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  <title>Geneton.com.br</title>
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  <tagline>DIÁRIO DE BORDO DAS ANDANÇAS DE UM REPÓRTER</tagline>
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    <title>AVISO AOS NAVEGANTES :  DOSSIÊ GERAL : O BLOG DAS CONFISSÕES AGUARDA VOSSA VISITA!</title>
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    <summary type="text/plain">AQUI: http://colunas.g1.com.br/geneton/...</summary>
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    <title>UMA ENTREVISTA SOBRE O LIVRO &quot;DOSSIÊ GABEIRA&quot; : FAZER JORNALISMO É SER IMPERTINENTE. FAZER JORNALISMO É JOGAR PEDRA NA VIDRAÇA</title>
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    <modified>2009-09-14T03:02:47Z</modified>
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    <summary type="text/plain">Aqui, uma entrevista sobre o livro &quot;Dossiê Gabeira&quot; : http://www.geneton.com.br/archives/000320.html...</summary>
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      <![CDATA[<p>Aqui, uma entrevista sobre o livro "Dossiê Gabeira" :</p>

<p><a href="http://www.geneton.com.br/archives/000320.html">http://www.geneton.com.br/archives/000320.html</a></p>]]>
      
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    <title>UMA ENTREVISTA SOBRE &quot;DOSSIÊ GABEIRA&quot; : FAZER JORNALISMO É JOGAR PEDRA NA VIDRAÇA</title>
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    <modified>2009-09-14T02:54:34Z</modified>
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    <summary type="text/plain">O Jornal do Brasil de 13/09/09 publicou, em página inteira do Caderno B, uma entrevista sobre o livro &quot;Dossiê Gabeira : o Filme que Nunca Foi Feito&quot;. Eis a íntegra da entrevista ao repórter Bolívar Torres: Como foi o contato...</summary>
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    <dc:subject>O Estado Geral das Coisas: Notas (Quase) Diárias</dc:subject>
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      <![CDATA[<p>O Jornal do Brasil de 13/09/09 publicou, em página inteira do Caderno B, uma entrevista sobre o livro "Dossiê Gabeira : o Filme que Nunca Foi Feito". Eis a íntegra da entrevista ao repórter Bolívar Torres: </p>

<p>Como foi o contato com Gabeira durante as entrevistas? Alguma questão específica provocou mal-estar ou má vontade da parte dele? Qual foi a duração total das entrevistas?</p>

<p><strong>"O projeto era o de gravar uma longa entrevista em regime de esforço concentrado: de preferência, de uma só vez. Assim foi feito. Durante seis horas - somente interrompidas por um breve intervalo para refeição - , bombardeei Fernando Gabeira com as perguntas sobre temas que me pareceram relevantes. A editora alugou por um dia uma suíte de um hotel em Ipanema. Um fotógrafo - Gilvan Barreto - documentou a cena.Dois amigos jornalistas - Ricardo Pereira e Jorge Mansur - gravaram em vídeo. Depois, fiz outras duas entrevistas com Fernando Gabeira, para complementar a apuração. Sou suspeitíssimo para falar, mas garanto que quem mergulhar nas páginas do "Dossiê Gabeira" fará uma viagem pelas últimas décadas da aventura brasileira"   </strong></p>]]>
      <![CDATA[<p> <br />
O episódio do sequestro já foi abordada pelo próprio Gabeira em O que é isso, companheiro?, além da adapação para o cinema do livro e do documentário Hércules 56. Por que revisitar esse fato? Havia questões ainda mal-resolvidas? Na sua opinião, qual o peso do sequestro na trajetória de Gabeira? O que representa? </p>

<p><strong>"Respondo sem a menor dúvida: todos,todos os fatos merecem ser revisitados - especialmente pelos jornalistas. Eu diria que é uma obrigação profissional. O jornalista que dá um fato por "encerrado" ou "esgotado" pode estar fazendo qualquer coisa - menos jornalismo. Porque uma das funções básicas do jornalismo é justamente o de remover as camadas que encobrem os acontecimentos. Nem sempre a missão é bem sucedida. Mas o simples fato de tentar já é essência do jornalismo. Há dezenas, centenas de questões a serem discutidas sobre um acontecimento tão importante quanto foi o inédito sequestro de um embaixador estrangeiro no Brasil. Jamais se tinha feito algo parecido. O sequestro foi o mais "espetacular" golpe contra o regime militar, naquele momento. Ou seja: é um fato interessantíssimo. Qualquer jornalista que julga que um fato interessantíssimo pode ficar "velho" ou "superado" ou "esgotado" deveria mudar de profissão, para felicidade geral de leitores, ouvintes e telespectadores".</strong> </p>

<p>Por que a opção de dar um recorte cinematográfico à série de entrevistas, com introduções que evocam o roteiro de um filme ainda não realizado? Seria uma espécie de resposta ao fato de Hércules 56 ter ignorado Gabeira? </p>

<p><strong>"Não. Não tive qualquer intenção de responder ao documentário Hércules 56, um filme, aliás, bem realizado. Não sou nem nunca fui assessor de imprensa de ninguém - menos ainda de políticos, por mais respeitáveis que eles sejam. O meu partido é outro. Pertenço ao PPB, o Partido dos Perguntadores do Brasil. As referências "cinematográficas" apenas realçam o tom aventuresco de certas passagens, como, por exemplo, o tiro que Gabeira levou ao tentar, em vão, fugir dos chamados "agentes da repressão" em São Paulo. O livro começa com um tiro. É como se dissesse: o pau vai comer. A história que se vai retratar aqui não é brincadeira"</strong> </p>

<p>Você acredita que ainda hoje há uma mitificação em torno de algumas figuras dos anos de chumbo, algum tipo de aura que prejudique sua real compreensão? Ao fazer o livro, ficou com medo de alimentar o "mito Gabeira"?</p>

<p><strong>"Não. Mas é possível distinguir dois momentos diferentes em relação aos guerrilheiros que combateram a ditadura. Num primeiro momento, especialmente depois da volta dos exilados, houve uma (compreensível) glorificação da resistência. Com o passar do tempo, figuras como o próprio Gabeira passaram a desenvolver uma visão crítica sobre a prática da luta armada. Um exemplo bem específico: hoje, Gabeira diz que vê o sequestro com os olhos do refém - não dos sequestradores"</strong> </p>

<p>Ainda nessa questão, fica claro no livro que o episódio do sequestro persegue Gabeira, e até hoje - mesmo depois de demonstrar arrependimento - está associado à sua figura. A incursão na ilegalidade, que se estende às aventuras guerrilheiras no exílio, alimentam essa romantização da sua figura?</p>

<p><strong>"Há uma certa aura romântica em torno de guerrilheiros. Aventuras vividas nos anos de chumbo de combate ao regime militar terminam envolvidas por uma névoa de romantismo. Mas, com o tempo, é possível ver que o filme não é nem poderia ter sido tão romântico assim. Houve violência, derramamento de sangue, vidas perdidas, guerras sujas. O Brasil de hoje deve respirar aliviado, porque dificilmente um quadro daquele se repetirá"</strong> </p>

<p>Paulo Cesar Pereio disse: "Uma das virtudes medulares do Gabeira é a inteligência. Mas ele é paradoxal". Mas talvez seja justamente este o ponto mais interessante de Gabeira. Pelas entrevistas, fica claro que, desde os tempos da polarização cultural que se estabeleceu no Brasil nos anos 60 e 70, já era um personagem complexo, capaz de questionar as ideias feitas dos dois lados - mesmo estando comprometido com um lado específico. A principal característica de Gabeira, dentro da história da política do Brasil nos últimos 40 anos, seria a de apresentar um alternativa pluralista às radicalizações e certezas que o cercavam?   </p>

<p><strong>"Minha tendência é a de concordar com esta avaliação. Bem ou mal, com erros e acertos, avanços e recuos, a trajetória de Fernando Gabeira parecve apontar para a defesa de uma pluralidade que é sempre saudável e necessária"</strong></p>

<p>Quando perguntado se se considera um "rebelde fracassado", Gabeira diz que não é mais rebelde, apenas fracassado. Para muitos, Gabeira é a esperança de uma renovação e modernização de uma esquerda mais pragmática no país. Será que esta modernização passa justamente por um reconhecimento do "fracasso", ou seja, de que não há caminhos épicos ou românticos na política moderna? Como este "arrependimento" movimenta, de modo geral, a geração de Gabeira nos dias atuais?  </p>

<p><strong>"Não saberia falar em nome da geração de Gabeira. Mas eu diria que,independentemente de qualquer coisa, a atualização das visões do mundo é uma tarefa indispensável. Não é fácil. Pode ser um processo doloroso. Por exemplo: não é fácil admitir que as utopias - que provocaram paixões políticas em tantos jovens militantes por tanto tempo - foram, nas palavras de Gabeira, "sanguinárias", porque terminaram justificando um enorme rol de violências. É esta a leitura que ele faz do Século XX, na entrevista que me concedeu: as utopias foram sanguinárias. Isso é dito por um ex-guerrilheiro que se empenhou em implantar uma "utopia" socialista. Posições assim despertam rancores, polêmicas, discussões. Tomara que o "Dossiê Gabeira" possa cumprir este papel: o de provocar um debate sobre a trajetória de uma geração que tentou mudar o Brasil" </strong> </p>

<p>Por outro lado, para além do pragmatismo, Gabeira também defende a ideia de que política sem esperança é "insuportável". Até que ponto Gabeira se equilibra entre o realismo e o sonho, entre o político e o artista?</p>

<p><strong>"Não é só a política sem esperança que é insuportável. A vida sem esperança pode ser uma sucessão cinzenta de dias. É preciso sonhar com o possível - e o impossível. O fogo que alimenta esses sonhos é que move o mundo para frente. É preciso, apenas, estar atento  para não repetir erros do passado. Neste sentido, o depoimento de Gabeira no livro pode ser super-didático. Em resumo, ele diz que, hoje, já não há grandes roteiros de transformação a serem seguidos. Ninguém precisa pedir a bênção a Karl Marx todo dia de manhã. Mas há espaço para sonhos que podem ajudar a melhorar a vida de cada um e de todos. A diferença é que ninguém precisa acreditar, por exemplo, que o Estado deve mandar na vida de todos, como uma parte da esquerda achava nos anos sessenta, setenta e oitenta. Igualmente, não se deve acreditar que o "mercado" é que deve reger nossas vidas. O segredo da sabedoria, hoje, segundo Gabeira diz na entrevista, é saber qual a melhor combinação que pode ser feita entre estado e mercado, em momentos históricos específicos"</strong></p>

<p> Quando você chega à questão recente do uso indevido de passagens aéreas na Câmara, Gabeira diz que se sente mais leve, que perdeu o "figurino de reserva moral". Até que ponto o episódio pode mudar a imagem - e a carreira política - do político e intelectual?</p>

<p><strong>"Fiz perguntas duras sobre o assunto. Perguntei o que qualquer cidadão comum perguntaria, se tivesse a chance de confrontar Gabeira sobre a questão do uso indevido de passagens áeras cedidas aos parlamentares pela Câmara dos Deputados. Gabeira reconheceu o erro, plenamente"</strong><br />
 <br />
O que Gabeira tem ainda a acrescentar ao desacreditado cenário político brasileiro, com sua ainda - jovem - democracia?</p>

<p><strong>"Só ele poderá responder. Prefiro pensar na contribuição, mínima que seja,  que os jornalistas podem dar ao cenário brasileiro. Que contribuição pode ser esta ? Criar memória, por exemplo. Creio que toda profissão, todo profissional precisa de um lema para ir em frente. Escolhi um: "Fazer jornalismo é produzir memória". Há outros. Fazer jornalismo é desconfiar. Fazer jornalismo é ser impertinente. Fazer jornalismo é incomodar. Fazer jornalismo é não dar tapinha nas costas dos outros. Fazer jornalismo é não tratar o entrevistado como amiguinho (é o que a gente vê, lastimavelmente, na esmagadora maioria das entrevistas com celebridades de todos os tipos, em jornais, rádios, TVs, blogs, seja onde for). I´am sorry, mas meu time é outro. Fazer jornalismo é jogar pedra na vidraça. Fazer jornalismo é ter a ilusão de que vale a pena"</strong></p>]]>
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    <title>JÁ NAS LIVRARIAS : &quot;DOSSIÊ GABEIRA : O FILME QUE NUNCA FOI FEITO&quot; :  UMA SUPER-ENTREVISTA COM O JORNALISTA QUE UM DIA VIROU GUERRILHEIRO  </title>
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      <![CDATA[<p>AQUI:<br />
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    <title>MISTER TALESE, O SENHOR PODE ASSINAR A MINHA BÍBLIA, POR FAVOR ? ( UM RELATO SOBRE O GURU DO NOVO JORNALISMO)</title>
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    <summary type="text/plain">AQUI, O TEXTO COMPLETO: http://www.geneton.com.br/archives/000317.html...</summary>
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      <![CDATA[<p>AQUI, O TEXTO COMPLETO:<br />
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<p><img alt="TALESE2P1010078.jpg" src="http://www.geneton.com.br/archives/TALESE2P1010078.jpg" width="300" height="400" /></p>]]>
      
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    <title>RELATO INCOMPLETO DE UM ENCONTRO COM O HOMEM QUE ASSINOU MINHA BÍBLIA: GAY TALESE, O GURU DO NOVO JORNALISMO</title>
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    <modified>2009-07-11T02:20:12Z</modified>
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    <summary type="text/plain"> “A humanidade só será feliz no dia em que o último editor for enforcado nas tripas do penúltimo” foi a sentença que o meu demônio-da-guarda me soprou, nítida e clara, ao pé do meu ouvido esquerdo, no exato instante...</summary>
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    <dc:subject>Reportagens</dc:subject>
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      <![CDATA[<p>         <br />
                     <strong> “A humanidade só será feliz no dia em que o último editor for enforcado nas tripas do penúltimo” foi a sentença que o meu demônio-da-guarda me soprou, nítida e clara, ao pé do meu ouvido esquerdo, no exato instante em que  ouvi o cultuadíssimo jornalista Gay Talese fazer uma confissão sobre os bastidores do jornalismo.</strong></p>]]>
      <![CDATA[<p> <strong>A confissão: uma reportagem que ele fez, nos anos setenta, sobre o encontro de Fidel Castro com Cassius Clay, em Cuba, foi descartada por nada menos de dez publicações diferentes. Dez!</p>

<p>             É possível imaginar a cena: uma dezena de editores entediados deve ter passado os olhos sobre o relato escrito por Talese antes de vomitar uma desculpa qualquer para justificar a recusa. </p>

<p>             Editores açougueiros cometem atrocidades todos os dias em todas as redações do planeta. Mas o caso da reportagem escrita em Cuba é uma daquelas aberrações que fariam um recém-formado desistir imediatamente da profissão. </p>

<p> <br />
              Não é para menos. Tratava-se de uma reportagem escrita por um dos maiores nomes do jornalismo do Século XX sobre duas figuras míticas: o boxeador que entrou para a história por ter nocauteado um punhado de adversários imbatíveis e o comandante de uma ilhota que cutucava com vara curta a superpotência americana. Gay Talese, Cassius Clay e Fidel Castro. A camarilha de editores deu o veredito: não. Um dos argumentos que usaram: o texto estava grande. Precisava ser reduzido. Talese disse que não. Não poderia reduzir. </p>

<p>            Os burocratas da profissão são exatamente assim: passam a vida inteira querendo provar que o público leitor detesta ler. Assim, todo e qualquer texto deve ser imediatamente trucidado. Ah, como são pateticamente pretensiosos...</p>

<p>              Depois de três décadas e meia de observação, posso declarar diante do tribunal a única certeza que adquiri nesta profissão: o maior inimigo do Jornalismo é o jornalista. Não existe outro. Ponto. Parágrafo. </p>

<p><br />
            O resultado da investida do exército de editores burocratas foi este: o relato da expedição cubana de Gay Talese só chegou às mãos do público quando foi incluída num livro, anos depois.</p>

<p>             Talese – um jornalista quase sexagenário na época da recusa – confessou, candidamente, que sentiu uma lufada de humilhação agitar suas florestas interiores ao ser brindado pelos editores com dez pontapés no traseiro.</p>

<p><br />
             Pergunta-se: quem é capaz de recordar o nome de um desses texticidas (assassinos de textos) que jogaram a reportagem de Talese no lixo ? Ninguém. Foram engolidos, um por um, pelo esquecimento.</p>

<p>            Já Gay Talese sobreviveu.</p>

<p><br />
             Ei-lo agora, tanto depois, narrando suas desventuras numa noite tecnicamente cálida deste inverno na Cidade do Rio de Janeiro. </p>

<p>             <br />
            A confissão de Talese sobre o pesadelo que sofreu na mão de editores foi feita diante de uma fauna de tietes, curiosos, estudantes, aspirantes e dinossauros do jornalismo, reunida numa sala de cinema que fazia as vezes de palco de conferência no Instituto Moreira Salles, na Gávea, Rio de Janeiro.  O jornalista Arthur Dapieve cumpriu com garbo o papel de mestre de cerimônia.</p>

<p>            Quem conseguiu uma vaga na platéia ouviu um dos pais do New Journalism dizer que, lá no início da carreira, nos anos cinqüenta e sessenta, dava predileção a personagens anônimos, ao invés de cortejar os famosos. </p>

<p>             Não por acaso, uma das primeiras reportagens que escreveu tinha como personagem central o redator de obituários do New York Times, um jornalista que vivia esquecido, numa mesa no canto da redação, ocupado em ruminar seus mortos. </p>

<p>             Talese não teve dúvida em transformar um jornalista em notícia, o que quebrava um dos mandamentos da profissão (“jornalista só é notícia quando morre”). Não é verdade. Ao retratar o redator de obituários, Talese mostrou que jornalista que escreve sobre morte pode ser notícia, sim. Basta que tenha a sorte de atrair a atenção de um repórter inspiradíssimo, como ele.</p>

<p>             A reportagem de Talese sobre um redator de obituários chamado Alden Whitman é um clássico imbatível do jornalismo. Pode ser lida no livro “Fama e Anonimato”, relançado no Brasil pela Companhia das Letras.</p>

<p>              Estudantes, amadores, profissionais, correi: o que estão esperando antes de devorar o texto de Talese sobre o “mister Bad News”?</p>

<p><br />
              Um repórter burocrata diria que não, um mero redator de obituários não “rende matéria”. Talese dá uma lição perene: personagens anônimos podem ser,sim, fascinantes, extraordinários, comoventes. É uma regra universal. Tudo depende – única e exclusivamente - da sensibilidade do repórter.</p>

<p>              Ao falar sobre a gênese da célebre reportagem sobre Frank Sinatra, igualmente clássica, Talese fez outra confissão: disse que nunca se sentiu atraído a escrever sobre gente famosa. Preferia lançar seus faróis sobre gente anônima, o que parecia uma “contradição”. Afinal, o jornalismo se alimenta da fama.</p>

<p>              Não por acaso, quando recebeu de um editor a tarefa de escrever sobre Frank Sinatra, Talese teve a tentação de recusar a encomenda. Imaginou: que pergunta Frank Sinatra já não tinha respondido um milhão de vezes? </p>

<p>             (Neste exato momento da fala de Talese, meu demônio-da-guarda entra em cena novamente, para sussurrar uma confissão ao pé do meu ouvido direito. Diz que, se tivesse a chance de interpor uma ressalva às palavras de Talese, declararia, solenemente: “Ah, não,oh guru do Novo Jornalismo, permita-me um momento de petulância: ao contrário do que Vossa Excelência diz, haverá sempre uma maneira de perguntar o que não tinha sido perguntado. Não há celebridade que não possa ser confrontada. Mas... quem sou eu para discrepar?”. Feito este exercício de autocrítica, meu demônio-da-guarda recolhe-se a um silêncio reverente).  </p>

<p>              Hoje, Talese pode dizer que, por sorte, Frank Sinatra não quis lhe dar uma entrevista. Assim, o caminho ficou livre para que o repórter transferisse todas suas atenções para o entourage de anônimos que cercavam o ídolo dos palcos.  </p>

<p>             O homem que fazia o papel de double de Frank Sinatra – um personagem chamado Johnny Delgado – parecia, aos olhos de Talese, tão fascinante quanto o original. Talese descreve a cena em que viu se aproximar um vulto que ele jurava ser Sinatra em pessoa. Não era. Quem se aproximada era o dublê. </p>

<p>                           <br />
            É bola na rede, gol de Talese: sem que tenha sido a chance de interrogar o objeto principal da reportagem, Talese produziu uma reportagem definitiva sobre mister Sinatra. Bingo.</p>

<p>            Talese faria outra confissão – que arrancaria suspiros de espanto da platéia: não usa a internet como instrumento de trabalho. Diz que a “tecnologia” da internet pode ser usada, por exemplo, para confirmar uma data. Mas não pode substituir, nunca, o contato “olho no olho” com a realidade.<br />
Repórter deve ir para a rua.Não pode passar o dia contemplando o retângulo luminoso de um monitor.</p>

<p>             Neste instante, lembrei-me de uma máxima de Joel Silveira, grande repórter da linhagem de Talese: a “víbora” Joel dizia que não existe nada mais triste do que ver um repórter contemplando o teclado de uma máquina de escrever na redação, enquanto os assuntos, todos, estavam lá fora, na rua, à espera de quem pudesse descobrí-los.</p>

<p>             Por princípio, Talese diz que, ao retratar seus personagens, não gravava nem fazia anotações : preferia observa-los com toda a atenção. De volta ao hotel, à noite, redigia o que tinha visto. </p>

<p>              Ao fazer este relato, lanço da mão da “técnica Talese”: não estou recorrendo a gravações nem anotações. Tento reproduzir – de memória – o que acabei de ouvir. Já se disse que a memória guarda o que interessa. O resto some no abismo do esquecimento.<br />
            <br />
            Guardei – de memória - estas lições do guru do New Journalism. Há outras. Prometo: voltarei ao assunto, em breve ( Em nome de São Gutemberg: que outra coisa pode fazer um repórter, além de passar adiante o que viu e ouviu?). </p>

<p>             <br />
             Terminado o pronunciamento, mister Talese se dispôs a assinar autógrafos . </p>

<p>             ( Pausa para um registro bibliográfico: raríssimamente peço um livro emprestado. Dos pouquíssimos que pedi, o único que não tive a chance de devolver ao proprietário foi justamente um título de Talese: a primeira edição de “Fama e Anonimato”, lançada no Brasil nos anos setenta, pela editora Expressão e Cultura, com o título de “Aos olhos da Multidão”. Era a Bíblia de quem cultuava as pérolas de papel que Talese produziu, como o perfil do redator de obituários ou a reportagem sobre Frank Sinatra. Um colega jornalista, chamado Luiz Edmundo Monteiro, me emprestou o exemplar, no final dos anos oitenta. Depois, se mudou para o Paraguai. Jamais tive a chance de reencontrar o dono do exemplar – que ficou comigo esses anos todos. Hoje, ao me dirigir para o Instituto Moreira Salles, levei o livro que um dia, antes de ser relançado, era tratado como relíquia. A capa, frágil, ameaça se romper).</p>

<p>            Sentado numa mesa, com os óculos na ponta do nariz, Talese veste-se como um dândi (sempre fez questão de cultuar paletós, jaquetas, coletes, sobretudos, sapatos, meias e lenços elegantes). Simpático, estende a mão para pegar o exemplar em ruínas. </p>

<p>            Digo a ele:</p>

<p>            - O senhor pode assinar a minha Bíblia?</p>

<p>             Talese ri:</p>

<p>            - É sua Bíblia ? Mas parece meio velha.... ( agora, ele manuseia a capa puída).</p>

<p>            - É velha, mas funciona...</p>

<p>               O guru ri de novo, assina, agradece.</p>

<p>               Termina o rapidíssimo diálogo sobre o meu devastado exemplar de  "Aos Olhos da Multidão" , minha Bíblia jornalística, meu Evangelho Para Repórteres Segundo Gay Talese. </p>

<p>                Eu poderia ter dito a ele que acendo uma vela para "Aos Olhos da Multidão" e outra para uma entidade inventada por Kurt Vonnegut : Nossa Senhora do Perpétuo Espanto. </p>

<p>                Se tivesse tido tempo de se manifestar, meu anjo-da-guarda finalmente levantaria a voz para interferir no diálogo, como se fosse um estudante ingênuo num comício de DCE : "Ah, com licença, oh guru do New Journalism, eu me arrisco a acrescentar que, se o Vaticano estivesse preocupado em combater as calamidades jornalísticas,  deveria nomear Nossa Senhora do Perpétuo Espanto padroeira universal e plenipotenciária dos jornalistas.  Porque só são dignos de povoar as redações os jornalistas que fazem da profissão um culto diário à Nossa Senhora do Perpétuo Espanto:  são aqueles que tentam a todo custo não perder a capacidade de olhar a vida - e os personagens que a povoam -  como se estivessem vendo tudo pela primeira vez.  Em resumo: os que se recusam a perder a capacidade de se espantar. Somente assim, poderão narrar - da maneira mais atraente possível - a marcha dos fatos e dos personagens, anônimos ou famosos, que movem a máquina do mundo. Os que não são tocados por este espanto pertencem à triste linhagem dos que jogaram no lixo o que o senhor, Mister Talese, escreveu sobre Cassius Clay em Cuba. Já os que cultuam Nossa Senhora do Perpétuo Espanto  serão sempre capazes de descobrir, em personagens como o redator de obituários, histórias que, claro, merecem ser contadas. Sempre mereceram !". </p>

<p>                Mas não, não houve tempo de falar com Gay Talese sobre velas, redações, obituários e espantos nem de ouvir as perorações de anjos e demônios da guarda.</p>

<p>                A fila dos que buscavam um autógrafo se estendia pelo pátio do Instituto. São dez e meia da noite. Hora de pegar a Bíblia e bater em retirada.</p>

<p>                 </strong></p>

<p><img alt="TALESE2P1010078.jpg" src="http://www.geneton.com.br/archives/TALESE2P1010078.jpg" width="300" height="400" /></p>]]>
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    <title>MENINOS, EU VI: UM ENCONTRO COM MILVINA DEAN, A ÚLTIMA SOBREVIVENTE DO TITANIC</title>
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    <modified>2009-05-31T20:27:30Z</modified>
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    <dc:subject>manchete</dc:subject>
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      <![CDATA[<p>aqui: <br />
<a href="http://www.geneton.com.br/archives/000116.html">http://www.geneton.com.br/archives/000116.html</a></p>]]>
      
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    <title>ROBERTO CARLOS</title>
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    <modified>2009-04-21T15:15:45Z</modified>
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    <summary type="text/plain"> ROBERTO CARLOS TENTA EXPLICAR O FENÔMENO ROBERTO CARLOS O cenário é a suíte de um hotel em Ipanema. Numa gravação feita originalmente para o Fantástico, Roberto Carlos dá pistas sobre o motivo do sucesso perene de um fenômeno chamado...</summary>
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    <dc:subject>Entrevistas</dc:subject>
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      <![CDATA[<p>                              <strong> ROBERTO CARLOS TENTA EXPLICAR O FENÔMENO ROBERTO CARLOS</strong></p>

<p><br />
<strong>O cenário é a suíte de um hotel em Ipanema. Numa gravação feita originalmente para o Fantástico, Roberto Carlos dá pistas sobre o motivo do sucesso perene de um fenômeno chamado Roberto Carlos. Primeira pista: a exigência. Num país em que o improviso é tido como virtude, Roberto Carlos é obsessivamente exigente com a qualidade do que faz. O nível de exigência descamba com frequência para a teimosia, como ele próprio admite. Mas pode explicar – pelo menos em parte – a gênese do sucesso. Segunda pista: a paciência. Terceira: a sintonia com o gosto popular. </p>

<p>Com a palavra, o “Rei” Roberto Carlos, num depoimento agora publicado pela primeira vez. </strong></p>]]>
      <![CDATA[<p><br />
<strong>GMN: Já se tentou explicar. Como é que você explica o fenômeno Roberto Carlos? </p>

<p>Roberto Carlos: “Nunca me preocupei com a explicação. Trabalho muito. Gosto muito do meu trabalho. Uma das coisas que têm me ajudado muito é a paciência. Porque não basta saber fazer música. É preciso ter paciência para insistir na idéia de fazer melhor do que aquilo que a gente fez até certo ponto. A gente fez até aqui (aponta para uma escala imaginária) e ficou bom. Mas será que se eu ficasse outra noite trabalhando nesta frase eu não iria fazer melhor ? </p>

<p>A paciência me impulsiona. Isso tem me ajudado. O que tem me ajudado muito também é que tenho o gosto muito parecido com o do povo. Gosto – muito – das coisas de que o povo gosta. Podem ser coisas muito simples – que a própria crítica não elogia tanto por ser algo muito popular. Mas gosto. Eu me identifico – muito - com o povo, realmente. É um fator que tem contribuído para o bom resultado de minha carreira. Mas é apenas um fator. São coisas que a gente não sabe explicar”. </p>

<p>GMN: As virtudes de Roberto Carlos como um grande cantor todo mundo conhece. Se você fosse um crítico de música rigoroso, que defeito você apontaria em Roberto Carlos? </p>

<p>Roberto Carlos: “Sou teimoso. Exagero um pouco na minha teimosia. Quando estou trabalhando num CD - e as coisas estão indo bem - eu até paro para pensar um pouco. Descanso, relaxo. Quando vou ouvir de novo, digo: “Estava bom. Teimei demais”. </p>

<p>GMN: Chico Buarque disse numa entrevista que, com o passar do tempo, a necessidade de fazer música vai diminuindo, porque música popular, segundo ele, é coisa de juventude. A fonte do Roberto Carlos compositor começou a secar ou não? </p>

<p>Roberto Carlos: “Não.De jeito nenhum. Eu sinto diferente: a necessidade de fazer música não tem diminuído com o tempo. Sempre quero fazer alguma coisa nova. Quero falar das coisas que sinto numa nova música. Penso assim. Logicamente, com o passar do tempo a gente gosta um pouco mais do conforto e de trabalhar um pouco menos. Mas fazer música é algo de que gosto muito. Não tenho menos vontade de fazer música. Gosto de fazer. Quero fazer mais”. </p>

<p>GMN: Que tipo de cuidado você tem com a voz? É verdade que você masca gengibre todo dia? </p>

<p>Roberto Carlos: “Não masco gengibre. Faço um gargarejo de gengibre com mel antes dos shows. Os cuidados que tenho são os de não fazer esforços exagerados com a voz, manter minha voz sempre bem cuidada. O gengibre é suave, com mel. Não masco, porque acho muito forte”. </p>

<p><br />
GMN:Você diz que já conseguiu se livrar de manias que estavam atrapalhando você. De que mania exatamente você já se livrou? </p>

<p>Roberto Carlos: “Não é bem assim! Não são só manias. É a questão do TOC, o Transtorno Obsessivo Compulsivo. Não se trata de se livrar dessa ou daquela mania, mas de tratar o problema como um todo. Determinadas coisas me angustiam hoje menos do que antes. Exemplo: o fato de você estar de preto não está me incomodando. Antes, eu poderia ficar um pouco incomodado. Mas vai ser difícil eu fazer certas coisas. Vai ser muito difícil que eu venha a usar o marrom. É uma cor de que não gosto. Também vai ser difícil eu deixar de usar azul. Porque é uma cor de que gosto. Preto é uma que acho bonita...”. </p>

<p>GMN: Se eu estivesse de marrom – uma cor que você detesta – você me receberia? </p>

<p>Roberto Carlos: “Receberia. Mas, se você fosse gravar um disco comigo de marrom, eu iria ficar meio “assim”“. </p>

<p>GMN: Com o tratamento , você já conseguiu descobrir qual foi a origem dessas manias? </p>

<p>Roberto Carlos: “Não existe a descoberta da origem. O Transtorno Obsessivo Compulsivo pode até ser hereditário. Não tem uma origem básica. Isso parece que já vem no DNA”. </p>

<p>GMN: Quantas sessões de tratamento você vem fazendo por semana para se livrar do TOC? </p>

<p>Roberto Carlos: “Faço duas sessões por semana já há algum tempo”. </p>

<p>GMN: Você tem apelado para medicamentos também? </p>

<p>Roberto Carlos: “Não tenho tomado remédio”. </p>

<p>GMN: Que palavras você não dizia antes mas agora se sente à vontade para dizer? </p>

<p>Roberto Carlos: “Ainda não cheguei a este estágio do tratamento. Mas algumas reações que eu censurava muito eu segurava. Hoje em dia, falo. Digo as coisas que me incomodam. Uso qualquer tipo de palavra – inclusive palavrão mesmo. Eu me segurava muito. Ficava sempre me criticando e me segurando”. </p>

<p>GMN: Você chegou a mudar letras de músicas suas, para evitar dizer certas palavras ? Hoje, você se sentiria à vontade para dizer certas palavras? </p>

<p>Roberto Carlos: “Estou quase. Eu mudei a letra de “É preciso saber viver”. Digo “se o bem e o bem existem”. Mas, daqui a pouco, eu vou dizer a outra”. </p>

<p>GMN: É verdade ou é lenda essa história de que você fala com as plantas? </p>

<p>Roberto Carlos: “É um pouco de verdade e um pouco de lenda. Falo com as plantinhas. Mas, na realidade, o que faço é carinho nas plantas, por serem seres vivos”. </p>

<p>GMN: O que é que você diz a elas? </p>

<p>Roberto Carlos: “Faço um carinho. Cumprimento. Digo: “Bom dia. Tudo bem, minhas plantinhas...” – qualquer coisa assim. Boto a mão nas plantas com muito carinho. Tenho realmente muito carinho por elas. Mas não existe uma conversa. Antigamente, eu dizia até que ouvia as plantas. Mas acho que eu estava meio.....Agora, estou um pouco pior (ri). Só falo, para não dizer que ouvi....”. </p>

<p>GMN: Quando quer andar na rua sem ser reconhecido, Pelé usa disfarces. Qual foi a última vez em que você conseguiu andar na rua? </p>

<p>Roberto Carlos: “Faz muito tempo. Nem me lembro de poder andar na rua tranquilamente sem ser abordado por alguém. Isso só antes da Jovem Guarda. De lá para cá, só lá fora, onde ninguém me conhece como aqui. Não é questão ser incomodado, mas ser abordado pelas pessoas”. </p>

<p>GMN: Você sente falta da liberdade de poder ir ao cinema num sábado à tarde ou a um restaurante sem ser abordado? </p>

<p>Roberto Carlos: “Eu sinto às vezes. Penso sempre assim: o que acontece é o bom resultado do trabalho que faço. O resultado do trabalho de um artista é ele ficar conhecido e ganhar todo o carinho do público. Isso é que faz com que ele não possa sair à rua tranquilamente. Mas às vezes sinto falta. Antes, não sentia tanto. Mas atualmente, nesta fase de minha, tenho sentido falta de sair um pouco, tomar um sorvete na esquina, bater um papo, tomar uma cerveja. Normalmente, não tomo cerveja. Mas até uma cerveja iria bem”. </p>

<p>GMN: Você já pensou na possibilidade de usar um disfarce? </p>

<p>Roberto Carlos: “Fiz duas vezes na época da Jovem Guarda”. </p>

<p>GMN: Descobriram você? </p>

<p>Roberto Carlos : “Quando saí pela segunda vez, um cara disse: “Você parece Roberto Carlos...”.Eu disse :”Não sou não”. Mas acho que ele não acreditou em mim”. </p>

<p>GMN: Que disfarce você usou? </p>

<p>Roberto Carlos : “Botei barba, o cabelo todo para trás. E saí. Fui ao cinema. Mas a barba postiça, para ficar natural, tem de ser colada. E incomoda muito. Não foi uma coisa confortável. Não me animei, então, a fazer outras vezes”. </p>

<p><br />
GMN: Por que é que você renega o primeiro disco que você gravou? Você considera esse disco ruim, por algum motivo? </p>

<p>Roberto Carlos: “Não renego. Com toda sinceridade: não considero este disco como um disco bom. Tanto é que não vendeu. Ou vendeu muito pouco. Mas não chego a renegá-lo. É um disco que faz parte de minha história. O que aconteceu, na realidade, é que a própria CBS não manteve este disco em catálogo. Virou um disco de colecionador. Já que não foi colocado em catálogo nem se encontrava nas lojas, virou um disco difícil. Mas não renego nem considero um bom disco. É um disco de começo de carreira” (O disco que nunca foi relançado é “Louco por Você”, gravado em 1961). </p>

<p>GMN: O motivo por que esse disco não agrada tanto você é porque você imitava João Gilberto? </p>

<p>Roberto Carlos: “Não. Eu, na realidade, cantava muito influenciado por João Gilberto, mas num disco anterior (um compacto em que canta “João e Maria” e “Fora do Tom”). Neste disco eu já estava adquirindo minha própria maneira de cantar, meu próprio jeito”. </p>

<p>GMN: A moda dos cabelos grandes passou para todo mundo, menos para Roberto Carlos. Você pensa em um dia cortar os cabelos? </p>

<p><br />
Roberto Carlos: “Não. Pode ser que eu diminua um pouco o comprimento. Mas acho muito difícil que eu venha a usar o cabelo totalmente curto. Não me vejo assim. Se eu tivesse um cachorro e chegasse em casa de cabelo curto, ele iria estranhar. E eu também iria me estranhar”. </p>

<p>GMN: Que tipo de conselho o vovô Roberto Carlos dá aos netos? </p>

<p>Roberto Carlos: “Que eles sejam boas pessoas e se empenhem sempre em caminhar do lado do bem e lutem pelas coisas que querem. Mas ainda são muito pequenos para entenderem. É o recado que darei daqui a pouco a eles. De uma certa forma, a gente já diz a eles essas coisas de uma forma ou de outra”. </p>

<p>GMN: A gente descobriu no arquivo da TV Globo um pedido de Cartola endereçado a Roberto Carlos: ele queria que você gravasse a música “O Mundo é um Moinho”. Você já pensou em incluir uma música de Cartola no repertório? </p>

<p>Roberto Carlos: “Quase cantei uma música de Cartola : “As Rosas não Falam”. Mas, justamente por achar que as rosas falam, eu disse: “Não; não vou gravar ainda não”. Pode ser que um dia eu venha a gravar. A música é linda. A letra é linda, maravilhosa. Cartola ó um grande compositor, inspiradíssimo. Faz coisas lindas. Quem sabe um dia eu vou gravar uma de suas músicas...” </p>

<p>GMN: Que música de outro compositor você daria tudo para ter feito? </p>

<p>Roberto Carlos: “Algumas músicas eu gostaria de ter feito. Não vou dizer quais são, mas, em algum momento, eu teria vontade de trocar uma frase. Vejo músicas lindas que falam de amor mas de repente, no final, elas mudam para terminar de uma forma mais inesperada. Isso às vezes me tira a idéia de gravar essas músicas. </p>

<p>Gosto de canções que falam sempre de amor bem-sucedido. Eu mesmo tenho feito canções de amor que não falam somente de amores bem sucedidos. Mas hoje em dia gosto de falar de amores bem sucedidos, como na canção “Te Amo Tanto” – que fala de uma declaração de amor. Fico pensando por que o amor é muito usado na arte, no teatro, na música – mas falando da dor. É curioso. Para mim, amor não devia combinar com dor. É meio utópico. Hoje, gosto de fazer canções que só falam na forma maior do amor”. </p>

<p>GMN: Você falou de músicas que desistiu de gravar por achar que elas não tocam do amor do jeito que você entende. Você pode citar uma música de outro compositor a que você não faria nenhum reparo? </p>

<p>Roberto Carlos: “É difícil. Não sei. Mas quando digo que não sei não quer dizer que eu tenho alguma coisa a criticar nas músicas de outros compositores” </p>

<p>GMN: Uma velha pergunta: você acha que cantor deve falar de política? </p>

<p>Roberto Carlos: “Depende. Aquele que entende de política deve. Mas quem não entende de política não deve. Porque ninguém deve falar sobre o que não sabe. A gente deve falar sobre o assunto que conhece. Quem entende bem de política deve falar, assim como quem entende de amor fala de amor. Quem entende de matemática fala de matemática. Não tenho nada contra quem fala de política em música. Isso depende da vontade e do conhecimento de cada um”. </p>

<p>GMN: Diz-se que Roberto Carlos talvez seja o cantor mais carismático da música brasileira. Que definição Roberto Carlos tem para “carisma”? </p>

<p>Roberto Carlos: “Carisma é quando uma pessoa consegue chegar ao público e haver uma comunicação, uma troca de sentimento , energia e amor. É algo que pode acontecer em todos os setores, não apenas com os artistas. Quando alguém tem esse tipo de característica – o de se comunicar no olhar e causar alguma coisa ao espectador ...O carisma é uma troca de energia”. </p>

<p>GMN: Você faz força para criar a imagem de bom moço? </p>

<p>Roberto Carlos: “A imagem de bom moço, não. Sou o que sou! Se de repente passo a imagem de bom moço, não vejo nada de errado. O errado seria se eu fosse um cara errado tentando passar a imagem de um cara certo. Não quero dizer que eu seja dos mais certinhos. Sou apenas o que sou. Mas não me preocupo em passar algo que não sou”. </p>

<p>GMN: Erasmo Carlos disse numa entrevista recente que os contatos entre vocês dois são raros hoje em dia. O casamento artístico com Erasmo Carlos começou a dar sinais de cansaço? </p>

<p>Roberto Carlos: “Não. Não chamaria de ”casamento artístico” , porque não gosto dessa expressão. Nesta nossa amizade realmente fraternal, a gente nunca se cansou de trabalhar um com o outro. O que acontece é que, num determinado momento da minha vida, eu quis compor sozinho. As canções que tenho feito nesses cinco anos, dedicadas a Maria Rita, gosto de fazer sozinho. É uma coisa minha, muito minha. E até com Erasmo, meu irmão e “amigo de fé”, como digo na letra que fiz para ele, não seria algo que eu gostaria de fazer. Porque essas músicas gosto de fazer sozinho. Erasmo sabe. E entende muito bem”. </p>

<p>GMN: Pouca gente sabe que você compôs sozinho alguns dos grandes clássicos da Jovem Guarda, como “Quando” e “E Por Isso Estou Aqui”... </p>

<p>Roberto Carlos: “Namoradinha do Amigo Meu” também... </p>

<p>GMN: Uma curiosidade “técnica”: quando você compõe sozinho, você usa piano ou violão? Como é que você começa a compor? </p>

<p>Roberto Carlos: “Antigamente, eu compunha com violão. Depois, comecei a compor com piano. Mas não toco piano. Ou toco muito mal. O meu piano é um pianinho elétrico em que troco de tom. Não toco em todos os tons. Não tenho esta habilidade, embora tenha estudado piano quando era menino. Mas muito pouco. Sou muito limitado no piano. Mas tenho composto mais no piano do que no violão”. </p>

<p>GMN: Você já teve a tentação de apelar para o espiritismo para tentar um contato com Maria Rita? </p>

<p>Roberto Carlos: “Não...” </p>

<p>GMN: Quando o seu filho teve problemas de saúde, você teve contatos com Chico Xavier... </p>

<p>Roberto Carlos : “Tive. Procurei inclusive Zé Arigó (médium mineiro a quem se atribuíam “curas espirituais” nos anos sessenta) num momento de muita aflição. Acho que meu filho foi beneficiado com esse contato que a gente fez com Arigó...” </p>

<p>GMN: Hoje, você não teria a tentação de apelar para o espiritismo para estreitar o contato que você diz que mantém com Maria Rita até hoje? </p>

<p>Roberto Carlos: “Não. Isso tenho feito do meu jeito – espiritualmente e mentalmente. O jeito que estou fazendo é melhor para mim e para nós” </p>

<p>GMN: Sua fé religiosa sofreu algum abalo em todo este processo? </p>

<p><br />
Roberto Carlos: “Não sei se um abalo. Mas passei a ver todas essas coisas de uma forma muito realista. Aquilo de “a fé remove montanhas” não é, para mim, uma realidade. A fé ajuda você, dá força. Ajuda você a subir a montanha e sair do outro lado. Ou a dar a volta. Mas não tira a montanha da frente. A fé, então, ajuda, mas não muda o panorama das coisas. Porque as coisas não mudam de repente”. </p>

<p>GMN: Se você fosse fazer uma comparação, você diria que o Roberto Carlos de hoje é tão religioso quanto o Roberto Carlos de há vinte anos? </p>

<p>Roberto Carlos: “Sou religioso. Talvez não seja tão praticante. Continuo católico. Só que hoje, sem culpas, consigo questionar certas coisas de minha religião e de todas as religiões. Questiono inclusive esta questão da fé. Isso é uma questão de evolução, através da vida e dos acontecimentos. Hoje, vejo tudo de forma realista. Questiono coisas que não questionava antes”. </p>

<p>GMN: Paul McCartney disse, numa entrevista recente, que às vezes em casa, diante do espelho, na hora de escovar os dentes, ele se pergunta: “Mas será que este é o Paul McCartney que tocava com os Beatles?”. Em casa, sozinho, vive a sensação de olhar para Roberto Carlos como se Roberto Carlos fosse outra pessoa? </p>

<p>Roberto Carlos: “Não. Nem um pouco. Eu me olho no espelho de uma forma normal, como uma pessoa comum. Nem me lembro. Sinceramente. Faço as coisas de uma forma natural. Olho-me no espelho, faço minha barba, penteio o cabelo. Não penso nessas coisas”. </p>

<p>GMN: Se alguém pedisse a Roberto Carlos para escrever um verbete sobre Roberto Carlos numa enciclopédia da música popular brasileira, qual seria a primeira frase que você escreveria? </p>

<p>Roberto Carlos: “Não escreveria....” </p>

<p>GMN: Por excesso de modéstia? </p>

<p>Roberto Carlos: “Porque, para mim, é complicado escrever sobre mim mesmo. Acho muito complicado”. </p>

<p>GMN: E se um crítico recorresse a você e perguntasse: qual é a melhor definição de Roberto Carlos sobre Roberto Carlos? </p>

<p>Roberto Carlos: “Para mim, é complicado. Só se ele me perguntasse especificamente sobre uma característica minha. Mas eu me analisar e escrever alguma coisa a meu respeito, eu não saberia. Para mim, seria difícil”. </p>

<p>GMN: Se tivesse de escolher uma só palavra para definir Roberto Carlos, que palavra você usaria? </p>

<p>Roberto Carlos: “Uma só palavra é difícil. É a mesma coisa que você me perguntou antes: se eu tivesse de escrever alguma coisa numa enciclopédia a meu respeito. Você pergunta a mesma coisa com uma só palavra, o que é mais difícil ainda... Não sei. Nunca parei para pensar nesta questão. Sou o que sou. Escrevo e canto o que sinto. E só. Paro por aí. Não fico me analisando”. </p>

<p>GMN: Numa entrevista antiga que você deu ao Fantástico, você dizia que já se daria por satisfeito se fizesse parte das lembranças do público. Isso satisfaria você hoje ainda? </p>

<p>Roberto Carlos: “Com certeza. Estou satisfeito com o que tenho conseguido junto ao público. Ficar na lembrança do público é uma coisa muito linda”. </p>

<p>GMN: Você um dia teria disposição para escrever um livro de memórias? </p>

<p>Roberto Carlos:”Já pensei em escrever minha história. Mas acho que, num livro só não cabe não. Vou ter de escrever uns três livros...” (rindo) </p>

<p>GMN: Já escreveu alguma coisa em casa? </p>

<p>Roberto Carlos: “Não. Faz vinte anos que estou pensando nisso...” </p>

<p>GMN: É verdade que você vem preparando um livro de memórias com um jornalista? </p>

<p>Roberto Carlos: “Não. Já pensei em contar minha história. Mas ainda não escrevi a primeira linha”. </p>

<p>GMN: Não são poucos os críticos que consideram a década de sessenta como o auge de Roberto Carlos. Você concorda com essa avaliação? </p>

<p>Roberto Carlos : “A década de sessenta foi uma época muito importante em minha vida. É a que mais chama a atenção dentro de toda a minha carreira. Mas os anos setenta são anos muito importantes na minha obra, pelas canções que escrevi. A Jovem Guarda, no entanto, é a que mais chama a atenção e a época mais representativa, pelo menos junto ao público , ao espectador, ao fã”. </p>

<p>GMN: Você tem alguma dificuldade de se analisar como artista. Você tem um certo pudor em se reconhecer como um grande nome da música brasileira – ou como um grande ídolo popular, pelo menos... </p>

<p>Roberto Carlos: “Tenho, porque acho que essas coisas não são pra gente viver, mas para ouvir. Sobre a gente mesmo e sobre as coisas que a gente faz, a gente tem de ouvir o que os outros acham - e não dizer o que a gente pensa sobre nós mesmos”. </p>

<p>(Entrevista gravada no dia 10 de dezembro de 2004) </strong></p>]]>
    </content>
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  <entry>
    <title>UM INFORME SOBRE O LIVRO &quot;ELZA, A GAROTA&quot;. OU : O DIA EM QUE O LOCUTOR-QUE-VOS-FALA FEZ UM FAVOR À LITERATURA BRASILEIRA</title>
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    <modified>2009-04-21T15:21:23Z</modified>
    <issued>2009-03-16T01:25:52-03:00</issued>
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    <summary type="text/plain">Aos fatos: o editor Alberto Schprejer me procurou no ano passado porque queria fazer um convite. Que tal escrever um livro-reportagem sobre um caso que sempre foi tabu na história do Partido Comunista Brasileiro - o &quot;justiçamento&quot; de uma menina...</summary>
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      <email>geneton@geneton.com.br</email>
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    <dc:subject>O Estado Geral das Coisas: Notas (Quase) Diárias</dc:subject>
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      <![CDATA[<p><strong>Aos fatos: o editor Alberto Schprejer me procurou no ano passado porque queria fazer um convite. Que tal escrever um livro-reportagem sobre um caso que sempre foi tabu na história do Partido Comunista Brasileiro - o "justiçamento" de uma menina de dezesseis anos de idade chamada Elza, no já remotíssimo ano de 1936 ? Suspeita de traição, ela foi executada num rito sumário, por ordens da direção do Partido. Método: estrangulamento. <br />
</p>]]>
      <![CDATA[<p>Não é um tema fácil, porque pode se prestar a todo tipo de manipulação ideológica. Elza é, literalmente, um esqueleto no armário da esquerda brasileira.</p>

<p>Diante do convite, o meu detector de matérias emitiu, na hora, um ruído característico que, discretamente, invade os meus tímpanos em situações semelhantes : um clique inconfundível, exatamente igual ao disparado por aqueles equipamentos que os técnicos usam para detectar sinais de radiação. Habemus matéria!</strong></p>

<p><br />
<strong>A pauta renderia, claro, uma bela reportagem, estritamente factual, sem qualquer contaminação ideológica. </p>

<p>(Sou repórter, não sou militante. Como personagem jornalístico, George Walker Bush me interessa tanto quanto - por exemplo - Vladimir Ílitch Uliánov, o popular Lênin. Eu daria tudo pela chance de entrevistar um ou outro, desde que Lênin fosse capaz de se levantar do velório que já dura oitenta e tantos anos no mausoléu da Praça Vermelha - e George Bush tivesse a idéia luminosa de me convidar para uma rodada de gravações exclusivas no rancho onde se enclausurou, no Texas. Os dois dariam excelente matéria-prima jornalística. Quem quiser fazer militância política que se inscreva num partido. Ponto. Parágrafo).</p>

<p>Ocupado com outros projetos, agradeci ao editor a lembrança do meu nome como possível autor do livro-reportagem. Entre uma e outra garfada num prato modernoso que, a bem da verdade, não deixou sinais de saudade no meu paladar, indiquei, informalmente, os nomes de dois jornalistas que poderiam dar conta da tarefa: Sérgio Rodrigues e Fernando Molica.</p>

<p>Não estou cometendo qualquer indiscrição ao citar esta cena (banal) dos bastidores da nossa paisagem editorial.</p>

<p>Sérgio Rodrigues levou adiante a empreitada.</p>

<p>É aí que a porca torce o rabo. Porque quero fazer uma confissão: ao recusar, por absoluta falta de tempo, o convite para fazer o livro-reportagem, terminei prestando, sem saber, um grande favor à literatura brasileira.</p>

<p>Neste momento, uma mão se ergue lá no fundo da sala: "Desembucha! O que foi que houve? Quer contar logo o que foi que aconteceu ?".</p>

<p>Quero: se eu tivesse feito o livro sobre Elza, teria produzido, apenas e tão somente, uma reportagem - ou uma série de entrevistas. É a única coisa que sei fazer. Um livro estritamente jornalístico sobre a garota Elza poderia, por sinal, ficar bom. Por que não ?</p>

<p>Mas Sérgio Rodrigues deu um passo adiante. </p>

<p>Diante da escassez de material jornalístico sobre o assunto, partiu para uma empreitada ousada: resolveu escrever um livro em que intercala o estritamente factual com páginas de ficção descarada. </p>

<p>Fez um golaço, porque a mistura entre fato e ficção foi felicíssima. Declaro, portanto, diante deste tribunal, que prestei um grande favor à literatura brasileira : ao recusar o convite para tocar o projeto, deixei, casualmente, o caminho "livre" para que um autor inspirado entrasse em cena e produzisse, a partir da história da garota Elza, uma mistura empolgante de ficção com verdade histórica, algo que eu jamais faria, por incapacidade técnica. </p>

<p>Dizei-nos, Paulo Coelho: a vida pode ou não pode ser uma miríade de acasos ?</p>

<p>O que interessa é que o livro "ELZA, A GAROTA", recém-lançado pela Editora Nova Fronteira, é arrebatador. Sérgio Rodrigues criou dois belos e apaixonantes personagens: Molina - um jornalista de quarenta e seis anos que já se deixara envenenar por uma mistura de "tédio e cansaço" - bate na porta de um apartamento de dois quartos, no bairro do Flamengo, à procura de um tal de Xerxes, um nonagenário que publicara um anúncio esquisito nas páginas de classificados de um jornal. Queria alguém que pudesse ajudá-lo a escrever suas memórias.</p>

<p>Um trecho:</p>

<p>"A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi que o velho falava como se escrevesse, vírgulas e tudo. Tamanho poder de articulação era coisa de um outro tempo, e foi só então que a idade quase impossível do homem - noventa e quatro, estava no jornal - desabou na sala diante dele como um rochedo, um totem, uma pirâmide".</p>

<p>A partir daí, as 236 páginas passam voando. </p>

<p>Em uma frase: "ELZA, A GAROTA" é um dos melhores livros brasileiros lançados nos últimos tempos. </p>

<p>Feita esta declaração, o autor-que-foi-sem-nunca-ter-sido desliga o terminal de computador, apaga a luz, fecha a porta e, como na letra daquela música antiga de Paulinho da Viola, desaparece na "poeira das ruas", não sem antes recomendar aos navegantes : correi para as livrarias.</strong></p>]]>
    </content>
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    <title>É AQUI ! A MAIOR GALERIA DE ENTREVISTAS DA INTERNET BRASILEIRA: NÉLSON RODRIGUES, JOÃO SALDANHA, CHICO BUARQUE, PAULO FRANCIS, JOEL SILVEIRA, CARL BERNSTEIN ( CASO WATERGATE), PELÉ E GRANDE ELENCO! </title>
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    <modified>2009-02-02T02:10:10Z</modified>
    <issued>2009-02-01T23:07:38-03:00</issued>
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      <email>geneton@geneton.com.br</email>
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    <dc:subject>manchete</dc:subject>
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    <title>FRIAÇA: AQUI, O DEPOIMENTO COMPLETO DO BRASILEIRO QUE REALIZOU O SONHO SECRETO DE TODO BRASILEIRO APAIXONADO POR FUTEBOL : MARCAR UM GOL PELO BRASIL NUMA FINAL DE COPA DO MUNDO NO MARACANÃ! </title>
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    <modified>2009-01-12T19:24:34Z</modified>
    <issued>2009-01-12T16:18:31-03:00</issued>
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      <![CDATA[<p><a href="http://www.geneton.com.br/archives/000310.html">http://www.geneton.com.br/archives/000310.html</a></p>]]>
      
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    <title>FRIAÇA </title>
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    <modified>2009-01-12T19:44:51Z</modified>
    <issued>2009-01-12T15:48:58-03:00</issued>
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    <created>2009-01-12T18:48:58Z</created>
    <summary type="text/plain">O DEPOIMENTO COMPLETO DO ÚNICO BRASILEIRO QUE REALIZOU O SONHO DE MARCAR UM GOL NUMA FINAL DE COPA DO MUNDO NO MARACANÃ. A INCRÍVEL HISTÓRIA DO ARTILHEIRO QUE TEVE UMA CRISE DE AMNÉSIA DEPOIS DE PERDER UM TÍTULO QUE PARECIA...</summary>
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      <email>geneton@geneton.com.br</email>
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    <dc:subject>Entrevistas</dc:subject>
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      <![CDATA[<p><strong>O DEPOIMENTO COMPLETO DO ÚNICO BRASILEIRO QUE REALIZOU O SONHO DE MARCAR UM GOL NUMA FINAL DE COPA DO MUNDO NO MARACANÃ. A INCRÍVEL HISTÓRIA DO ARTILHEIRO QUE TEVE UMA CRISE DE AMNÉSIA DEPOIS DE PERDER UM TÍTULO QUE PARECIA CERTO. QUANDO ELE "VOLTOU A SI", ESTAVA DEBAIXO DE UMA ÁRVORE, NUMA CIDADE DO INTERIOR"</strong>            <br />
        <br />
            Friaça podia bater no peito: era o único brasileiro que realizou o sonho de todo jogador de futebol: marcar um gol pelo Brasil, numa final de Copa do Mundo, no Maracanã. </p>

<p>            O autor da façanha morreu hoje, doze de janeiro de 2009, aos 84 anos.</p>

<p>            Tive a chance de entrevistá-lo duas vezes.</p>

<p>                             </p>]]>
      <![CDATA[<p>            <br />
          <strong>  <strong>  O depoimento completo de Friaça foi publicado no nosso livro "DOSSIÊ 50', lançado em 2000 pela Editora Objetiva. É a única reportagem que traz a palavra de todos os jogadores que entraram em campo para enfrentar o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950. Esgotado, o livro virou "raridade". Mas pode ser encontrado em sebos.<br />
:</strong><br />
           “FIZ UM A ZERO NA FINAL DA COPA.ALI NÓS JÁ ÉRAMOS DEUSES”</p>

<p>            Albino Friaça Cardoso tinha vinte e cinco anos, oito meses e vinte e seis dias quando realizou o sonho máximo de todos os jogadores brasileiros de todas as épocas: fazer um gol numa final de Copa do Mundo dentro do Maracanã superlotado. O gol sai logo no primeiro minuto do segundo tempo. O Maracanã enlouquece. Friaça também. “A emoção foi tão grande que só me lembro de uma pessoa que veio me abraçar: César de Alencar, o locutor. Quando a bola estava lá dentro, ele gritou: “Friaça, você fez o gol!”. Naquela confusão, ele entrou em campo e me abraçou. Nós dois caímos dentro da grande área”. <br />
Louco de alegria, Friaça só se lembra com clareza do rosto de César de Alencar. “Passei uns trinta minutos fora de mim.  Eu não acreditava que tinha feito o gol. Eu tinha potencial, mas estava ao lado de craques como Zizinho, Ademir e Jair. E logo eu é que fiz o gol”. Se o Brasil precisava apenas de um empate, então o jogo estava liquidado: a seleção ia ser campeã do mundo. “Ali, nós já éramos deuses”. </p>

<p>              Friaça só não poderia imaginar que outras cenas inacreditáveis iriam acontecer ali – além da queda com César de Alencar dentro da grande área, numa explosão de alegria. Consumada a tragédia brasileira, diante da maior platéia até hoje reunida para um jogo de futebol, a dor da derrota desnorteou o autor do gol do Brasil. </p>

<p>“O trauma foi enorme. Vim para o Vasco. Fiquei, em companhia de outros jogadores, andando de noite em volta do campo, ali na pista. O assunto era um só: como é que a gente foi perder com um gol daqueles  ?”. </p>

<p>                     Depois das voltas inúteis em torno do campo do Vasco na noite de domingo, Friaça pirou. “Só me lembro de que a gente subiu para o dormitório. Eram umas onze da noite. Troquei de roupa e me deitei. Não me lembro de nada do que aconteceu depois. Quando dei por mim, por incrível que pareça, eu estava em Teresópolis, no meu carro. Passei pela barreira, fui para um hotel. Quando me perguntaram: “Friaça, o que é que você quer?” Eu simplesmente não sabia onde estava. Só sabia que estava debaixo de uma jaqueira, no terreno do hotel. Não sei como é que saí com meu carro da concentração. Não sei como é que fui bater em Teresópolis. Um médico que era prefeito de Teresópolis é que me deu uma injeção. Comecei a saber onde é que estava uns dois dias depois. A a minha família,em Porciúncula,estava atrás de mim, sem saber onde é que eu estava. O pior é que eu também não sabia. De 64 quilos eu passei para 59”. </p>

<p>                 Quem tivesse a sorte de fazer gol pelo Brasil ganharia um terreno – era um dos prêmios aos futuros campeões do mundo. O artilheiro da finalíssima contra o Uruguai mereceria um prêmio extra – uma televisão, na época, um luxo para privilegiados. Quando finalmente descobriu em que país estava, depois do trauma da vitória do Uruguai, Friaça tentou receber o terreno e a televisão. </p>

<p>“A resposta que me deram foi: só se o Brasil tivesse vencido o jogo...”. </p>

<p><br />
       “Eu tinha confiança : a gente ganharia do Uruguai com facilidade.Cheguei a imaginar um placar de 2 ou 3 a 0 para o Brasil,pelo time que nós tínhamos e pelo time que o Uruguai tinha.A gente pode dizer que o Uruguai tinha um grande time,mas o Brasil era uma potência,uma força.O Brasil não pensava nem no empate.A gente não daria essa chance ao Uruguai.A verdade é que nós,os jogadores,estávamos  tranquilos.A gente sabia que,se o time  jogasse o que vinha jogando,dificilmente perderia.Se o tempo pudesse voltar,se o Brasil pudesse jogar dez vezes contra o Uruguai,ganharia nove.A seleção de cinquenta foi uma das maiores que o Brasil já teve. </p>

<p> </p>

<p>       A maior vingança que experimentei em  minha carreira esportiva aconteceu um ano depois de nossa derrota na final da Copa de 50.O Vasco da Gama foi ao Uruguai jogar contra o Penarol. Ganhamos do Penarol – que tinha onze jogadores de seleção – dentro do Estádio Centenário.Repetimos a dose em outro jogo,aqui no Brasil.</p>

<p><br />
      Em 1950,nós estávamos engatinhando. Não estávamos preparados para ter um impacto tão grande quanto o que sofremos.O nosso time tinha um potencial muito maior do que o  do time do Uruguai. O gol de empate do Uruguai,marcado por Schiaffino,teve um impacto grande sobre nosso time.Porque,até então,o jogo mais duro que  tivemos tinha sido contra a Iugoslávia.Vencemos por 2 a 1,um jogo duro.</p>

<p>          Diante dos outros,o Brasil jogava quase que a toque de música,como,depois,a seleção de 70.Era um time homogêneo.Quando o Uruguai fêz o gol de empate,sentimos um impacto.Há quem fale em Bigode.Mas fomos todos nós</p>

<p><br />
         Não houve falha na armação tática do time.Ainda ouço até hoje que Obdulio Varela deu um tapa em Bigode. Não deu.Eu estava lá ! Pude sentir todo o problema.Bigode –é verdade- tinha dado uma entrada violenta.Aliás,violenta,não : uma entrada dura.Houve o impacto do juiz.Neste momento,Obdulio entrou em cena para separar. Mas não houve nada.</p>

<p><br />
           O que aconteceu,no gol,adiante,é que Bigode foi batido numa jogada,porque Ghiggia era um jogador de alta velocidade. Se Bigode foi batido pela alta velocidade de Ghiggia,então teria de contar com a cobertura de outro jogador. Não posso ficar falando.Não é o caso de a gente crucificar A, B ou C.Mas não houve cobertura.Como não houve cobertura,veio aquele impacto. Schiaffino,no lance do primeiro gol do Uruguai,foi muito feliz,como Ghiggia.Basta ver que o próprio Ghiggia diz que pegou a bola mal no pé.Fêz o gol no contra-pé de Barbosa,o nosso goleiro.Pegou a bola quase que com o bico da chuteira.Resultado : a bola entrou entre a trave e a perna esquerda de Barbosa.</p>

<p>            O que eu acho é que não houve uma cobertura certa no lance, já que se sabia que Ghiggia era um jogador de grande velocidade. Tinha pouco domínio de bola,mas era veloz.</p>

<p>            Não acredito em falha técnica do treinador. Porque,desde o primeiro jogo,entramos da mesma maneira.Mas aconteceu o lance : Ghiggia recebia a bola e partia para cima de Bigode.Como era de  alta velocidade,Ghiggia dava um chute lá pra frente e partia.Então,a cobertura era essencial.         </p>

<p>           Não estou crucificando ninguém.Mas estou dizendo o que faria : punha um jogador fazendo a cobertura. </p>

<p>           Gravei bem o lance do meu gol contra o Uruguai,porque este é o tipo de coisa que a gente guarda.Eu tinha potência na perna direita,graças a Deus.Quando vi,Máspoli,o goleiro do Uruguai,tinha saído.Bati forte na entrada da área - do lado direito para o lado esquerdo.A bola entrou.O lance tinha nascido de uma combinação minha com Bauer.Assim : Bauer tocou para mim, eu toquei para o Zizinho – que tocou,na frente,para mim. Antes de entrar na área,bati na bola.Tive a felicidade de marcar !        </p>

<p>          Eu só tinha um pensamento : fiz o gol ! A única coisa que eu vi foi  César de Alencar me abraçando.Caímos dentro da área.Passei uns trinta minutos fora de mim.Eu não acreditava: nós tínhamos craques como Zizinho,Ademir e Jair.Mas eu é que tinha feito o gol ! Em toda a vida,eu sempre fui muito frio, nunca tive medo de ninguém : eu era igual a todos. É uma das das vantagens que eu tinha -e tenho até hoje.   <br />
 </p>

<p>             Quanto à recomendação que o nosso técnico fêz antes do jogo,é bom que se diga o seguinte : o que Flávio Costa não admitia a covardia,mas aceitava entradas firmes e duras,desde que fossem leais.Há uma diferença entre as duas coisas.Deslealdade é uma coisa,jogada dura é outra.<br />
          </p>

<p>           Se alguém pensou em tirar de campo um jogador como Obdulio Varela,foi bobagem.Porque Obdulio era um jogador vivo e manhoso : não ia cair numa dessas.Eu mesmo já passei por uma situação dessas. Gostava de jogo duro.Não cheguei a jogar quatro vezes no Vasco na mesma posição : ora era center-foward,ora ponta-esquerda,ora ponta-direita.ter four, ponta esquerda, ponta direita e gostava. Depois da Copa,joguei contra o  Uruguai,como center-foward.Matias Gonzalez me disse : “Vou te botar pra fora da área !”.Eu disse :  “Você me conhece ! Sou do estado do Rio ! Já joguei 4 vezes contra você.Vamos brigar até o fim do jogo.Você sabe que eu não corro do pau !”.</p>

<p>            Antes do jogo,aquele assédio atrapalhou o descanso dos jogadores.Como era ano de eleiçãO,teve jogador que foi levado para passear.A seleção,então,não teve sossego,tranqüilidade.É por razões que eu digo que a seleção estava engatinhando,em 1950,porque não tinha uma vivência.Um exemplo: passamos quarenta e cinco dias em Araxá,sem comunicação alguma com nossas famílias. Depois que Paulo Machado de Carvalho e o falecido Geraldo José de Almeida foram para é que começamos a Ter contato.Acontecia o seguinte : nossas famílias não recebiam as cartas que a gente escrevia.<br />
 </p>

<p>         Não culpo Flávio Costa de jeito nenhum, porque ele era sozinho.Era Flávio Costa e Vicente Feola para tomar conta de vinte e cinco jogadores. Depois,ficaram vinte e dois.Hoje,existe uma comissão técnica.Mas quem fazia treinamento era Flávio Costa – tudo ele.A equipe era o roupeiro,dois massagistas,dois médicos e Vicente Feola,para ajudar. <br />
 </p>

<p>          Eu me lembro de lances que poderiam ter mudado a história do jogo.Eu era um jogador que tinha noção dos passes,principalmente os de perna direita. Houve um lance em que fiz um passe certeiro,para Ademir entrar de cabeça.Eu,naquele estado de nervos,tinha certeza de que Ademir,com a facilidade que tinha para jogar,faria o gol.Mas Ademir praticamente devolveu a bola para mim. A bola voltou na mesma direção ! Por aí,dá para ver o estado em que os jogadores do Brasil se encontravam,naquele momento,a dez,quinze minutos do fim da partida.Naquela altura,era tudo na base do “valha-me Deus”,porque ninguém entendia nada.</p>

<p>           A gente tinha saído da concentração para o Maracanã  às onze e quarenta e cinco.Chegamos ao estádio em torno de uma hora da tarde.Quando chegamos ao vestiário,encontramos colchão para todo mundo se deitar no chão.</p>

<p>             Antes,quando a seleção estava concentrada no Joá,antes da mudança para São Januário,várias vezes tivemos de empurrar,em dia de treino,uma camionete enguiçada da Polícia Militar,uma daquelas que tinha a madeira pintada de amarelo e a lateria pintada de azul.</p>

<p><br />
           Durante a Copa,jogadores receberam camisa, corte de terno,relógios e  lustres.Da Sexta para o sábado e do sábado para o domingo,dentro do bar do Vasco da Gama,na concentração em São Januário,eu assinei autógrafos como “capeão do mundo”.Assinei !        </p>

<p>           Tinha até comerciante envolvido.Hoje,jogador de futebol não faz um negócio desse se não receber uma importância. Mas eu assinei bolas,faixas,fotos,todo tipo de coisa.Já nem sei onde assinei...Quem fizesse o primeiro gol receberia um terreno,perto do Leblon.Quem fizesse o primeiro gol do Brasil contra o Uruguai iria ganhar uma televisão,uma novidade,na época.Fiz o gol.Nunca vi esse prêmio.Não ganhei terreno.Corri atrás,mas não adiantou nada.Quem ia dar os prêmios disse que não podia,porque o Brasil tinha perdido a Copa.A televisão ia ser prêmio de uma loja chamada A Exposição. Meu cunhado foi à loja,para saber do prêmio.Disseram :  “Ah,não ! Só se o Brasil tivesse ganhado o jogo...”.</p>

<p>         Logo em seguida,comprei uma televisão. </p>

<p> <br />
          Durante a Copa,houve uma reunião entre os jogadores,para discutir a divisão de prêmios que eram oferecidos à seleção.Decidiu-se que ia se fazer um leilão dos objetos.Pelo seguinte : havia no grupo jogadores que não tinham condições físicas ou técnicas de jogar.Como não jogavam,corriam o risco de não receber prêmios.<br />
Então,combinou-se com nossa “diretoria”,formada por Augusto,Nílton Santos,Castilho e Noronha,o seguinte : tudo o que cada um recebesse seria leiloado.Houve,então,uma pequena desavença sobre como é que se ia dividir um lustre de cristal,oferecido por uma loja.Flávio Costa entrou na discussão para acalmar o pessoal.</p>

<p> <br />
   <br />
           Mas o pior,para mim,veio quando o jogo acabou.Vim para o Vasco. Ficamos eu,Bauer, Rui e o Noronha andando em volta do campo,na pista do do Vasco. : é a momento mais duro que tive em   minha vida.Dali,subimos para o dormitório.     <br />
   <br />
          O assunto era um só : como é que nós fomos perder com um gol daqueles  ? Ficou aquela  “conversa de bêbado”,sem fim nem começo.</p>

<p>          Só sei que subi para o dormitório ás onze horas.Não me lembro de mais nada,não sei de mais nada. Quando eu dei por mim,estava em Teresópolis ! Uma pessoa do hotel me  perguntava: “Friaça, o que é que você quer?” E eu nem sabia onde estava !.Só  sei que estava debaixo de uma jaqueira,num hotel...Fui sozinho para lá.Não como é que pedi ao porteiro para sair,não sei como é que cheguei a Teresópolis.De manhã,o porteiro do hotel foi chamar o prefeito de Teresópolis – que eu conhecia.Tomei injeção,passei uns dois dias com ele. Honestamente,não sei o que eu tomei,mas fiquei apagado. Depois é que me refiz,comecei a saber onde é que eu estava e o que é que tinha feito.A minha família estava me procurando no Rio e em São Paulo,porque não sabia onde é que eu estava.Mas eu mesmo também não sabia !  Depois de chegar finalmente a Porciúncula,terra da minha família,eu me comuniquei com o Rio e com São Paulo.Eu tinha 64 quilos.Passei para 59.</p>

<p><br />
        Devo ter ido para Teresópolis porque sempre que tinha uma folga gostava de ficar quieto lá.Nunca gostei de confusão.Eu queria era tranquilidade.</p>

<p>         O que vi no vestiário do Brasil,assim que acabou o jogo,foi só choro.Não se via outra coisa,a não ser gente se abraçando,chorando,lamentando.Os mais frios sofrem mais.Quem desabafa sente um alívio.quem não desabafa fica sofrendo.Nosso vestiário - desculpe a expressão – virou um cemitério.Era só gente se lastimando,como num velório. </p>

<p><br />
          Quando acabou tudo,eu pedia muito a Deus que eu jogasse outra vez contra o Uruguai.Terminei jogando – e ganhando,pelo Vasco : 3 a 1 em Montevidéu,2 a 0 aqui.</p>

<p> <br />
          Não adiantava querer sonhar.Eu queria ir à forra.O Vasco chegou debaixo de cavalaria,mas ganhou.</p>

<p>          Jogadores da seleção brasileira de 50   - que tinham condições de crescer na carreira -  só regrediram depois da Copa.Antes,éramos deuses.<br />
 </p>

<p>           Nós,os jogadores,sofremos em todos os cantos,porque para onde a gente ia,ouvia só duas palavras : Obdulio,Uruguai "</p>

<p> </strong></p>]]>
    </content>
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    <title>DOENTE, NO HOSPITAL, JÂNIO QUADROS FAZ AO NETO A REVELAÇÃO FINAL SOBRE A RENÚNCIA : UM DOCUMENTO PARA A HISTÓRIA</title>
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    <issued>2008-12-21T13:53:35-03:00</issued>
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    <summary type="text/plain">AQUI: http://www.geneton.com.br/archives/000308.html...</summary>
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      <![CDATA[<p>AQUI:</p>

<p><a href="http://www.geneton.com.br/archives/000308.html">http://www.geneton.com.br/archives/000308.html</a></p>]]>
      
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    <title>A PALAVRA FINAL SOBRE A RENÚNCIA :  DEITADO NUMA CAMA DE HOSPITAL, JÂNIO QUADROS REVELA OS MOTIVOS DO GESTO</title>
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    <modified>2008-12-21T17:09:53Z</modified>
    <issued>2008-12-21T13:31:34-03:00</issued>
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    <summary type="text/plain"> A mais sincera confissão já feita por Jânio Quadros sobre os reais motivos que o levaram a renunciar à Presidência da Republica no dia 25 de agosto de 1961 somente foi publicada em 1995,em escassas sete páginas de uma...</summary>
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    <dc:subject>Reportagens</dc:subject>
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      <![CDATA[<p>                                   <strong> A mais sincera confissão já feita por Jânio Quadros sobre os reais motivos que o levaram a renunciar à Presidência da Republica no dia 25 de agosto de 1961 somente foi publicada em 1995,em escassas sete páginas de uma calhamaço lancado por uma editora desconhecida de São Paulo em louvor ao ex-presidente</strong></p>]]>
      <![CDATA[<p>                                       <strong>Organizado por Jânio Quadros Neto e Eduardo Lobo Botelho Gualazzi,o livro ‘’Jânio Quadros : Memorial  à Historia do Brasil’’ é,na verdade,um bem nutrido album de recortes sobre o homem.  Grande parte das 340 páginas do livro,publicado pela Editora Rideel, é ocupada pela republicação de reportagens originalmente aparecidas em jornais e revistas sobre a figura esquisita de JQ. </p>

<p>                                                     A porção laudatória do livro é leitura recomendável apenas a janistas de carteirinha.  O ‘’Memorial’’  traz,no entanto,um capítulo importante : a confissão que Jânio, já doente,fez ao neto,num quarto do Hospital Israelita Albert Einstein,no dia 25 de agosto de 1991, no trigésimo aniversário da renúncia.</p>

<p>                                                     Jânio morreria no dia 16 de fevereiro de 1992, aos 75 anos de idade. O neto fez segredo sobre o que ouviu. Somente publicou as palavras do avô quatro anos depois. Ao contrário do que fazia diante dos jornalistas - a quem respondia com frases grandiloquentes mas pouco objetivas sobre a renúncia - Jânio Quadros disse ao neto, sem rodeios e sem meias palavras, que renunciou simplesmente porque tinha certeza de que o povo,os militares e os governadores o levariam de volta ao poder.  Nâo levaram. </p>

<p>                                                       Talvez porque já pressentisse o fim próximo,Jânio admite,diante do neto,pela primeira vez,que a renúncia foi ‘’o maior fracasso político da história republicana do Pais,o maior erro que cometi’’.<br />
                         <br />
                                                         A já vasta bibliografia sobre a renúncia ganhou, assim, um acréscimo fundamental, feito pelo proprio Jânio - a única pessoa que poderia explicar o enigma. Desta vez, a explicação parece clara. </p>

<p>                                                        Um detalhe inacreditável - que revela como as redações brasileiras são povoadas por uma incrível quantidade de burocratas que vivem assassinando o jornalismo :  a confissão final de Jânio mereceu destaque zero nas páginas da imprensa brasileira,o que é estranho, além de lamentável. </p>

<p>                                                         A imprensa - que passou três décadas perguntando a Jânio Quadros por que é que ele renunciou - resolve deixar passar em brancas nuvens a confissão final do ex-presidente sobre a renúncia, acontecimento fundamental na historia recente do Brasil.  </p>

<p>                                                         Tamanha desatenção parece ser um subproduto típico de uma doença facilmente detectável nas redações - a Síndrome da Frigidez Editorial .Joga-se noticia no lixo como quem se descarta de um copo de papel sujo de café .  Leigos na profissao podem estranhar, mas a verdade é que há notícias que precisam enfrentar uma corrida de obstáculos dentro das próprias redações, antes de merecerem a graça suprema de serem publicadas.!  Isto não tem absolutamente nada a ver com disponibilidade de espaço, mas com competência, faro jornalístico. </p>

<p>                                                         Se a última palavra do um presidente sobre um fato importantíssimo não merece uma linha sequer em jornais e revistas que passaram anos e anos falando sobre a renúncia, então há qualquer coisa de podre no Reino de Gutemberg.  Quem paga a conta, obviamente, é o leitor, a quem se sonegam informações.  </p>

<p>                                                          O caso da confissão de Jânio sobre a renúncia é exemplar : a informação fica restrita aos magros três mil exemplares do livro do neto. E os milhares,milhares e milhares de leitores de jornais e revistas,onde ficam ? A ver navios. É como dizia o velho Paulo Francis: "Nossa imprensa: previsível, empolada, chata. Como é chata, meu Deus!". </p>

<p>                                                   Eis trechos do diálogo entre o ex-presidente e o neto,no hospital.As palavras de Jânio não deixam margem de dúvidas sobre a renúncia :</p>

<p><br />
                                                  -‘’Quando assumi a presidência, eu não sabia da verdadeira situação político-econômica do País. A minha renúncia era para ter sido uma articulação : nunca imaginei que ela seria de fato aceita e executada. Renunciei à minha candidatura à presidencia, em 1960.  A renúncia não foi aceita. Voltei com mais fôlego e força. Meu ato de 25 de agosto de 1961 foi uma estratégia política que não deu certo, uma tentativa de governabilidade. Também foi o maior fracasso político da história republicana do país, o maior erro que cometi(...)Tudo foi muito bem planejado e organizado. Eu mandei João Goulart (N:vice-presidente) em missão oficial à China, no lugar mais longe possível. Assim,ele não estaria no Brasil para assumir ou fazer articulações políticas. Escrevi a carta da renúncia no dia 19 de agosto e entreguei ao ministro da Justica, Oscar Pedroso Horta,no dia 22. Eu acreditava que não haveria ninguém para assumir a presidência.  Pensei que os militares,os governadores e,principalmente,o povo nunca aceitariam a minha renúncia e exigiriam que eu ficasse no poder. Jango era,na época,semelhante a Lula :  completamente inaceitável para a elite. Achei que era impossével que ele assumisse, porque todos iriam implorar para que eu ficasse(...) Renunciei no dia do soldado porque quis senbilizar os militares e conseguir o apoio das Forças Armadas. Era para ter criado um certo clima político. Imaginei que,em primeiro lugar,o povo iria às ruas, seguido pelos militares. Os dois me chamariam de volta. Fiquei com a faixa presidencial até o dia 26. Achei que voltaria de Santos para Brasília na glória. Ao renunciar, pedi um voto de confianca à minha permanencia no poder.  Isso é feito frequentemente pelos primeiros-ministros na Inglaterra.Fui reprovado.O País pagou um preço muito alto. Deu tudo errado’’.   <br />
            <br />
                                                                                        <br />
                                                                                         </strong></p>]]>
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    <title>A VERDADE SOBRE COMO BRIZOLA SAIU DO BRASIL EM 1964: UM DEPOIMENTO COMPLETO DA ÚNICA TESTEMUNHA OCULAR DA CENA</title>
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    <modified>2008-12-10T17:43:59Z</modified>
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