba atômica foi uma Bíblia. Se precisasse de conforto espiritual durante a Missão, poderia recorrer àquela pequena relíquia familiar:</p>

<p> </p>

<p>                                        - A única peça pessoal que carreguei comigo foi uma Bíblia – que eu tinha recebido de minha mãe e de meu pai. Era pequena. Cabia no bolso. Durante o vôo, eu me lembro de ter tocado a Bíblia com a mão. Mas não cheguei a ler nenhuma passagem. O exemplar da Bíblia não tinha meu nome, nada que pudesse identificar quem eu era. Se o avião por acaso fosse derrubado em território inimigo, os japoneses não poderiam me identificar pela Bíblia. Terminei perdendo-a, tempos depois.</p>

<p> </p>

<p>                                        Além do pequeno exemplar da Bíblia, Van Kirk carregava consigo uma pistola automática – que poderia ser usada numa situação extrema:</p>

<p> </p>

<p>                                        - Não havia rifles a bordo. Mas cada um de nós tinha uma pistola automática, calibre 45. Carreguei uma comigo, na missão rumo a Hiroshima. Se fôssemos derrubados sobre território japonês, poderíamos usar as pistolar para nos proteger ou – Deus nos livre – para destruir a nós mesmos, se necessário (Van Kirk evita a palavra “suicídio”). Mas, se algo desse errado na missão, a cena seria tão catastrófica que teríamos pouca chance de usar as pistolas.</p>

<p>                                                     </p>

<p> </p>

<p>                                       Ninguém participa impunemente de uma missão tão devastadora. </p>

<p>                                       Van Kirk orgulha-se de ter contribuído para o fim da guerra. É um fato histórico indiscutível. O uso das armas atômicas – primeiro, em Hiroshima e depois em Nagasaki -  obrigou o Japão à rendição incondicional . Se o Japão continuasse em guerra, seria invadido por terra. O número de mortos poderia ter sido maior do que o causado pelas bombas – dizem os estrategistas. Mas o preço do uso das armas atômicas foi altíssimo. O horror causado pelo cogumelo atômico jamais se dissipou. Calcula-se que cem mil pessoas tiveram morte instantânea, nos dez segundos seguintes à explosão. As cicatrizes deixadas pelas explosões atômicas vão atravessar os tempos.</p>

<p> </p>

<p>                                        Que tipo de pensamento terá passado pela cabeça de Van Kirk quando ele viu Hiroshima pela primeira vez, ainda a bordo do Enola Gay?</p>

<p> </p>

<p>                                         Van Kirk faz uma pausa, reconstitui o cenário do apocalipse:</p>

<p> </p>

<p>                                         - Era um dia perfeitamente claro. A gente podia ver a cidade a milhas de distância. A primeira coisa que me veio à cabeça foi a de que nossa missão tinha sido bem sucedida: nós tínhamos encontrado a cidade, cumprimos os horários previstos, tudo estava perfeito. O primeiro pensamento que tive depois da explosão da bomba foi de alívio. Porque aquilo era algo que tinha exigido um treinamento que durara meses. O segundo pensamento que tive foi: a guerra acabou!</p>

<p><br />
                                           A História dos tempos de guerra  não é feita apenas de ordens militares grandiosas e decisões sem rosto. Há sempre alguém que cumpre as ordens. As decisões tomadas no Salão Oval da casa Branca pelo Presidente dos Estados Unidos podem exigir -  por exemplo – que um grupo  de militares entre num avião de madrugada, invada o espaço aéreo japonês, mire numa cidade lá embaixo e abra as comportas para que seja lançada, naquele alvo povoado por homens,mulheres e crianças, a arma mais mortífera já concebida pelo homem- uma bomba atômica.</p>

<p>                                               O avião Enola Gay  levanta vôo da ilha de Tinian, no Oceano Pacífico, às 2 e 45 da manhã de seis de agosto de 1945 rumo a Hiroshima, com doze homens – e  uma bomba atômica a bordo. A bomba explode às 9h16. Cem mil pessoas morrem instantâneamente na explosão. O número de vítimas chegaria a 145.000 no final de 1945.<br />
                                             </p>

<p>                                              “Numa cidade de 245 mil habitantes, cerca de 100 mil haviam morrido ou iriam morrer em breve; outros 100 mil estavam feridos. Pelo menos 10 mil feridos se arrastaram até o melhor hospital de Hiroshima, que não tinha condições de abrigá-los, pois contava apenas seiscentos leitos e todos já estavam ocupados”, diria o jornalista americano John Hersey em "Hiroshima", texto clássico sobre o bombardeio. <br />
“Nuvens de fumaça, próximas e distantes, despontavam pouco a pouco por entre a poeira. O reverendo se perguntou como um céu silencioso ter causado tanta destruição (...) Zonzos de dor, erguiam os braços, como se carregassem alguma coisa com as duas mãos. Alguns vomitavam, sem parar de andar. Muitos estavam nus ou envoltos em farrapos”</p>

<p>                                           A Missão Hiroshima foi o momento mais grave vivido por Van Kirk. Mas, para decepção dos fanáticos por guerra, ele constata:</p>

<p>                                              - A guerra é mais interessante na TV do que na vida real.  Guerra pode significar cinco minutos de extrema atividade – e um ano de monotonia....</p>

<p> </p>

<p>                                           Não havia lugar para monotonia a bordo de um avião que voava rumo ao Japão para cumprir uma missão que – não é exagero dizer -  entraria para a história da humanidade:</p>

<p> </p>

<p>                                         - Havia a possibilidade de a bomba explodir no avião, o que seria desastroso. Poderíamos ter problemas no motor. Nós estávamos preparados para o pior – que, felizmente, não aconteceu.  Não estávamos preocupados com os japoneses durante o vôo em direção a Hiroshima, porque sabíamos que eles não tinham como nos alcançar naquela altitude – confessa Van Kirk . Mas sabíamos que nosso avião seria atingido por ondas provocadas pelo deslocamento de ar, depois da explosão. Disseram-nos que, depois da explosão, iríamos sofrer o impacto. Houve até especulações sobre o risco de a explosão atingir o nosso avião. De volta à base, cheguei a ouvir de um dos cientistas o seguinte: “Quando vocês partiram para a missão, pensei que aquela seria a última vez que eu os veria....”. A turbulência durou pouco. O vôo de volta pôde continuar. </p>

<p>                                    </p>

<p>                                              O calor que se espalhou por Hiroshima e Nagasaki era o de “mil sóis”. Seres humanos “se desintegraram sem deixar qualquer vestígio”. O inferno se instalou na terra. O grande paradoxo é que tanta destruição foi cometida – em última instância - em nome da paz – para acabar com a guerra. O Japão se rendeu. A Segunda Guerra Mundial acabou ali. Mas Hiroshima e Nagasaki entraram para sempre na História como provas de que o homem é tecnicamente capaz de destruir a vida sobre a terra. Basta tomar a decisão.</p>

<p> </p>

<p>                                        “Os cientistas tinham dito que a temperatura no centro da explosão seria mais forte que a do sol – diz Van Kirk. Quando a bomba explodiu lá embaixo, nós já estávamos nos afastando de Hiroshima. Não havia janelas na parte traseira do avião. Usávamos equipamentos para proteger nosso olhos. Ainda assim, pudemos ver um clarão parecido com o de um flash fotográfico numa sala escura. Hiroshima estava inteiramente encoberta por uma fumaça negra e por poeira. Não se via a cidade. A nuvem que se formou tinha várias cores: eram tons de cor púrpura, rosa, branca – todos os tipos de cores". </p>

<p> </p>

<p>                                      A visão era  bonita? – pergunto ao navegador.</p>

<p> </p>

<p>                                      “Não se pode chamar algo assim de belo. Era algo mais horrível do que bonito”.</p>

<p>   </p>

<p>                                      Adiante, ele aprofunda a descrição:</p>

<p> </p>

<p>                                      - Minha primeira reação, ao ver as primeiras imagens de Hiroshima, foi de surpresa: como aquilo tudo pôde ser feito com apenas uma bomba? Aquilo reforçou a nossa certeza de que não havia meio de os japoneses resistirem a uma arma daquele tipo. O Japão iria se render logo depois.</p>

<p> </p>

<p> </p>

<p>                                     O que é que a palavra Hiroshima significa hoje para este homem?</p>

<p> </p>

<p>                                     “Para mim, Hiroshima significa, hoje, a ressurreição de uma cidade que foi destruída”, diz Van Kirk. “Hiroshima é também a prova de que o homem pode corrigir seus erros. Não é que a bomba atômica tenha sido um equívoco. O bombardeio foi perfeitamente legítimo como ato de guerra. A população de Hiroshima é hoje devotada à paz.É uma mensagem que vai para todo o mundo”. </p>

<p> </p>

<p>                                     Que resposta o navegador do Enola Gay dá, hoje, aos críticos da Missão Hiroshima, gente que condena o uso de armas atômicas?</p>

<p> </p>

<p>                                      - Críticos da missão atômica não entendem a situação que se vivia naquele momento específico e qual a alternativa que existia ao uso da bomba. O que aconteceu é que a bomba salvou vidas. Se não tivéssemos jogado a bomba, a guerra não teria terminado em agosto. Teria se estendido por um, dois meses. Durante este período, o Japão estaria exposto a um horrível bombardeio – com grande perda de vidas. Embora tenha havido uma horrível perda de vidas em Hiroshima – e também em Nagasaki – a alternativa seria pior : basta levar em conta o número de vidas que teriam sido perdidas se a guerra continuasse.                     </p>

<p>                                          Ao contrário do esperado, o Japão não se rendeu depois da explosão da bomba em Hiroshima. Os Estados Unidos decidem,então, lançar uma segunda bomba atômica. O alvo era a cidade de Kokura. Mas, como a cidade estava encoberta por nuvens, a bomba foi jogada em Nagasaki. O Japão finalmente se rende. O documento da rendição incondicional é assinado no dia 2 de setembro  </p>

<p>                                 </p>

<p>                                   Pergunto se Van Kirk  já teve pesadelo com Hiroshima: </p>

<p> </p>

<p>                                   - Nunca. Há quem me critique pelo fato de eu nunca ter tido pesadelo com a bomba atômica. Mas devo dizer que não tive. Porque acho que o que fizemos em Hiroshima foi apropriado.</p>

<p> </p>

<p>                                    E ele faria tudo de novo?</p>

<p> </p>

<p>                                   - Eu faria – diz Van Kirk , sem titubear. Faria tudo de novo, se as circunstâncias que a gente tinha ali se repetissem : um conflito  que se estendia por anos, com muita matança, com feridos, com o país inteiro em estado de guerra, não apenas as forças armadas. Mas creio que as circunstâncias não se repetiriam. Não acredito que nenhuma outra guerra dure mais que uma semana ou duas.</p>

<p> </p>

<p>                                    Se tivesse tido a chance de falar aos habitantes de Hiroshima momentos antes do lançamento da bomba, o que Van Kirka diria a eles?</p>

<p> </p>

<p>                                    - Eu diria: lamento que nós tenhamos de bombardear a cidade. É um ato necessário. Vocês não aceitaram os termos da rendição incondicional – que nós oferecemos. O resultado é este.</p>

<p><br />
                                   Aos que dizem que o ataque a Hiroshima é discutível  porque atingiu indiscriminadamente alvos civis, Van Kirk responde que não :  Hiroshima era a sede das instalações militares japonesas encarregadas de defender o país em caso de invasão. Havia na cidade pelo menos cem “alvos militares”. Mas a população civil pagou o preço.</p>

<p> </p>

<p>                                    Van Kirk acha absurda qualquer comparação entre o ataque atômico ao Japão – um ato de tempos de guerra – e, por exemplo, o ataque dos guerreiros de Bin Laden ao World Trade Center. O sentimento antiamericano, aguçado na era Bush, deu margem a comparações desse tipo.</p>

<p> </p>

<p>                                     - Quando vi o ataque ao World Trade Center me perguntei: que tipo de gente pode fazer algo assim? É algo que não consigo imaginar :  que eles tenham achado que algo de bom poderia sair dali. Quando houve Hiroshima, nós estávamos em guerra. Havia legitimidade. Não apenas nós estávamos envolvidos na guerra,mas todo mundo – os britânicos, os russos, todos. Mas o ataque ao World Trade Center foi feito em tempos de paz. Como puderam fazer? Não consigo entender. Eu não o faria – nunca. Nunca.</p>

<p> </p>

<p>                                      Tento provocá-lo : o senhor iria a uma guerra hoje para capturar Bin Laden?</p>

<p> </p>

<p>                                      - Sim. Mas não creio que seja necessária uma guerra.</p>

<p> </p>

<p>                                        Vida de personagem da história é assim: o navegador do avião que jogou a bomba atômica oferece ao repórter um autógrafo sobre uma foto do Enola Gay. A relíquia vai para meus arquivos implacáveis. Pai de dois filhos e duas filhas, avô de sete netos, Van Kirk vive sozinho, com a mulher parcialmente inválida. </p>

<p>                                    Em seus momentos de solidão, Van Kirk hoje se lembra das vítimas da bomba?</p>

<p><br />
                                  - Eu hoje me lembro das vítimas com menos freqüência do que antes. Mas a cada vez que vejo uma foto, um filme ou uma menção de alguém, me lembro das vítimas da bomba atômica. É algo que acontece menos e menos, à medida em que envelheço e o tempo vai passando. Hoje, devo me lembrar das vítimas uma vez por mês. Pode acontecer de eu me lembrar das vítimas duas vezes em um mês e, em seguida, passar três meses sem me lembrar. Mas a média é de uma vez por mês.</p>

<p> </p>

<p>                                   Van Kirk fica em silêncio. Nessas horas, ele parece rever intimamente os fantasmas de Hiroshima :  o pesadelo da guerra, o imenso cogumelo atômico, a decisão dramática, a destruição indizível. </p>

<p> </p>

<p>                                 É sempre assim: quando uma notícia qualquer de TV fala da guerra ou quando um repórter vem de longe para ouví-lo sobre o dia histórico, Van Kirk embarca numa viagem feita de palavras, lembranças e silêncios - como agora. Não se recusa a falar. Não se esconde. Porque, desde o momento em que entrou no Enola Gay para voar rumo a Hiroshima, ele sabia que aquela viagem não acabaria nunca. </p>

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<p> <br />
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    </content>
  </entry>
  <entry>
    <title>LIÇÕES  PARA JOVENS JORNALISTAS OU DINOSSAUROS: A PALAVRA DO REPÓRTER QUE DERRUBOU UM PRESIDENTE! </title>
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    <summary type="text/plain">AQUI: http://www.geneton.com.br/entrevistas/...</summary>
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    <dc:subject>manchete</dc:subject>
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      <![CDATA[<p>AQUI:<br />
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    <title>CARL BERNSTEIN, O REPÓRTER DO CASO WATERGATE</title>
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    <modified>2008-05-26T01:15:06Z</modified>
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    <summary type="text/plain"> ATENÇÃO, ESTUDANTES DE JORNALISMO! EIS AS LIÇÕES DO REPÓRTER QUE DERRUBOU UM PRESIDENTE!...</summary>
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    <dc:subject>Entrevistas</dc:subject>
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      <![CDATA[<p>                           <br />
                           ATENÇÃO, ESTUDANTES DE JORNALISMO! EIS AS LIÇÕES DO REPÓRTER QUE DERRUBOU UM PRESIDENTE!</p>

<p></p>

<p><br />
                          </p>]]>
      <![CDATA[<p>           </p>

<p>                                <strong>Quem ? Carl Bernstein e Bob Woodward. O quê ? Publicaram no Washington Post reportagens que levaram um presidente dos Estados Unidos a renunciar. Quando ? Entre 1972 e 1974. Onde ? Em Washington. Por quê ? Porque são repórteres puro-sangue.</p>

<p>                            Se o Quarto Poder existe,  ei-lo , então: os cabelos estão cem por cento grisalhos; os olhos fixam com firmeza o interlocutor; o sorriso parece sincero e cativante; a mão esquerda exibe uma aliança; a barriga ligeiramente saliente clama por uma boa dieta. Nome da fera: Carl Bernstein. Se fosse dado a bravatas, Bernstein poderia bater no peito e dizer que, em parceria com Woodward, derrubou um presidente americano. Jamais alguém encarnou com tanta propriedade, portanto, o chamado “Quarto Poder”.</strong><br />
               <br />
                              <strong>Quando o Washington Post começou a publicar insistentes reportagens sobre o arrombamento dos escritórios do Partido Democrata no Edifício Watergate, a dona do jornal, Katharina Graham, ficou intrigada com o desdém com que outros jornalistas tratavam do assunto. Perguntou ao editor-chefe Ben Bradlee: </p>

<p>                              “Se esta história é tão boa, cadê o resto da imprensa?”.</p>

<p>                              O arrombamento – ocorrido no dia dezesseis de junho de 1972 - parecia um caso policial sem importância. Mas a persistência dos repórteres do Washington Post expôs um escândalo: os arrombadores estavam, na verdade, fazendo espionagem política, a serviço de assessores do presidente Richard Nixon. A Casa Branca estava envolvida no jogo sujo. </p>

<p>                             O escândalo revelado pelos repórteres terminou obrigando o presidente a renunciar.  Mas ali, no início de tudo, ninguém seria capaz de imaginar a dimensão que o escândalo alcançaria. O que havia eram apenas indícios, pistas, fumaça. O fogo apareceria adiante.</p>

<p>                              </p>

<p>                                       “Cadê o resto da imprensa ?”    </p>

<p>                                        Não se sabe. Mas, aos vinte e oito anos de idade, Carl Bernstein  estava no território que é o habitat natural de todo repórter: a rua. Sob a bênção de Nossa Senhora do Perpétuo Espanto, padroeira dos repórteres puro-sangue, buscava de pistas que esclarecessem o arrombamento do Edifício Watergate, sede do Partido Democrata - que fazia oposição ao presidente Richard Nixon, eleito pelo Partido Republicano.   <br />
    <br />
                                        O fio da meada não demorou a ser descoberto: um dos arrombadores do Edifício Watergate trazia, no bolso, um pedaço de papel com a anotação “W. House”. Parecia ser a abreviação de White House, Casa Branca. E um nome: Howard Hunt. </p>

<p>                                         Bob Woodward arriscou: deu um telefonema para a Casa Branca, para checar se por acaso existiria algum sr. Hunt entre os servidores. A telefonista disse que sim. Iria transferir a ligação. Ninguém atendeu no ramal. A ligação voltou para a telefonista – que informou a   “Talvez o sr. Hunt esteja no escritório do sr. Colson”.</p>

<p>                                         Tratava-se de Charles Colson, um dos principais assessores do presidente. </p>

<p>                                         Washington Post 1 x Nixon 0.</p>

<p>                                         A descoberta provocaria uma “nova descarga de adrenalina” na equipe do Washington Post– diria, tempos depois, o editor-chefe Bem Bradlee, ao descrever a cena. </p>

<p>                                         Quando finalmente conseguiu falar com Hunt,  o repórter foi direto ao assunto: “Como é que o nome do senhor foi parar numa anotação encontrada com os arrombadores do Edifício Watergate ?”.</p>

<p>                                           O assessor de Nixon fez silêncio, antes de suspirar, desolado: </p>

<p>                                           “Meu bom Deus.....”</p>

<p>                                          Washington Post 2 x Nixon 0.</p>

<p><br />
Carl Bernstein juntou as duas pontas do fio que provocaria um curto-circuito fatal no governo Nixon</p>

<p></p>

<p>                                           O caminho estava aberto para que o jornal estabelecesse uma ligação indesmentível entre o governo do presidente Nixon e os arrombadores que tentavam instalar equipamentos de escuta na sede do Partido Democrata, no Edifício Watergate. <br />
 <br />
                                           Carl Bernstein juntou as duas pontas do fio que provocaria um curto-circuito fatal no governo Nixon: com ajuda de um investigador que estava trabalhando no caso por conta própria, descobriu que as notas de dólar – novas em folha -  encontradas com os arrombadores tinham saído de um banco em Miami. </p>

<p>                                          Próximo passo: descobrir se algum dos arrombadores tinha conta na agência. Tinha. Bernard Barker, um dos homens presos na sede do partido, tinha aberto não apenas uma, mas duas contas. <br />
           <br />
                                            Cartada final:  quem tinha abastecido esta conta ?  Descobriu-se um cheque de vinte e cinco mil dólares, emitido por um certo Kenneth H. Dahlberg. Depois de uma nova e frenética busca nos catálogos telefônicos, os repórteres conseguem encontrar mister Dahlberg – que informa: como simpatizante de Richard Nixon, tinha recolhido doações em dinheiro para a campanha de reeleição do presidente. As doações foram transformadas em cheque, devidamente encaminhado ao chefe do Comitê de Reeleição do Presidente. Dali, o dinheiro foi parar nas mãos dos homens que tentavam espionar a sede do Partido Democrata.</p>

<p>                                        Washington Post 3 x Nixon 0. Placar final.  </p>

<p>                                        “Bingo!”, escreveria Bradlee.</p>

<p>                                       O cerco tinha se fechado. A partir daí, em meio a uma crise política que se arrastou por dois anos, o Escândalo de Watergate engoliu o governo Nixon.  Gravações de diálogos entre Nixon e assessores provaram que o presidente tinha conhecimento das operações de espionagem e sabotagem de adversários políticos. A Suprema Corte obrigou o presidente a divulgar as gravações. <br />
O Senado abriu uma investigação que, fatalmente, levaria ao impeachment do presidente. Nixon convocou uma rede nacional de rádio e televisão para as nove horas da noite de de oito de agosto de 1974 para entregar os pontos: anunciou que, ao meio-dia do dia nove, entregaria o cargo ao vice-presidente Gerald Ford.</p>

<p><br />
                                       A dupla Woodward-Bernstein ganhou fama, dinheiro e reconhecimento. Em dois livros de sucesso internacional – “Todos os Homens do Presidente” e “Os Últimos Dias” - os dois descreveram a saga iniciada com a cobertura de um arrombamento que parecia banal. </p>

<p>                                           Dirigido por Alan Pakula, o filme baseado no livro “Todos os Homens do Presidente” virou um clássico do cinema político. Os atores foram escolhidos a dedo entre o primeiro time de Hollywood: Dustin Hoffman encarnou Carl Bernstein nas telas. Robert Redford fez o papel de Bob Woodward. </p>

<p><br />
O anônimo repórter que, até então, se ocupava da cobertura de assuntos locais, como arrombamentos sem grande importância, viu-se  transformado em modelo de um dos maiores atores do cinema: Dustin Hoffmann passou a freqüentar a redação do Washington Post para observar os maneirismos de Bernstein.</p>

<p><br />
                                           O autor de um perfil biográfico de Bernstein notou que, em apenas dois anos, a vida do repórter sofreu uma transformação inimaginável. O anônimo repórter que, até então, se ocupava da cobertura de assuntos locais, como arrombamentos sem grande importância, viu-se  transformado em modelo de um dos maiores atores do cinema: Dustin Hoffmann passou a freqüentar a redação do Washington Post para observar os maneirismos de Bernstein.</p>

<p>                                         A dupla virou espelho de uma geração inteira de jornalistas. O chefe dos dois, Ben Bradlee, diz que, nos anos seguintes ao Escândalo de Watergate, se divertia com a voracidade demonstrada por jovens repórteres na redação do jornal. Inspirados pelo rigor que a dupla Woodward-Bernstein demonstrava na apuração de informações, os aprendizes voltavam da cobertura de um incêndio banal, num subúrbio remoto, dizendo coisas como “descobri que o chefe dos bombeiros era anti-semita!”.</p>

<p>                                           Bradlee diz que a mitologia criada em torno dos dois repórteres teve um efeito positivo: atraiu para o jornalismo “jovens, brilhantes e talentosos homens e mulheres que poderiam ter se encaminhado para outras profissões”.</p>

<p>                                           Ao contrário de Woodward – que, na vida pessoal, fez a opção pela discrição - Bernstein enfrentou turbulências pós-fama: teve problemas com álcool, torrou o dinheiro que ganhou com os livros e o filme sobre o escândalo, freqüentou as páginas dos tablóides como personagem de fofocas. </p>

<p>                                          Três décadas depois de Watergate, no entanto, os dois exibem um fôlego admirável: não deixaram de ser repórteres. Permanecem produzindo. <br />
Bob Woodward pediu e, surpreso, recebeu autorização para freqüentar os bastidores da Casa Branca porque queria documentar o que levou o governo Bush a intervir militarmente no Iraque, em nome do combate ao terrorismo. Resultado: o livro “Plano de Ataque”.</p>

<p>                                        Bernstein lançou, nos anos noventa, uma alentada biografia do Papa João Paulo II, em parceria com um jornalista italiano. Em seguida, embarcou numa empreitada ambiciosa: a biografia da ex-primeira dama Hillary Clinton, lançada em 2007. </p>

<p>                                        A grande lição que o repórter Bernstein dá pode ser resumida em poucas linhas: quando vai apurar uma reportagem, o repórter não deve cair, jamais, na tentação de fazer pré-julgamentos sobre fatos e personagens. Bernstein é claro e direto: os jornalistas devem reaprender a ouvir. É uma obsessão que ele cultiva. Diz que só obteve sucesso na investigação sobre o Escândalo de Watergate porque ouvia,ouvia e ouvia ( daqui a pouco, na entrevista, ele falará sobre esta virtude que todo repórter deve cultivar incondicionalmente).  Ao contrário do que tantos jornalistas fazem, não se comportava como se fosse um político: não simpatizava, claro, com as tramóias armadas por integrantes do Partido Republicano nos bastidores do governo Nixon, mas tratou de cultivar fontes de informação importantíssimas entre os republicanos. É assim que se faz jornalismo. Bernstein é inimigo do jornalismo engajado. </p>

<p>                                      Bernstein e Woodward poderiam cair na tentação de articular teses grandiosas sobre a renúncia de Nixon. Mas, não. Em “Os Últimas Dias”, eles apegam-se aos fatos: informam, por exemplo, que o presidente dormiu apenas três horas no dia em que anunciaria ao mundo que iria renunciar ao cargo</p>

<p><br />
                                     O papel do repórter, diz, é e sempre será o de apurar os fatos com rigor para apresentar ao público “a melhor versão possível da verdade”. Numa apuração, todo detalhe é importante. Bernstein e Woodward poderiam cair na tentação de articular teses grandiosas sobre a renúncia de Nixon. Mas, não. Em “Os Últimas Dias”, eles apegam-se aos fatos: informam, por exemplo, que o presidente dormiu apenas três horas no dia em que anunciaria ao mundo que iria renunciar ao cargo. Ocupado na preparação do discurso que faria em rede nacional de rádio e TV, o presidente disparou um último telefonema para um assessor às 5 e 14 da manhã. Três horas depois, Richard Nixon estava de pé. O café da manhã, informam os repórteres, foi à base de cereal, leite e um suco de laranja. Milton Pitts,  o barbeiro que há anos atendia a Nixon, recebeu às dez da manhã um telefonema da Casa Branca: o presidente queria que ele estivesse lá às dez e quinze. Pitts chegou na hora. Ficou sozinho com o presidente durante o tempo em que durou o corte de cabelo: vinte e dois minutos.<br />
Terminada a sessão, Nixon estava pronto para o mais longo dos dias: pela primeira vez na história, um presidente americano renunciaria ao cargo. Os últimos dias de Nixon na Casa Branca foram registrados minuciosamente por Bernstein e Woodward nas 470 páginas de “The Final Days”. Os dois produziram o que o jornalismo faz: o primeiro rascunho da História. <br />
                 </p>

<p>                                         Agora, ei-lo, numa passagem rápida por São Paulo e pelo Rio de Janeiro. Resolvo embarcar numa Maratona Bernstein, com um gravador, um bloco de anotações e uma câmera. Missão: importunar o repórter do Caso Watergate. A Maratona se dividiu em três frentes. Primeira: uma entrevista exclusiva com Bernstein – que desembarcara em São Paulo para fazer uma conferência na Câmara Americana do Comércio. Segunda: um encontro no Rio de Janeiro, a convite do próprio Bernstein, numa noite que reservaria pelo menos uma cena surpreendente. “O repórter que derrubou um presidente” empunhou uma guitarra para tocar clássicos do rock. Terceira: uma garimpagem de tudo o que ele disse na rápida expedição brasileira.</p>

<p>PRIMEIRA CENA: FRENTE A FRENTE COM A FERA                                  </p>

<p>                                               Uma velha pergunta: qual seria o primeiro conselho que você daria a um jovem repórter ?</p>

<p>                                                “Seja um bom ouvinte! Penso que jornalistas se tornaram maus ouvintes. Com frequência, vão fazer uma reportagem a partir de noções pré-concebidas sobre o assunto, especialmente quando trabalham com câmeras. Fazem perguntas apressadas e vão embora. </p>

<p>                                               Minha experiência me ensinou que o que eu pensava que a reportagem seria  - tanto no caso de Watergate quanto no de Hillary Clinton, por exemplo - era muito diferente do que acabou acontecendo. Porque eu ouço as pessoas. Eu as respeito, sejam elas quem forem. A maioria de nossas fontes no caso Watergate era gente do Partido Republicano que trabalhava ao lado de Richard Nixon ! E eu os respeitava. </p>

<p>                                           Penso que hoje há cada vez menos algo assim.  Quando você se senta para ouvir um entrevistado, precisa dar a ele tempo para se explicar. Você termina aprendendo coisas incríveis! Quase sempre, é algo diferente daquilo que a gente esperava quando chega com a lista de perguntas.  </p>

<p>                                             Se você tivesse a chance de fazer uma última pergunta a Richard Nixon, que pergunta seria esta ?</p>

<p>                                            " Perguntaria: por quê ? Para quê ?"   <br />
( Bernstein fica em silêncio, como se estivesse acalentando até hoje uma dúvida irrespondida: como é que um presidente que batia records de popularidade precisava espionar o partido adversário, num ano eleitoral ?). </p>

<p>                                       Por que é você não vai agora para o Afeganistão, à procura de Bin Laden ? Qual a primeira pergunta que você faria a ele ?</p>

<p>                                        "Não tenho idéia. Perguntaria: como é que você justifica a natureza bárbara dos seus atos contra gente inocente ? Penso que ele é um monstro".</p>

<p>                                       </p>

<p>                                            Você disse que "torrou" os três milhões de dólares que ganhou com os livros e o filme sobre o Escândalo de Watergate. Você diria que não soube lidar com a fama, naquele período ?</p>

<p>                                               "Eu não era particularmente bom neste aspecto, no início de tudo. Precisa-se de tempo para lidar com este dinheiro....Mas gostei. Não tenho muitos lamentos a fazer sobre como o dinheiro foi gasto : com casas ou seja o que for.... </p>

<p>                                               O importante é : precisa-se de um tempo para se acostumar com a atenção que é dispensada a você e não ficar convencido. Hoje, espero que tenha adquirido alguma lucidez para não levar as coisas tão a sério e não exagerar...</p>

<p>                                                A resposta é : o melhor é continuar a trabalhar.Continue escrevendo livros. Continue fazendo coisas para a TV. Continue escrevendo seus artigos. Não seja imodesto"</p>

<p>                                                Como é que o senhor define a intervenção americana no Iraque ?</p>

<p>                                                 "É uma catástrofe, um desastre. É o resultado de um tipo de inabilidade e desonestidade por parte de George Bush. Os subterfúgios e informações que ele sabia que não eram exatos foram usados para convencer o Congresso e o povo dos Estados Unidos de que deveríamos entrar numa guerra que, na verdade, era mal-conduzida e ideológica. </p>

<p>                                                É uma guerra que não nos protege contra o terrorismo, ao contrário do que aconteceu com a decisão - acertada -  de lançar um ataque contra forças baseadas no Afeganistão.</p>

<p>                                                 Eu estive no Iraque. Visitei o país meses antes  da primeira Guerra do Golfo. Não era um estado terrorista. Era um estado totalitário, um estado estalinista, um estado laico. Parte da dificuldade vem do fato de que George Bush tem demonstrado não apenas incompetência,mas falta de sinceridade e de honestidade. O Iraque tem sido uma catástrofe para nosso país e para as centenas de milhares de americanos e de iraquianos que têm sido mortos. O pior é que ele tem intensificado o terrorismo.</p>

<p>                                               Além de tudo, Bush tem, no âmbito interno, enfraquecido princípios constitucionais e legais. A presidência de George Bush vai ser vista como, talvez, a mais desastrosa da moderna história americana. Precisaremos de décadas para nos recuperar de seus excessos e do que ele tem feito".</p>

<p><br />
                                              Com outras palavras, você tem chamado Bush de "mentiroso". Bush mente melhor ou pior do que Richard Nixon ?</p>

<p><br />
                                              "Não estou certo de ter usado a palavra mentiroso. Mas há uma história de inabilidades, inverdades e manipulação cometidas por George Bush, não apenas sobre a guerra, mas até sobre coisas tão básicas quanto um furacão. </p>

<p>                                              O que aconteceu? Um furacão iria atingir Nova Orleans. Bush foi avisado por funcionários da área meteorológica diante das câmeras. Disseram que os níveis de segurança poderiam ser ultrapassados. Durante meses e meses, Bush dizia que não sabia que os níveis poderiam ser ultrapassados pela tempestade. </p>

<p><br />
                                                 Bush é sui-generis, comparado com a história da presidência. Porque ele tem um desprezo pelos fatos e pela verdade que é diferente do de Nixon - que tinha uma grande capacidade intelectual, independentemente do que se poderia pensar sobre suas políticas ou sobre o tipo psicológico que ele tinha. Já George Bush trouxe para a presidência uma falta de habilidade, uma faltas de sutileza, uma falta de curiosidade e de preocupação com os fatos e com a vida real. </p>

<p>                                                 Bush tem uma visão fantasiosa sobre o que é o mundo. E também sobre o papel dos Estados Unidos. Ainda que sejamos uma superportência, o exercício de poderes numa condição dessas é um mecanismo delicado.</p>

<p>                                                   Não há sutileza ou delicadeza que Bush seja capaz de praticar"</p>

<p><br />
                                                     Você compraria um carro usado de George Bush ?</p>

<p>                                                     "Sim. Porque ele entende de carros"</p>

<p>                                                      Repórteres gostam de expor a vida privada dos outros. O que é que você sentiu quando a imprensa publicou que você teve um caso com Elizabeth Taylor ?</p>

<p>                                                    "É verdade...." ( ri)<br />
                                         <br />
                                                    Isso é uma pergunta ou uma resposta ?</p>

<p>                                                  "Não chegou a ser um sacrifício ter conhecido Elizabeth Taylor - e também ver a notícia publicada. É um pequeno momento na vida. </p>

<p>                                                 Há um problema real quando jornalistas se intrometem na vida dos seus personagens:  quando apuram informações que, na verdade, são irrelevantes para entender um assunto estão cometendo um excesso. Isso aconteceu comigo uma vez ? Aconteceu. Mas não vou ficar reclamando....</p>

<p>                                                  Só espero que eu consiga ver a vida inteira da maneira como vi - por exemplo -  a vida de Hilary Clinton:  tento ver quem ela é , quais são os valores que ela cultiva, assim como fiz com Bill Clinton - que também é personagem da biografia. </p>

<p>                                                Olho para os fatos e tento mostrar o contexto e o peso de cada um, em seus vários aspectos. É tudo o que eu poderia pedir a quem fosse escrever sobre mim. Livros foram publicados sobre mim e Bob Woodward. Mas estamos esperando um que seja realmente bom.</p>

<p>                                               Não aconteceu ainda. Gostaríamos que o livro "Todos os Homens do Presidente" fosse o texto básico. Mas a vida segue. Um dia alguém vai fazer a coisa certa. Certamente não será da maneira que nós pensamos que deveria ser. Mas penso que acontecerá. Não estamos numa posição de reclamar da maneira com que os jornalistas nos olham"....</p>

<p>                                            Uma dúvida - e desculpe perguntar: Elizabeth Taylor não era velha demais para você ?</p>

<p>                                                " Isso aconteceu há muito tempo. Aconteceu em minha juventude. E na juventude relativa de Elizabeth Taylor. É uma pessoa maravilhosa. É uma dessas experiências de vida que você fica satisfeito em ter"<br />
                                                Ter sido preso por estar dirigindo alcoolizado foi a coisa mais embaraçosa que você já fez em público?</p>

<p>                                                "Não sei. Certamente, não foi. Fiquei feliz por ter sido apanhado, porque vi que era tempo de parar de beber. Faz vinte e dois anos que não tomo um drinque. Parei. Hoje, bebo Coca-Cola"</p>

<p>                                                </p>

<p>                                              Qual foi a informação mais embaraçosa que você descobriu sobre a família Clinton ? É verdade que  o presidente eleito Bill Clinton recebeu a visita íntima de uma ex-amante no dia em que ele estava seguindo para Washington para assumir a presidência ?</p>

<p>                                            "Não estou preocupado com embaraços. Não estou interessado em algo assim. O objetivo de escrever um livro não é causar embaraço. É tentar entender o que a personagem do meu livro é. E como ela tem vivido a vida. Uma das coisas que tive grande cuidado  em fazer foi não escrever um balanço sensacionalista da vida sexual de Bill Clinton. Não me preocupo tanto com algo assim. </p>

<p>                                  O que me parece importante é o seguinte: desde jovem, Bill Clinton era visto - por muitos - como o maior talento político de uma geração. Hilary Clinton reconhecia este fato. Mas ela também sabia que o que ela chamava de  "compulsão sexual" de Bill Clinton poderia fazer com que ele deixasse de ser politicamente viável. Hilary Clinton começou, então,a encobrir os efeitos dessas compulsões e a lidar com as consequências.</p>

<p>                                  Isso se tornou uma grande preocupação para ela: que ele pudesse se tornar politicamente viável. Isso é que é importante. Mas saber se alguém o visitou um dia antes ou se ele viu alguém não é algo que realmente me interesse. Não é a questão"</p>

<p>                                   ( Em “A Woman in Charge”, Bernstein passa em revista os anos de formação da ex-primeira dama: "Hillary chegou à maioridade numa época nos Estados Unidos em que a sexualidade das mulheres, especialmente das jovens mulheres, estava passando por uma mudança profunda, em grande medida por causa da disponibilidade fácil da "pílula". <br />
Desde o começo do romance com Hillary, Geoff Shields tinha consciência tanto do desejo dela por experiências sexuais  "responsáveis" como da extraordinária seriedade de propósito, disciplina e foco. Que ela era "pessalmente muito conservadora" ficou óbvio desde o início da relação, que floresceu no auge da permissividade do fim dos anos 60 (...) Shields nunca ficou sabendo se ela fumou maconha (embora o cheiro de baseado  pairasse nos halls de entrada do dormitório. Nunca a viu se exceder na bebida -  e ela não era promíscua. Ainda assim, ela com certeza não era uma daquelas mulheres de Wellesley que eram consideradas "caxias" Gostava de festas e de dançar ao som de Elvis, Beatles e Supremes”)</p>

<p></p>

<p><br />
                                       Depois de entrevistar duzentas pessoas, trabalhar dezoito horas por dia por um ano e escrever seiscentas e quarenta páginas, o senhor pode definir Hilary Clinton em apenas uma frase ?</p>

<p>                                          "Não. E é por esta razão que se escreve um livro - e se gasta tanta tempo. O que posso dizer é que ela é a mulher mais famosa do mundo e, provavelmente, a menos conhecida, em termos do que a realidade da vida  tem sido para ela.</p>

<p>                                          É por este motivo que passei sete anos trabalhando no assunto. O resultado foram seiscentas e quarenta páginas. É um lugar-comum dizer que alguém é complicado. Mas Hilary Clinton é - de verdade"</p>

<p><br />
                                           Por que Hilary Clinton se recusou a dar entrevista você ? Isso é um caso de falta de confiança no repórter ?</p>

<p>                                            " Não. Acontece que ela gosta de controlar a maneira como é vista. Disse-me que poderia se sentar para falar comigo. Mas, quando decidiu concorrer à presidência, desistiu da entrevista. É alguém que vive sempre tentando talhar a própria imagem. Não gosta da imprensa. Temos amigos em comum. </p>

<p>                                               Hilary disse aos amigos: "Se vocês quiserem  falar com Carl, falem.  Depende de vocês". Mas ela não chega a ser fanática por investigações independentes......</p>

<p>                                                 O desapreço de Hilary pela imprensa é um dos temas da biografia. É - de certa maneira - um subtexto. Em alguns casos, o desapreço é justificado. Em outros, é um caso de arrogância. Hilary Clinton conhece o meu trabalho. Nós nos conhecemos. </p>

<p>                                                   Se ela tivesse se sentado para falar comigo, o conteúdo básico da biografia não seria afetado, mas ela teria uma chance de dizer: "Carl, você deve ouvir fulano ou sicrano.Você perdeu este ponto. Você não entendeu bem o que aconteceu aqui. Deve encarar de outra maneira...." . Hilary poderia ter esta oportunidade. </p>

<p>                                                     Isso a ajudaria a complementar o retrato que eu estava traçando -  de uma tal maneira que ela poderia ficar mais satisfeita com o resultado. Mas, ao mesmo tempo, os assessores de Clinton entendem. As resenhas sobre a biografia foram ótimas. Porque a biografia humaniza Hilary. </p>

<p>                                                      Penso que este lado humano é algo com o qual ela tem tido muitos problemas, especialmente porque os balanços que Hilary Clinton fez da própria vida  - em textos e falas - deixam de fora boa parte da história".</p>

<p><br />
                                     ( Bernstein escreveria na biografia: "Em seus primeiros meses de Casa Branca, tanto Bill como Hillary foram alimentados à força com uma verdade impalatável:  ao contrário de suas expectativas, não dava para comandar a capital tão facilmente como eles tinham dominado a política de um pequeno estado do sul. Bill amadureceu politicamente durante seus oito anos como presidente. Mas, no caráter, ele permaneceu basicamente o mesmo: ambicioso, narcisista, charmoso, brilhante, esperto, indisciplinado, incrivelmente capaz - e, com freqüência, uma decepção pessoalmente”)</p>

<p><br />
                                    O Washington Post escreveu que a eterna fascinação provocada pelo trabalho que você fez durante o escândalo de Watergate é como se fosse uma medalha que você jamais poderá tirar do peito; uma honra da qual você jamais poderá fugir. Você se incomoda em ser citado pelo resto da vida como um dos repórteres que, no fim das contas, acabaram com a carreira de um presidente americano ?</p>

<p>                                    " As coisas são assim. É como um jogador de beisebol que será lembrado por uma jogada. Não é algo que me preocupe. Eu e Bob nos sentimos muito bem com o trabalho que fizemos na época e as oportunidades que tivemos desde então. Nós dois tivemos vidas plenas e maravilhosas, além de oportunidades que nos foram oferecidas. Posso estar aqui, por exemplo, para falar com gente maravilhosa, ver o mundo de uma maneira diferente da de outros jornalistas, talvez. Tivemos sorte. Aprecio realmente o lado sortudo de tudo. É bom"<br />
      <br />
                                        <br />
                                                  Você e Bob Woodward venderam para a Universidade do Texas todas as anotações e documentos que vocês reuniram durante o escândalo de Watergate. Qual foi o preço ?</p>

<p><br />
                                             "Cinco milhões de dólares. Não sei como responder a esta pergunta, a não ser dizendo que nós queríamos ter a certeza de que todas as anotações e os registros do que fizemos ficassem protegidos e abertos a pesquisadores - se bem que há fontes que foram mantidas em sigilo. Era óbvio que o material tinha um valor histórico . Quando você vende um trabalho, como um livro, por exemplo, há um valor monetário envolvido. Tiramos partido desse fato. Mas obedecemos, espero, todos as questões éticas envolvidas"</p>

<p>                                          É este o preço da história ?</p>

<p>                                          "Se ninguém tivesse oferecido dinheiro por estes papéis, nós os teríamos doado, de qualquer maneira. O importante era que eles ficassem disponíveis para a História. Há um mercado para itens de interesse histórico. Nós participamos desse mercado, assim como participaríamos com um livro ou algo que tivesse um aspecto comercial. Descobrimos que havia um mercado para documentos assim. Mas, ainda que não existisse, nossa intenção era,sempre,a de  que os documentos ficassem protegidos e disponíveis"                          </p>

<p><br />
                                              Que tipo de pergunta inconveniente faria você encerrar esta entrevista agora ?</p>

<p>                                             "Algo que eu achasse que tivesse a intenção de atingir meus filhos"</p>

<p><br />
                                                                                                                   <br />
                                              Um de seus filhos toca guitarra numa banda punk. Alguma vez ele vez alguma pergunta a você sobre Richard Nixon ?</p>

<p>                                               "Em primeiro lugar, todos devem ir ao site My Space ponto com e procurar pela banda do meu filho, Max Bernstein. A banda é The Actual. É produzido por Scott Weiland - do grupo Velvet Revolver. É um grande músico. Fico orgulhoso , porque é meu filho. Também tenho orgulho do meu filho jornalista. Todos dois me perguntaram muitas vezes sobre Richard Nixon e sobre Watergate. Os dois têm uma saudável irreverência para levar a sério demais o trabalho dos pais"</p>

<p><br />
                                                   Você é um ídolo - e um herói - para muitos repórteres. Quem é o herói de Carl Bernstein ?</p>

<p>                                                    "Quando eu tinha dezesseis anos de idade, fui trabalhar um belo e velho jornal que jjá nem existe, o Washington Star, como mensageiro. Havia um grande editor de assuntos locais, chamado Sid Epstein, que morreu há poucos anos. Falei no funeral. Sid me ensinou muito do que sei . Era um repórter e editor da velha guarda. Se eu pudesse citar o nome de uma pessoa, seria ele.  (<em>Sid Epstein trabalhou durante décadas no Washington Star - um jornal vespertino que circulou durante cento e trinta anos na capital americana, até fechar as portas, em 1981, em meio a uma crise financeira) </em><br />
.<br />
                                               O outro seria I.F. Stone, que era um grande jornalista de esquerda. Era mantido fora da  grande imprensa, mas vivia fuçando e persistindo. Sem ter grande acesso a fontes dos governos, ele usava fontes públicas de informação para obter a melhor versão possível da verdade. ( <em>Jornalista independente americano, I.F. Stone (1907-1989) publicava por conta própria uma jornal que chegou a ter uma circulação de setenta mil exemplares nos anos sessenta. Fazia oposição à guerra do Vietnam. Conseguiu vários furos de reportagem) </em></p>

<p><br />
                                                H.L Mencken também"</p>

<p>                                                 Mencken escreveu uma vez um artigo contra os zoológicos! É o único jornalista do mundo que escreveu um artigo contra os zoológicos. </p>

<p>                                           ........"Era um cínico profissional! Eu não faria coisas como as que ele fez, mas adoro lê-lo . (<em>H.L.Mencken ( 1880- 1956), jornalista considerado iconoclasta, era conhecido por seus textos irônicos e pelas críticas ácidas que dirigia contra todo tipo de alvo. Chegou a escrever artigos contra os jardins zoológicos)                                               </em><br />
                                                     Há grandes jornalistas na geração anterior à minha, como David Halberstam, que teve um livro publicado nos Estados Unidos agora sobre a Guerra da Coréia  (<em>Premiado jornalista americano, autor de livros-reportagem sobre os barões da imprensa e sobre a Guerra do Vietnam, morreu em 2007, aos 73 anos, num acidente de carro, a caminho de uma entrevista. Deixou um livro inédito sobre a Guerra da Coréia, lançado postumamente). </em></p>

<p>                                                   E Gay Talese (<em>Considerado um dos criadores do chamado Novo Jornalismo americano, marcado pelo uso de recursos literários em textos jornalísticos. Uma de suas reportagens mais conhecidas é um perfil do cantor Frank Sinatra)  </em><br />
                                                 São jornalistas notáveis que também tinham ótimos  textos. Não nos preocupamos tanto hoje - como deveríamos - com o texto. A maioria dos grandes jornalistas tinha excelentes  textos. </p>

<p></p>

<p>SEGUNDA CENA: ANOTAÇÕES LIGEIRAS SOBRE OS BASTIDORES DE UMA COBERTURA: NUMA MADRUGADA NA URCA, O SUPER-REPÓRTER EMPUNHA UMA GUITARRA<br />
                                  </p>

<p>                                           Uma cena inesperada na noite do Rio de Janeiro: o repórter que derrubou o presidente dos Estados Unidos empunha uma guitarra de madrugada na Urca para tocar rock-and-roll.</p>

<p>                                             Aconteceu diante de uma reduzidíssima platéia. Quando o concerto improvisado do repórter mais famoso do mundo acabou, o público era formado por exatamente seis espectadores, sentados diante da fera. Testemunhei a cena. </p>

<p>                                             Ao final  de uma recepção oferecida a ele por Ana Maria Tornaghi num casarão na Urca, Carl Bernstein - de passagem pelo Rio depois de fazer uma conferência em São Paulo na Câmara Americana de Comércio - surpreendeu a todos: pegou uma guitarra, cantou e tocou pérolas como "Sweet Little Sixteen", "Love is Strange" ( música gravada por Paul McCartney no começo dos anos setenta), a bela "Goodnight, Irene" ( folclore americano, regravada "n" vezes por feras como Little Richard) , “Bye,Bye Love" ( aquela que diz "Bye bye, happiness /Hello, loneliness /I think I´m gonna cry") e "Blue Sued Shoes" e “La Bamba”.<br />
                                          Bernstein já foi crítico de rock. Tinha vinte anos em 1964. Ou seja: é um legítimo representante da geração que dançou ao som de Elvis Presley. A bem da verdade, diga-se que, como cantor, Bernstein é um excelente repórter. Como instrumentista, dá para o gasto. Se tivesse tentado a carreira nos palcos, estaria hoje tocando num boate do Alabama. A família é chegada a música: um dos dois filhos de Bernstein, como se sabe, é músico numa banda "punk-rock" chamada The Actual. O outro seguiu a carreira do pai.<br />
                                            Quando acabou de tocar, o super-repórter disse-me: "Hey, você tem uma matéria!".</p>

<p>                                             Eu já estava ligeiramente constrangido: em São Paulo, tinha seguido os passos de Bernstein durante a conferência na Câmara Americana de Comércio. Acompanhei a entrevista coletiva. Gravei uma longa exclusiva. Tirei fotos. Pedi autógrafo num livro ( não é coisa que entrevistador faça normalmente com entrevistado. Mas, desculpe, Bernstein é meu ídolo profissional há séculos). Aqui no Rio, o assédio se repetia. Não seria hora de parar a "caçada" ? Minha porção chacal me soprou: não!</p>

<p>                                                Satisfeito com o jogo de perguntas-e-respostas de nossa entrevista em São Paulo , o generoso Bernstein me fez, diante da câmera, o maior elogio que ouvi na minha vida profissional ( “é uma das melhores entrevistas que já dei para televisão”).  Pensei comigo : ok, stranger, agora já posso ir morar num rancho em Santa Maria da Boa Vista. </p>

<p>                                                  Em seguida, pediu meus contatos: telefone, e-mail, celular. Perguntou se eu estaria no Rio nos próximos dias. Eu disse que sim. Pensei que o gesto de Bernstein fosse apenas uma daquelas cortesias que caem no esquecimento cinco minutos depois.</p>

<p>                                                     Sorte minha: não foi. </p>

<p>                                                     Três dias depois, quando abro o computador, o que é que pisca na tela ? Um e-mail de Carl Bernstein me convidando para um jantar. Dei uma saída. Quando chego em casa, nova surpresa: um recado na secretária eletrônica. Bernstein em pessoa. Por fim, quando pego o celular,outro recado do homem. Dois recados nos telefones, dois e-mails ( ele mandaria outro). O convite já não era um convite: era uma convocação. </p>

<p>                                                       Fui. Ganhei outro autógrafo, em que ele chama nossa entrevista de "terrific". Brincalhão, faz uma ressalva : diz que tinha adorado a gravação da entrevista, mas quer ver como é que ela seria editada. Tranquilizo-o : pretendo usar a entrevista na íntegra, sem cortes, porque em TVs a cabo, como a Globonews, os entrevistados podem falar. Ficou de me passar um endereço, porque queria receber uma cópia da fita, em casa, em Nova York. Prometo, claro, despachar uma cópia em DVD. Juro por Nossa Senhora do Perpétuo Espanto que mandarei.</p>

<p>                                                     Próximo assunto: falamos sobre a última empreitada jornalística de Bernstein: a biografia de Hilary Clinton. Bernstein informa que a biografia já sai com uma primeira fornada de 250 mil exemplares. <br />
                                                     O espírito de repórter de Bernstein se manifesta a toda hora: em meio à recepção, ele sai perguntando aos convidados quem é que gosta e quem é que não gosta da Catedral Metropolitana do Rio. Tinha visitado a Catedral. Ficou impressionado com a quantidade de gente que fala mal do prédio. "Você gosta da Catedral? Você gosta da Catedral", é o que repete. Depois, a cada vez que é apresentado a alguém, repete em voz alta o nome do convidado. </p>

<p>                                                   A uma jornalista em início de carreira, Clara Passi , que aproveitou a chance para perguntar qual seria o primeiro conselho que ele daria a um iniciante, Bernstein respondeu: "O repórter precisa saber ouvir!". </p>

<p>                                                      A mulher de Bernstein, uma loura altíssima, que dançou enquanto o marido tirava acordes da guitarra, disse que ele tem mania de fazer perguntas. Pudera.  "Quando volto do supermercado, ele fica me perguntando o que é que comprei e onde fica a loja", ela diz. <br />
                                                     (Eu já tinha experimentado a fúria perguntadora de Bernstein. Terminada a gravação de nossa entrevista, ele fez um bombardeio de perguntas: “Quando vai para o ar? Como se escreve o seu nome ? É português ? Quando você vai voltar ? Onde é que você mora ? Como estará o tempo amanhã no Rio ?”).</p>

<p>                                                     Perguntar, perguntar, perguntar. Bernstein nunca quis fazer outra coisa na vida. Pouco importa que a situação seja banal, como esta. </p>

<p>                                                     As perguntas que ele fez obsessivamente terminaram obrigando um presidente dos Estados Unidos a renunciar ao cargo.                                              </p>

<p>                                         <br />
TERCEIRA CENA: O JORNALISTA QUE É ÍDOLO DOS JORNALISTAS COMBATE MITOS. DEZ OPINIÕES DE CARL BERNSTEIN<br />
                                                  <br />
                                                  As palavras que o super-repórter pronunciou na passagem-relâmpago pelo Brasil servem de lição valiosíssima para jornalistas que, equivocadamente, defendem um jornalismo “engajado”.<br />
    <br />
                                       <br />
                                                  Carl Bernstein virou sinônimo de jornalismo investigativo. Mas, surpresa, ele é o primeiro a se insurgir quando alguém se refere ao “jornalismo investigativo” como se fosse o Cálice Sagrado.<br />
Gravando!<br />
                               <br />
                                                  1<br />
              <br />
                                                  "Não acredito que o jornalismo investigativo seja diferente do resto do jornalismo. Todo bom jornalismo é o mesmo. Seja no esporte, na economia ou em qualquer área, fazer bom jornalismo é apresentar a melhor versão que se pode obter da verdade. Jornalismo é persistência, é ser um bom ouvinte, é respeitar quem você aborda, é ter tempo. O mito do repórter investigativo - que eu o Bob Woodward contribuímos involutariamente para criar - não é necessariamente uma boa coisa"<br />
.<br />
                                                       2<br />
                                                "A história não se repete. Cada situação existe num contexto próprio. É errado ter uma visão nostálgica do Escândalo de Watergate ou do caso da divulgação dos Papéis do Pentágono. O melhor é tirar as lições que pudermos desses acontecimentos - e olhar para o nosso tempo"<br />
.                                                      3<br />
                                                  "Não acredito que o tempo de Watergate tenha sido necessariamente um tempo de alguma grandeza jornalística. A idéia de olhar para aquele tempo como uma época de ouro - que de fato nunca existiu – é, portanto, um grande engano"....<br />
.<br />
                                    <br />
                                                      4                                                       <br />
                                                  "Não acredito que o papel da imprensa seja dizer às pessoas no que é que elas devem acreditar. Não acredito! O papel da imprensa é divulgar a melhor versão possível da verdade.  Cabe a cada cidadão reagir. Em qualquer democracia, o cidadão pode - ou não - reagir da maneira que você espera. Mas o papel de um repórter não é o de se levantar e dizer: "É nisso que vocês devem acreditar".<br />
.<br />
                                                     5<br />
                                                   "A imprensa dá a informação. Se o cidadão resolver votar em George Bush e reelegê-lo, como aconteceu, eu, pessoalmente, posso até não gostar, mas é assim que os cidadãos agiram! O que a imprensa não deve fazer é forçar o público a se comportar de uma determinada maneira".  </p>

<p>                                                 "É sempre muito fácil jogar na imprensa a culpa pela reação lenta e - algumas vezes - pela indesejável resposta política de um país ou um povo"... <br />
.<br />
                                                   6<br />
                                                   "Acontece o tempo todo. Sou parado na rua por gente que me pergunta: por que é a imprensa não informa sobre George Bush ? Olho para eles e digo: Vocês estão loucos?  Como é que vocês acham que todos soubemos sobre as coisas terríveis que este presidente tem feito? Pela imprensa! Onde é que a gente soube tanto sobre do aquecimento global? Pela imprensa!". <br />
.<br />
                                                     7<br />
                                                   "A imprensa frequentemente faz trapalhadas. Não somos diferentes de outras instituições - que refletem a cultura em que vivemos. Somos feito médicos, por exemplo. Você vai a um médico. Em dez por cento dos casos, você precisa sair do consultório para ficar melhor. Um pode lhe salvar . Trinta por cento dos médicos farão com que você possa se sentir melhor. Vinte por cento farão você se sentir um pouco pior.  Outros vinte  por cento farão com que você fique muito pior. E dez por cento vão matar você. Não acho que nós, jornalistas,  sejamos diferentes. Somos diferentes num ponto: quando outras instituições falham, a imprensa precisa estar lá.Mas a imprensa não pode ter um tratamento especial. É tão capaz de cometer erros ou de praticar corrupção quanto qualquer outra instituição. Talvez um pouco menos capaz”. <br />
 .<br />
                                                 8                                                                      <br />
                                        “A imprensa chegou atrasada no caso do Iraque porque não fomos suficientemente céticos no começo, no momento em que Bush decidiu ir para a guerra. Falhamos na hora de examinar aquela que foi, talvez, a mais desastrosa decisão tomada por qualquer presidência americana nos tempos modernos”.<br />
     </p>

<p>                                                     9<br />
                                 “O presidente Nixon resistiu. Disse: “não,vocês não podem ter minhas gravações. Não me importo se vocês são o Congresso dos Estados Unidos. Não me importo se vocês são juízes. Não vou dar as minhas gravações” ( Bernstein refere-se às célebres fitas que registravam tudo o que era dito nas audiências do presidente com assessores, na Casa Branca. As fitas eram gravadas com o conhecimento do presidente, mas terminaram usadas contra ele) . E o que aconteceu? A Suprema Corte dos Estados Unidos  – inclusive juízes que Nixon tinha nomeado e de quem esperava apoio – votou por nove a zero ao decidir que o presidente dos Estados Unidos estava sujeito a lei, tal como você e eu.</p>

<p>                                           Nixon teve de dar as fitas. O que ocorreu,então?  As fitas mostraram que o presidente dos Estados Unidos era culpado por ter conspirado, por ter desrespeitado a Constituição dos Estados Unidos e por ter atingido princípios democráticos. Houve uma investigação que resultaria no impeachment do presidente. O presidente disse : “Não saio. Vocês terão de me levar a julgamento!”.  </p>

<p>                                        Mas, antes até da votação do impeachment, senadores e deputados republicanos, integrantes do partido do próprio presidente, liderados por Barry Goldwater, um senador corajoso, um grande conservador, o homem que é de fato o moderno inventor do movimento conservador dos Estados Unidos, foram à Casa Branca para dizer a Nixon: “Não vamos apoiá-lo. Se o senhor não deixar o poder voluntariamente, vamos votar pela condenação. O senhor será o primeiro presidente a ser condenado e forçado a deixar o poder” . </p>

<p>                                              Nixon desistiu. Neste caso, as instituições funcionaram, não porque  o país inteiro desde o inicio estivesse pronto para entender o que tinha acontecido e o que o caso envolvia, mas porque cada elemento do sistema - a imprensa, a justiça, o Congresso -  fez o que devia. Em alguns casos, fazer este trabalho exigia atos corajosos de indivíduos”<br />
.<br />
                                        .           10<br />
                                         “Nós reportamos os fatos. O sistema funcionou. Mas, para o sistema funcionar, é preciso que a imprensa esteja empenhada em conseguir a melhor versão possível da verdade. É aí que reside a responsabilidade da imprensa!. Não é pegar corruptos , mas obter o que chamo sempre de a melhor versão possível da verdade. O que é ? É contextualizar. Não é apenas se ocupar de corrupção. É reportar sobre as condições de uma cultura. E pôr os fatos num contexto. Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, é escrever sobre  pobreza endêmica-  que é uma parte da corrupção. O  trabalho da imprensa não é derrubar governos. É procurar pela melhor versão possível da verdade dentro de uma determinada cultura - com toda a vibração, com toda a dificuldade, com toda a alegria e toda a miséria aí incluídas. Que seja esta a nossa agenda jornalística”.<br />
      <br />
  <br />
                                         *******</p>

<p>                                       <br />
                          “Se esta história é tão boa, cadê o resto da imprensa?” . A pergunta da senhora Graham foi devidamente imortalizada na página 364 da excelente autobiografia de Ben Bradlee, “A Good Life”.</p>

<p>                               ( Ao final da minha Maratona Bernstein,divago, solitário, com meus botões: quem já passou quinze minutos numa redação pode apostar, sem margem de erro, onde estava “o resto da imprensa”.  É pule de dez: é muitíssimo provável que o “resto da imprensa” estivesse fazendo o que, incrivelmente, a esmagadora maioria dos jornalistas faz nas redações. Ou seja: dar de ombros para o que é notícia; inventar pretextos risíveis para não publicar uma reportagem; pontificar com patética auto-suficiência sobre todo e qualquer assunto. Paulo Francis dizia que o melhor jornal é aquele que não é publicado. Bingo!</p>

<p>                                     <br />
                                É um fato cientificamente demonstrável: o maior, o mais nocivo, o mais intransigente, o mais pretensioso, o mais impermeável, o mais destrutivo, o mais indefensável inimigo do Jornalismo é....o jornalista! Não existe outro.  </p>

<p>                                      Diante de tal quadro, um leigo que entrasse por engano numa redação espicharia as sobrancelhas para cima e deixaria o queixo pender dois centímetros para baixo, para transmitir aos passantes um ar de espanto. Mas ninguém prestaria atenção ao espanto do leigo. Pelo seguinte: a desfaçatez de jornalistas que se julgam intérpretes iluminados da mente do público é algo que faz parte da natureza da profissão .</p>

<p><br />
                                         Um belo dia, o jornalista simplesmente se declara, diante do espelho, porta-voz dos interesses e da curiosidade desta abstração chamada "leitor" ou "telespectador". Bota a faixa imaginária no peito, passa um pente no cabelo, apruma o andar, sobe a rampa e lá vai ele assumir o mandato de presidente plenipotenciário da opinião pública.  </p>

<p>                                           Reinam nas redações leis que, aos olhos de um leigo, podem soar absurdas. Exemplo: o concorrente divulgou a notícia "x" ou fez uma reportagem sobre o assunto "y"? Divulgou. Então, a notícia ou a reportagem - que o jornal iria publicar ou a TV iria levar ao ar-  vão para o lixo .</p>

<p>                                            O JNJ ( Jornalista Nocivo ao Jornalismo) age como se o leitor e o telespectador fossem maníacos de hospício que lêem todos os jornais, vêem todas as emissoras de TV, ouvem todos os programas de rádio e acessam todos os sites. Parece que o tal leitor ou o tal espectador vão se dar ao trabalho de comparar, página a página, matéria a matéria, tudo o que o jornal, a revista ou a TV publicaram. Não vão. Nunca se deram ao trabalho. Jamais se darão. Querem apenas se informar. Mas JNJ  comporta-se como se os leitores e telespectadores fossem maníacos.</p>

<p>                                        Loucura.</p>

<p>                                        Qual o resultado deste catálogo de insanidades?  As reportagens precisam enfrentar uma corrida de obstáculos nas redações antes de chegarem às mãos e aos olhos de Sua Excelência, o Público! Parece exagero, mas é a mais cristalina verdade.  Jornalista Nocivo ao Jornalismo, portanto, é o que faz  jornal (ou revista ou TV ou rádio) para jornalista, não para o público. Passa a vida erguendo barricadas contra o que o jornalismo pode ter de vívido e interessante. É capaz de – entre outros inumeráveis absurdos -  sonegar impunemente uma informação ao leitor ou ao espectador apenas porque um veículo concorrente tratou primeiro do assunto.<br />
                                          <br />
                                        Jornalistas puro-sangue são os que  acendem velas para Nossa Senhora do Perpétuo Espanto (a santa inventada por Kurt Vonnegut). Humildemente,  pedem à santa padroeira que não lhes tire, jamais, a capacidade de encarar a vida como se estivessem vendo tudo pela primeira vez. Porque a capacidade de olhar para os fatos da vida como se estivessem vendo tudo pela primeira vez é o que distingue um jornalista puro-sangue de um jornalista burocrata, exterminador de reportagens. Nossa Senhora do Perpétuo Espanto deveria, portanto, reinar , soberana, em todas as redações. Porque o bom repórter jamais perderá a capacidade de exercitar um saudável espanto diante dos fatos e personagens. É desse saudabilíssimo espanto e desse saudabilíssimo interesse que nasce a matéria-prima do jornalismo: a reportagem.</p>

<p>                                              Diante de um assunto interessante, um personagem atraente, um fato que  merece ser contado, o Jornalista Nocivo ao Jornalismo saca a arma e imediatamente pergunta: “Por que publicar?”. O jornalista de verdade, é claro,  perguntaria: por que não ?Fim da divagação ).</p>

<p><br />
                                            Termina a Maratona Bernstein. Dali a poucas horas ele deixaria o Brasil. Se teve a chance, certamente deve ter perguntado a algum transeunte no corredor do aeroporto: “E você ? O que é que acha da catedral ?”         <br />
                                                  </strong</p>]]>
    </content>
  </entry>
  <entry>
    <title>RETRATO FALADO DE UM SUPER-TERRORISTA DO 11 DE SETEMBRO. AS CONFISSÕES DO FILHO DE UM CARRASCO NAZISTA. A PALAVRA DO AGENTE QUE TENTOU MAS NÃO CONSEGUIU SALVAR OS ATLETAS ISRAELENSES  NAS OLIMPÍADAS DE MUNIQUE: EM &quot;DOSSIÊ HISTÓRIA&quot;, JÁ NAS LIVRARIAS</title>
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    <summary type="text/plain">Para encomendar, aqui: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=3223440&amp;sid=0020825681045747838225325&amp;k5=97D46D2&amp;uid=...</summary>
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      <![CDATA[<p>Para encomendar, aqui:</p>

<p><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=3223440&sid=0020825681045747838225325&k5=97D46D2&uid=">http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=3223440&sid=0020825681045747838225325&k5=97D46D2&uid=</a></p>]]>
      
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    <title>PAULO FRANCIS RENASCE NAS LIVRARIAS, NAS PÁGINAS DE &quot;CARNE VIVA&quot; : &quot;EM QUE MUNDO VIVE ESSA GENTE ?&quot;</title>
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      <![CDATA[<p><a href="http://www.geneton.com.br/archives/000270.html">http://www.geneton.com.br/archives/000270.html</a></p>]]>
      
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    <title>PAULO FRANCIS, O &quot;LOBO HIDRÓFOBO&quot;, RESSURGE EM &quot;CARNE VIVA&quot;</title>
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    <modified>2008-03-19T22:17:32Z</modified>
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    <summary type="text/plain"> Quando Paulo Francis entrou na redação do Fantástico, para uma “visita de cortesia”, produziu em torno si uma onda de silêncio que misturava curiosidade e reverência. O homem era uma estrela. Mas, “humildemente”, veio agradecer o destaque o programa...</summary>
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    <dc:subject>Leituras</dc:subject>
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      <![CDATA[<p>                                                 <strong>Quando Paulo Francis entrou na redação do Fantástico, para uma “visita de cortesia”, produziu em torno si uma onda de silêncio que misturava curiosidade e reverência. O homem era uma estrela. Mas, “humildemente”, veio agradecer o destaque o programa tinha dado, na véspera, à entrevista que fiz com ele.  </strong></p>]]>
      <![CDATA[<p>                                                </p>

<p>                                                <strong>Ok : desde já, quero confessar ao distinto júri que sei do risco que corro ao usar a expressão “humildemente” num parágrafo que trata de Paulo Francis. As duas entidades, graças a Deus, eram incompatíveis: Francis e a humildade. Uma não se misturava com a outra. Eram como água e óleo.  A referência a um lampejo de humildade em Francis deve produzir frouxos de riso em quem teve o privilégio de conhecê-lo. Mas, em nome da verdade factual, devo dizer que, sim, ao visitar a redação do Fantástico Francis teve um gesto de humildade. Ou seria gentileza ? Cravo nas duas alternativas. A imagem pública de “lobo hidrófobo” não combinava com o Paulo Francis no trato pessoal: um gentleman.</p>

<p> </p>

<p>                                               Paulo Francis tinha acabado de lançar um excelente livro memorialístico sobre o golpe de 1964, “Trinta Anos Esta Noite”. Eu tinha gravado uma longa entrevista com ele numa praça escondida nas proximidades do Jardim Botânico. Procurávamos um lugar razoavelmente silencioso para a gravação. O sucesso da busca foi parcial:  crianças brincavam nas redondezas. As babás ficaram indiferentes à presença de Francis, mas pelo menos trataram de vigiar os passos de fedelhos que brincavam na praça. </p>

<p> </p>

<p>                                                 Três anos depois, um ataque cardíaco fulminante matou o mais polêmico,o mais lido e o mais provocativo jornalista brasileiro, na manhã  do dia quatro de fevereiro de 1997, em Nova York.  Dizer que “Paulo Francis faz falta” virou um enorme lugar-comum. Mas é uma verdade puríssima: o texto de Francis faz uma falta imensa ao jornalismo brasileiro.  Uma vez, ele escreveu: “Nossa imprensa: previsível, empolada, chata: como é chata, meu Deus...”.  Em cem por cento dos casos, o que Francis escrevia escapava da chatice generalizada. Francis vivia reclamando de que era preciso criar no Brasil uma tradição: a de uma “prosa clara e instruída”.  É o que há em outras culturas: a tradição de uma prosa clara e instruída, uma atividade que, no Brasil, tinha poucos cultores. Aqui, pensam que escrever difícil é escrever bem. Ledíssimo engano.    </p>

<p> </p>

<p>                                                A contribuição que Paulo Francis deu para a criação de uma prosa jornalística “clara e instruída” ainda não foi devidamente avaliada. Onde é que estão os acadêmicos – que não tratam de demonstrar “cientificamente” esta herança ? É uma tarefa facílima. Ninguém precisava concordar com uma vírgula do que ele dizia. O importante é como ele dizia. </p>

<p> </p>

<p>                                               Livros como “O Afeto Que se Encerra” e “Trinta Anos Esta Noite” deveriam ser leitura obrigatória nas escolas de jornalismo – pela clareza cristalina, pela fluência absoluta, pelo ritmo agradabilíssimo do texto. É o que vale.</p>

<p> </p>

<p>                                               O nome de Francis voltou às páginas neste ano da graça de 2008 com o lançamento de um romance inédito que ele deixou, “Carne Viva”. É um presente para os fãs do auto-declarado “lobo hidrófobo”  ( Uma vez, perguntei a ele como é que ele – que, quando criança, alegadamente exibia um ar de cão hidrófobo – se definiria na maturidade. Francis respondeu: “Que tal lobo hidrófobo” ? ) Publicado pelo selo Francis da Editora Landscape, este bem-vindo sinal de vida de Paulo Francis acaba de chegar às boas casas do ramo. Resenhistas já notaram que, quando personagens do romance abrem a boca para falar do estado geral das coisas, parece que é o próprio Francis quem fala. A “confusão” poderia parecer um defeito do romance. Mas eu diria que é uma virtude. Ainda bem que é possível ler de novo o que parece ser a voz de Francis. Há trechos do livro que – felizmente – parecem tirados da coluna fantástica que Francis publicou durante anos e anos na imprensa. </p>

<p> </p>

<p>                                                   Trechos de “Carne Viva” :</p>

<p>                             </p>

<p>                                                   “Em que mundo vive essa gente ? Numa fantasia de fraternidade, que se fosse levada a sério voltaríamos todos à lavoura, ao arado, à carroça de bois. Cobiça é o que faz o mundo girar. Quando a cobiça é saciada, e nunca o é completamente, pessoas como Sua Exa. E your obedient servant investem em empregos, filantropia e arte”</p>

<p> </p>

<p> </p>

<p>                                                   “Tinha ido a algumas noites de autógrafos de personalidades que Temístocles queria agradar,como políticos, autores de memórias, e ficava na fila conversando e, discretamente, namorando, se valesse a pena. Perguntou a um diplomata e escritor, Gilberto Amado, se um livro, pelo qual estavam esperando o jamegão do autor, iria vender. Ele sorriu e disse que “venderia o que vender aqui”, uns quase duzentos exemplares. O resto seria dado”.</p>

<p> </p>

<p>                                                    “Chega de falar mal do Brasil. Não há países, nações. Há ambientes, pessoas, a maneira que nos conduzimos com nossos amigos, parentes e relações. Se formos uma pessoa de bem, e só o bem é radical, como escreveu Hannah Arendt, não há por que não levar  uma vida boa, enquanto tivermos saúde e não deixarmos que nossa vontade seja violada ou espatifada”.</p>

<p>  </p>

<p> </strong></p>]]>
    </content>
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    <title>UMA ENTREVISTA SOBRE JORNALISMO, LIVROS-REPORTAGEM, INTERNET, CELEBRIDADES E TUDO O QUE VAI PELO AR </title>
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    <modified>2008-01-14T16:32:08Z</modified>
    <issued>2008-01-14T13:22:02-03:00</issued>
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    <summary type="text/plain">Do site de Paulo Polzonoff Jr (http://www.polzonoff.com.br/entrevista-com-geneton-moraes-neto.htm#more-1016): &quot;Conheci Geneton Moraes Neto num destes bons acasos que a internet é (ou era) capaz de propiciar. Estava em casa, na Urca, fazendo provavelmente nada, quando recebi um e-mail dele me convidando para...</summary>
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    <dc:subject>O Estado Geral das Coisas: Notas (Quase) Diárias</dc:subject>
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      <![CDATA[<p><strong>Do site de Paulo Polzonoff Jr (<a href="http://www.polzonoff.com.br/entrevista-com-geneton-moraes-neto.htm#more-1016">http://www.polzonoff.com.br/entrevista-com-geneton-moraes-neto.htm#more-1016</a>):</p>

<p><br />
"Conheci Geneton Moraes Neto num destes bons acasos que a internet é (ou era) capaz de propiciar. Estava em casa, na Urca, fazendo provavelmente nada, quando recebi um e-mail dele me convidando para jantar. Os desdobramentos desta história tiveram seus momentos de angústia e alguma tragédia. Mas a amizade permaneceu.</p>

<p>Desde então, sempre que nos encontramos, discutimos longamente sobre as coisas – este assunto delicioso que parte do cheiro de um queijo e, meia hora depois, está no centro de uma revolução capaz de derrubar um presidente. Por algum motivo curioso, nossas conversas são sempre regadas a café. Muito café.</p>

<p><br />
Há muito tempo penso em colocar nossas conversas no papel. Mas há sempre algo impedindo. Geralmente, a preguiça e a má memória. Por causa do lançamento da mais recente coletânea de entrevistas de Geneton Moraes Neto, o Dossiê História, achei a motivação que me faltava.</p>

<p>A longa entrevista que se segue foi feita, infelizmente, à distância. Sem o café e sem as risadas. Pior: sem o grande nada que orienta nossas boas conversas. Nela, o leitor descobrirá um jornalista que todos os dias reza para Nossa Senhora do Perpétuo Espanto, pedindo a ela que jamais – jamais – lhe tire a capacidade de encarar a vida como se estivesse vendo tudo pela primeira vez".</strong></p>]]>
      <![CDATA[<p><br />
<strong>Antes de mais nada, sacie uma curiosidade: por que todos os seus livros são “dossiês”? De onde surgiu isto?</p>

<p>Gosto da palavra “dossiê” por duas razões básicas. Primeiro: ela soa bem. Segunda: a palavra tem uma óbvia ressonância jornalística. Quando eu estava preparando um livro que reunia documentos secretos de governos estrangeiros sobre o Brasil, fiquei em dúvida quanto ao título. Eu me lembro de que estava em Londres. De início, pensei em Arquivo Secreto. Mas resolvi batizá-lo de Dossiê Brasil. Três anos antes,em 1994, eu já tinha publicado o Dossiê Drummond. Tanto em um caso quanto em outro, achei que os títulos soavam bem. Eram diretos. E já davam uma idéia sobre o que os livros eram. De resto,o que faço nos livros-reportagem é produzir dossiês. Ou seja: “uma coleção de documentos referentes a certo processo, a determinado assunto ou a certo indivíduo”, como informa o Nosso Pai, o Dicionário Aurélio. A partir daí, adotei a palavra “dossiê” como uma espécie de bandeira (algo esfarrapada) que vou empunhando pela vida afora.</p>

<p>Por que você faz questão de deixar registrado em papel as entrevistas que faz para a TV?</p>

<p>Porque, se eu for fazer um teste de DNA, vou encontrar vestígios de jornalismo impresso no sangue. Comecei a trabalhar em jornal aos dezesseis anos, em 1972, no Diário de Pernambuco (é só fazer as contas: prazer, já sou uma ruína cinquentenária). O livro me parece a plataforma ideal para publicar entrevistas mais longas, reportagens “de fôlego”, descrições detalhadas. Eu diria que o livro se transformou em espaço nobre para a reportagem no Brasil. Estou nessa. Além de tudo, a palavra impressa não perdeu a nobreza. E dá a ilusão de permanência ao que foi escrito. Bem ou mal, os meus pobres dossiês estão armazenados, por exemplo, na Biblioteca do Congresso, em Washington (recentemente, dei uma rechecada na Internet, o acervo foi liberado para consulta on-line). É provável que jamais sejam consultados, mas, pelo menos, estarão devidamente guardados lá. Só posso esperar que uma bibliotecária caridosa deixe-os fora do alcance das traças. O que se fazia em televisão estava e sempre esteve condenado à transitoriedade absoluta. Mas há uma novidade importante no ar: hoje, graças a esta Oitava Maravilha do Mundo, a Internet, já é possível acessar e ressuscitar imagens que estavam fora do alcance de todos nós. É só dar uma passada no You Tube. Um dia, os arquivos das emissoras de TV estarão disponíveis on-line. Assim,o que se faz em TV terá uma sobrevida extraordinária. O motivo por que publico em papel as entrevistas, no entanto, não é apenas para ter a ilusão de permanência. Em última instância, o que me move é, pura e simplesmente, a paixão pelo texto impresso, o prazer de escrever e o gosto pela reportagem. Não sei fazer outra coisa. Lastimavelmente. “That´s all”.</p>

<p>Há uma grande discussão sobre o fim ou não dos livros em papel. Qual sua opinião sobre isso?</p>

<p>Se fosse dar um palpite, diria que o livro não vai acabar. Já dura séculos. Eu diria que é a maior invenção humana: portátil, relativamente barato ( pelo preço de um vatapá posso comprar um Thomas Mann), acessível, manuseável, perfeito. O surgimento de uma mídia não quer dizer necessariamente que as outras vão desaparecer. A TV não matou o rádio. O cinema não matou a TV. Nada matou o livro. Pode ser que um dia surja um livro eletrônico imbatível, mas, por enquanto, o monitor não é o lugar ideal para trezentas páginas de texto. Quanto aos jornais impressos, eu tinha certeza de que eles também não desapareceriam. Mas hoje uma dúvida incandescente consome minhas florestas interiores. Tenho a impressão de que os jornais, ao repetir mecanicamente o que nós já soubemos na véspera pela internet e pela tv, estão cavando a própria sepultura. O incrível é que caminham para o buraco “por livre e espontânea vontade”.</p>

<p>Você é novo no mundo dos blogs, com o seu site pessoal e com o blog coletivo Sopa de Tamanco. O que você tem achado deste universo? Como é esta experiência para você?</p>

<p>Não sou exatamente um blogueiro. Resolvi abrir meu boteco, o site www.geneton.com.br apenas para reunir, num lugar, entrevistas, textos e reportagens que estavam dispersos. Fiquei em dúvida sobre se valeria a pena. Hoje, acho que vale. Porque, se alguém fizer uma busca no Google por um dos entrevistados, gente como Paulo Francis, Joel Silveira ou Ivan Lessa, vai terminar parando no meu site, por algum desses mistérios internéticos. O site, então, serve apenas como eventual fonte de consulta para internautas que estejam à procura das celebridades que entrevistei. De vez em quando, faço textos. Não tenho tempo. Não tenho vocação. Não tenho disciplina para alimentar o site diariamente. O número de visitantes deve se irrisório. Mas não vou fechar o botequim. Minha idéia é deixar lá o maior número possível de entrevistas (minha especialidade). Já estou providenciando a digitação de entrevistas que, originalmente, foram escritas em máquina de escrever, há coisa de vinte anos, com gente como Darcy Ribeiro, Fernando Sabino, Millôr Fernandes, Mário Quintana, Gilberto Freyre & cia ilimitada. Em breve, estarão lá. Um dia, quem sabe, um ou outro internauta terminam aportando no site. Já o www.sopadetamanco.blogspot.com - que anda magro, porque os colaboradores deserdaram – é o botequim que a gente abriu para falar mal dos outros. Mas tenho dificuldade de produzir textos diários.</p>

<p>Sou, na verdade, vítima de uma grande deformação profissional – que acomete repórteres: só consigo escrever se, antes, tiver visto alguma coisa ou ouvido alguém. Fora daí, o mundo é uma imensa folha de papel em branco – que não me arrisco a preencher com meus rabiscos. Assim, creio que eu jamais teria uma “coluna diária” num blog ou num site.</p>

<p>Entrando no mérito do livro Dossiê História: todo o seu trabalho parece ter uma ligação muito forte com o passado. Isto vai um pouco na contramão do que as pessoas pensam do jornalismo: algo rápido e imediato, centrado no agora. Como surgiu este seu interesse pelo “jornalismo histórico”?</p>

<p>Talvez tudo tenha nascido da curiosidade que sempre tive sobre – por exemplo – personagens que viveram ou testemunharam grandes acontecimentos. É sempre fascinante ouvi-los. Tomara que eu não perca esta curiosidade. Porque, aí, eu terei sucumbido a uma doença terrível que grassa nas redações: a Síndrome da Frigidez Editorial. É uma doença que contamina as células de jornalistas entediados que acham que nada é interessante, nada deve ser relatado, nada é notícia. Coitados.</p>

<p>Quem você acha que é o seu público? As pessoas estão de fato interessadas na queda do Muro de Berlim, na renúncia de Collor e na II Guerra Mundial?</p>

<p>Não tenho idéia. Quando a gente escreve, sempre imagina quem será o leitor. É um exercício tentar adivinhar quem é este ser fugidio que, no fim das contas,consome quase todas as nossas energias. Quem será o leitor típico? Quantos anos terá? O que pensa? O Dossiê Brasília, livro que reunia as entrevistas com quatro ex-presidentes, vendeu algo em torno de 28 mil exemplares, se não me falha a memória. Para mim, é uma multidão inimaginável. Imagino a arquibancada de um estádio de futebol lotada por vinte e oito mil pagantes. Tremo nas bases. É um delírio bobo. Aliás, mil leitores, para mim, já formam uma legião respeitabilíssima. Imagino um teatro lotado. Lá estão mil leitores. Jamais, sob hipótese alguma, teria coragem de subir ao palco para encará-los. Mas, se tivesse a chance, gostaria de observá-los de longe, instalado na décima-oitava poltrona da qüinquagésima oitava fila.</p>

<p>Por falar em Collor, no livro Dossiê Brasília Collor disse que jamais se canditaria a um cargo novamente. E, no entanto, ele não só se candidatou como também foi eleito para o Senado. Como você vê isto?</p>

<p>A palavra de políticos pode ser volátil. Eis um exemplo. Naquele momento, ele parecia decidido a não voltar à política, porque deu esta declaração num tom incisivo. Independentemente de qualquer coisa, eu diria que Fernando Collor é um personagem jornalisticamente interessante, por tudo o que ele reúne de trágico. Um jovem de quarenta anos ganha nas urnas o direito de governar um país que não chega a ser uma republiqueta (se bem que nosso complexo de inferioridade insista em nos rebaixar). Mas joga pela janela a chance de entrar para a história. Há um componente trágico nesta saga.</p>

<p>Você acha que, do mesmo jeito que fez uma entrevista às claras com Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique, poderá um dia fazer uma entrevista às claras com Lula?</p>

<p>Eu espero ter a chance de fazer. Já fiz uma entrevista com Lula, em 1978, quando ele era uma estrela sindical, logo depois de ter comandado as famosas greves dos metalúrgicos. Cobri a primeira visita que o pernambucano Lula fez a Pernambuco depois de ficar famoso. Eu me lembro de que ele parecia meio “desbocado”, informal, um brasileiro comum. Dizia palavrões. Ao visitar Dom Hélder Câmara, o arcebispo que fazia oposição ao regime militar, Lula apresentou o filho, uma criança : “Dom Hélder, este é Sandro, meu filho. O nome é de costureiro, mas ele é macho!”. Ou seja: Lula não era nada protocolar. De certa maneira, ele mantém este traço. É óbvio que é um personagem jornalisticamente interessante, pelo trajeto que cumpriu. Espero ter a oportunidade de incomodá-lo, com meu gravador, quando ele estiver aposentado, em São Bernardo.</p>

<p>No Dossiê Brasília, Itamar revela que um grupo de deputados sugeriu que o Congresso Nacional fosse fechado. É uma declaração séria. Você acha que ela teve a repercussão que merecia?</p>

<p>Não. As entrevistas publicadas no livro Dossiê Brasília,como eu disse, nasceram de gravações feitas originalmente para o Fantástico. O livro chegou ao primeiro lugar em todas as listas de mais vendidos. Mas a imprensa praticamente o desconheceu. Há uma evidente má vontade dos jornais e revistas na hora de registrar a existência de livros ligados à TV. Devem achar que são coisas menores, sem mérito. Tudo bem. Noventa por cento dos jornalistas passam a maior parte do tempo jogando notícia no lixo. Faz parte da natureza da profissão. Mas o chamado “público leitor” respondeu super-bem. Só tenho a agradecer. Independentemente de qualquer coisa, eu precisava fazer o livro: creio que seria um crime de lesa-memória deixar que a íntegra das entrevistas mofasse no arquivo da TV. Só usamos na TV uma fração do que foi gravado, porque seria impossível levar tudo ao ar, por absoluta falta de tempo. O livro Dossiê Brasília me deu a chance de publicar tudo na íntegra, palavra por palavra, além de descrever cenas de bastidores e registrar impressões do repórter. Idem com o recém-lançado Dossiê História.</p>

<p>Voltando à idéia do “jornalismo histórico”. Você acha que o tempo ajuda a preencher lacunas que o jornalismo mais imediato ignora? Neste sentido, o Dossiê História traz alguma revelação que você julga importante?</p>

<p>Claro. A história nunca deixa de ser escrita. Há sempre detalhes novos que podem iluminar a compreensão dos fatos. O ponto forte do Dossiê História, acho, é a visão pessoal de personagens de grandes acontecimentos. Os grandes fatos históricos não são abstrações frias narradas em livros embolorados. Pelo contrário. Gestos épicos e trágicos – como, por exemplo,a invasão da Rússia pelas tropas de Hitler – foram executados por gente com nome e sobrenome, como, por exemplo, Henry Metelmann, o ex-soldado nazista que entrevistei numa cidadezinha do interior da Inglaterra. Como é que estes personagens descrevem fatos que mudaram o mundo ? Creio que esta é a “revelação” que o Dossiê História traz: o relato estritamente pessoal de quem tem autoridade para falar, porque viveu ou testemunhou estes grandes acontecimentos.</p>

<p>No Dossiê História“>Dossiê História, o 11/9 tem papel de destaque. Você acha que o episódio marcou o início do século XXI ou o fim do século XX? Será que não superdimensionamos o atentado por causa da proximidade do tempo e da abundância de imagens dele?</p>

<p>O Onze de Setembro marcou o início do Século XXI. O Século XX tinha acabado, simbolicamente, com a queda do Muro de Berlim. Houve quem, apressadamente, achasse que a história tinha terminado. Não terminou. A aparição espetacular do radicalismo islâmico mudou a geopolítica. O atentado não foi superdimensionado por um motivo simples: jamais houve um ataque de tal envergadura.</p>

<p>Há dezenas de teorias conspiratórias envolvendo o atentado ao World Trade Center. Você acha que alguma delas merece crédito do ponto de vista jornalístico? Há alguma que você gostaria de investigar?</p>

<p>Não. Assim como aconteceu com o assassinato de John Kennedy, o 11 de Setembro já gera uma vasta subcultura de te