"A MORTE É UMA PIADA.A VIDA É UMA TRAGÉDIA. MAS,DENTRO DE NÓS,MESMO NO MAIOR DESESPERO,HÁ UMA FORÇA QUE CLAMA POR COISAS MELHORES. OS ARTISTAS ESTÃO SEMPRE AÍ NOS LEMBRANDO DISSO.EXISTE UM PARAÍSO,POIS BEETHOVEN OU GAUGUIN JÁ NOS DERAM MOSTRAS CONVINCENTES.É INATINGÍVEL PERMANENTEMENTE,MAS DEVEMOS SER GRATOS PELAS SOBRAS QUE NOS COUBEREM"
"SOU UM CORRESPONDENTE ESTRANGEIRO,EM SÍNTESE,ESTOU SEMPRE NO ESTRANGEIRO E ME CORRESPONDO,SEM ESPERAR RESPOSTA.NÃO HÁ,TALVEZ RESPOSTA.SÓ HÁ PERGUNTAS, ATÉ QUE A ENERGIA E A LUZ SE APAGUEM,QUANDO,ENFIM,VOLTAMOS,COMPULSORIAMENTE,À TERRA DA QUAL NUNCA DEVERÍAMOS TER SAÍDO"
PAULO FRANCIS,EM "UMA COLETÂNEA DE SEUS MELHORES TEXTOS JÁ PUBLICADOS"
IVAN LESSA ESPERNEIA CONTRA DUAS MANIAS HORROROSAS DO BRASILEIRO : ENTRAR ASSOVIANDO NO ELEVADOR E FICAR PEGANDO UM NO OUTRO.O PESADELO : O SUJEITO QUE TODO DIA,AO SE ENCONTRAR COM VOCÊ, APERTA A MÃO NA CHEGADA E NA SAÍDA...
CHICO BUARQUE CONFESSA : "HÁ NO ATO DA CRIAÇÃO MOMENTOS EM QUE VOCÊ PARECE ILUMINADO. DE REPENTE,VEM UMA IDÉIA.É COMO SE O CORPO RECEBESSE UMA LUZ REPENTINA INEXPLICÁVEL"
CHICO BUARQUE CONFESSA : "HÁ NO ATO DA CRIAÇÃO MOMENTOS EM QUE VOCÊ PARECE ILUMINADO. DE REPENTE,VEM UMA IDÉIA.VOCÊ SE PERGUNTA : DE ONDE VEIO ? É COMO SE O CORPO RECEBESSE UMA LUZ REPENTINA INEXPLICÁVEL"
O PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA DIZ QUE VAI MORRER SEM ENCONTRAR A RESPOSTA PARA A PERGUNTA "SIMPLES" QUE O ATORMENTA
Um dos primeiros mandamentos do Manual de Boas Maneiras Jornalísticas diz que repórter que se preza não deve escrever na primeira pessoa. Por que não ? Peço licença aos Guardiões da Profissão para cometer um pequena confidência,na primeira pessoa do singular : sempre alimentei o desejo de entrevistar um Prêmio Nobel de Literatura.
Se eu vasculhasse minhas florestas interiores em busca de uma explicação razoável para esta pequena obsessão,certamente voltaria da expedição de mãos vazias. Não encontro nenhuma justificativa para o desejo de entrevistar um Nobel ,além da óbvia curiosidade jornalística. Quem sabe, o que me movia era a curiosidade de ouvir a palavra desse espécime raro : um intelectual milionário.Afinal,a conta bancária dos felizardos agraciados pelo Prêmio Nobel recebe uma injeção substancial – algo em torno de um milhão de dólares.Mas este é um motivo inconfessável, além de tolo : não há notícia de nenhum Nobel de Literatura que,depois embolsar a grana, tenha de repente se transformado num desses novos- ricos semi-analfabetos que povoam as páginas de revistas como a Caras com seus sorrisos de mil dentes,pele bronzeada pelo ócio da Côte D’Azur e prataria cuidadosamente exposta na sala de estar para as lentes dos fotógrafos. É gente que juraria de pés juntos que Ezra Pound é nome de creme de beleza. Para felicidade geral da Literatura,a Academia Sueca não provocou,até agora,nenhuma transmutação dessa espécie.
De qualquer maneira, lancei-me ao mar,em busca de um Nobel (milionário) que pudesse ditar belas sentenças ao meu velho e alquebrado gravador. Minhas duas primeiras tentativas,no entanto, resultaram em clamoroso fracasso. (os dois fracassos foram prontamente mantidos em sigilo,como faz todo repórter que se preza.Assim caminha a Humanidade).
Primeiro alvo de minha caçada : Saul Bellow,o canadense de ar entediado que conquistou uma vaga no primeiro time da literatura americana com livros como Herzog e O Legado de Humboldt . Uma voz afável – como convém a uma secretária encarregada de erguer muros de proteção entre uma celebridade e o resto do mortais – sugeriu que o pedido de entrevista fosse feito por escrito.Cumpri o pequeno ritual. Fiz a primeira tentativa através de uma carta enviada ao escritório que Bellow - Prêmio Nobel de Literatura de 1976 – mantinha num certo Commitee on Social Thought,na Universidade de Chicago. Além de incensado pela crítica ,Bellow volta e meia se mete em polêmicas com seus pares,o que soava como garantia de boas declarações. Mas Mister Bellow disse não.Deve ter descartado com um muxoxo o pedido de entrevista feito por um vago repórter de um país remoto chamado Brasil. Quem leu “Os Eleitos”, livro que Tom Wolfe,desafeto de Bellow,escreveu sobre os pioneiros da corrida espacial deve se lembrar da cena em que emissários da Nasa,como se fossem corvos bem-vestidos e delicados,batem na porta das viúvas de astronautas acidentados para dar a elas a notícia fatal.Os corvos sempre agiam em dupla.
Sem saber,o carteiro,emissário da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos,ECT,fez dupla com a secretária de Saul Bellow no papel de corvos encarregados de soterrar meu projeto de entrevista. Uma escreveu; o outro entregou. Uma disse : mata !.O outro : esfola ! .A secretária concebeu uma desculpa de poucas linhas (“O senhor Bellow me pediu que eu respondesse a carta que você lhe enviou. Infelizmente,ele não poderá conceder a entrevista que você solicitou. Eu espero que você entenda que as demandas feitas a ele são numerosas.Além de tudo,o senhor Bellow precisa de tempo para executar seus próprios trabalhos.Por favor,aceite as desculpas do senhor Bellow.Receba os melhores votos”).
Em outras palavras,a mensagem dizia,como o corvo de Edgar Alan Poe : entrevista com Mister Bellow? Never more,never more. Restou-me grunhir um “thank you,miss Janis Freedman”- é este o nome da megera.
O corvo voltaria a roçar a porta do minha casa,travestido de carteiro da ECT,com um envelope branco de bordas vermelhas nas mãos.Remetente : a secretária de outro Nobel de Literatura,o russo naturalizado americano Joseph Brodsky. O nome de Brodsky tinha despertado minha atenção desde que um resenhista entusiasmado escrevera
que os leitores poderiam fazer uma experiência : quem abrisse aleatoriamente o livro de ensaios “Menos De Um”,publicado por Brodsky nos anos oitenta, poderia ter a certeza de que aprenderia algo de útil,não importa a página escolhida. Mister Brodsky dispensou delicadamente a convocação que lhe fiz para que reverenciasse meu gravador Sony portátil. Uma vez,ele escreveu : “Em matéria de fracassos,a tentativa de recordar o passado equivale à pretensão de entender o sentido da existência.As duas coisas nos fazem sentir como um bebê que segura uma bola de basquete : ela escorrega constantemente das mãos”. Quem sabe, conceder a milésima entrevista sobre a infância passada na União Soviética poderia soar, aos ouvidos de Mister Brodsky, como um exercício inútil ,comparável ao esforço de um bebê para manter nas mãos a tal bola de basquete – elusiva ,escorregadia,”incapturável”,como o o passado. A assistente do Prêmio Nobel,a megera número dois,uma certa Ann Kjellberg,respondeu-me que o homem estava viajando,pelo exterior. Assim que fosse possível ,ela levaria a ele o pedido de entrevista. Mas um espesso silêncio desabou sobre a linha direta que,por um curtíssimo espaço de tempo,mantive com o escritório de Mr.Brodsky por carta e por telefone.
Demorou,mas fisguei um peixe da família dos Nobel,quem diria,na beira da piscina de um hotel de luxo. Acomodado no hotel pela editora,o português José Saramago tinha acabado de gravar uma entrevista no quarto para uma tevê educativa. Lá vem o homem. Traja um paletó protocolar. Trata os que o abordam com cortesia profissional. Quando fala,fica olhando para algum ponto misterioso na toalha da mesa. Não fita os olhos do interlocutor o tempo todo.
O espírito de porco que quiser irritar o Prêmio Nobel de Literatura (e comunista de carteirinha) José Saramago já sabe o que fazer : basta chamar o homem de "dinossauro político em vias de extinção" . Quando ouve a insinuação político-zoológica,o cordato Saramago imprime um tom incisivo à resposta. Diz que,um dia,no futuro,quem quiser entender o que se passou no mundo talvez tenha de revirar os ossos dos dinossauros políticos, assim como os arqueólogos reviram os ossos dos dinossauros de verdade,em busca de indícios que expliquem o que aconteceu no planeta.
Bela resposta. Minha tática de agente provocador funcionou : quando se sente confrontado,o dinossauro Saramago reage com um punhado de frases afiadas,o que não deve ser difícil para quem se notabilizou como exímio esgrimista das palavras.
Quando se dirigia para a mesa onde se faria a entrevista, o Prêmio Nobel de literatura passou cem por cento desapercebido pela piscina do hotel. De bermudas,o músico brasileiro Sérgio Mendes sorvia uma xícara de café expresso à beira da piscina. Alheio ao mundo exterior, nem nota quando Saramago passa.Os cabelos de Sérgio Mendes,excepcionalmente negros graças à eficiência de uma boa tintura,com certeza seriam mais capazes de chamar a atenção de um eventual observador de paisagens capilares do que os já escassos fios de Saramago - cem por cento grisalhos.Para alívio de Mendes,nenhum membro da Tribo dos Observadores Capilares,essa confraria excêntrica, trafegou naquele fim de tarde à beira da piscina.Mas eles existem.
Desde que o Prêmio Nobel o transformou em notícia no mundo todo, Saramago se tornou refém da própria fama - uma sensação nem sempre agradável para quem passou a vida se dedicando ao solitário ofício de escrever. Antes de começar a entrevista,confessa que de vez em quando gostaria de ficar invisível quando sai às ruas – um desejo que,lastimavelmente,os cientistas ainda não puderam atender.
Atenção,arqueólogos literários e políticos : é assim que um dinossauro fala.
1
GMN : Qual é o maior incômodo que um Prêmio Nobel enfrenta,além do fato de ser sempre importunado por jornalistas,como o senhor agora ?
Saramago : “Eu poderia responder que o outro maior incômodo é ser importunado por fotógrafos,por exemplo.Mas não.Incômodo não há nenhum.O que acontece é que se perde a invisibilidade depois que se ganha o Prêmio.É o pior.Evidentemente que é agradável ser reconhecido na rua e em qualquer parte,no aeroporto ou no restaurante.É agradável ver um leitor se aproximar para nos dizer uma palavra amável sobre o que leu.Em todo caso,não é que eu preferisse voltar ao anonimato,mas não há dúvida de que há momentos em que eu gostaria de me tornar invisível.Só não quero ser ingrato.Todos me tratam com tanto carinho e tanta atenção que qualquer palavra minha nesse sentido poderia parecer de algum modo uma ingratidão.Não é.Apenas que vez em quando sinto a necessidade de recolher-me à minha própria privacidade – que,enfim,já se perdeu”.
2
GMN : O senhor é até hoje filiado ao Partido Comunista Português.Não tem medo de ser visto como um animal político em vias de extinção ?
Saramago : “Há muitas coisas em vias de extinção que deveriam preocupá-lo mais : profissões que se acabam,culturas que desaparecem,línguas que perdem sentido porque já não têm ninguém que as fale,um planeta que estamos destruindo.Deixemos lá os dinossauros políticos.Porque acontece uma coisa curiosa : é preciso ter cuidado com a expressão “dinossauro político”. Pode chegar o momento em que,tal como acontece com os dinossauros autênticos,os estudiosos andem à procura dos ossos dos dinossauros políticos,para tentar reconstituí-los tal como eles teriam sido.Talvez um dia se venha a necessitar dos ossos dos dinossauros políticos que nós somos para que se entenda o que acontecia no mundo”.
3
GMN : O senhor tem uma visão essencialmente pessimista diante do mundo.O pessimismo é bom para a literatura ?
Saramago : “O pessimista não é bom nem mau para a literatura,mas não tenho uma visão pessimista do mundo.Ao contrário : o mundo é que está como está.Num momento como esse,pareceria,a mim,um pouco surpreendente que alguém se atrevesse a ser um otimista.Quem,diante do espetáculo oferecido pelo mundo em que vivemos,veja razões para ser otimista,é uma pessoa que ou não percebe aquilo que se passa ou então faz de conta que não entende.O melhor,então,é deixarmos de falar em otimistas e pessimistas.Os fatos são os fatos.Não há otimismo ou pessimismo que faça com o que um fato deixe de ser um fato.A interpretação do fato é que pode variar.Mas o fato continua lá.Penso que os fatos desse mundo,dessa vida,desse planeta,dessa sociedade humana,são fatos suficientemente sérios e graves.Temos de enfrentá-los não para divagar sobre o otimismo e o pessimismo com que poderíamos considerá-los mas para pelo menos compreendê-los e,se possível,tentar resolvê-los”
4
GMN : Mas há dois fatos que são aparentemente indiscutíveis no mundo de hoje.Primeiro : o fato “otimista” de que nunca tantas pessoas em todo o mundo viveram tão bem e tiveram acesso a tanta riqueza.O fato “pessimista” é que nunca foi tão grande a diferença entre pobres e ricos.Diante desse quadro,o senhor não tiraria nenhum motivo para enxergar o futuro com algum otimismo ?
Saramago : “Não.Se a parte negativa não existisse,então eu diria : uma vez que nunca houve tanta gente vivendo tão bem,pode-se presumir que,no futuro,haja ainda mais gente que vai viver igualmente bem.Mas,como você mesmo acaba de dizer,nunca foi tão grande a diferença entre os que têm e os que não têm.Tudo indica que a diferença vai ampliar-se.Não vem se reduzindo.
É evidente que há mais pessoas que estão vivendo bem.Mas também há mais pessoas vivendo mal.Como a população da terra vem se multiplicando, pode-se dizer que,se alguma parte vai se integrar à minoria que vive bem ou razoavelmente bem,muito mais gente vai se incorporar à parcela dos que vivem mal.Além de tudo,não se deve esquecer que há uma tendência para a pauperização das classes médias.Há uma parte mínima da classe média que ascende,passa para o outro grupo.Mas há uma parte da classe média que vai se aproximando cada vez mais da parte desfavorecida.Volto a dizer que não há pessimismo nem otimismo.Repito : os fatos são os fatos. Noto também que o problema já não é ter ou não ter.O problema – não menos importante – é saber ou não saber.É cada vez maior o número de pessoas que não sabem.Ou sabem mal aquilo que julgam saber.É cada vez menor o grupo de pessoas que detém todo o conhecimento – e de certa forma usa-o para levar o mundo para onde o mundo vai”.
5
GMN : Se o senhor fosse fazer hoje o papel do escrivão Pero Vaz Caminha,quinhentos anos depois,qual seria a primeira frase que escreveria sobre o Brasil ?
Saramago : “Depende do lugar onde eu desembarcasse.Se eu desembarcasse em Copacabana,quando se arrebentaram os esgotos nas praias no Rio de Janeiro,eu diria ao rei Dom Manuel que aqui não poderia viver ninguém,porque o lugar cheira mal.Imagine se,pelo contrário,eu desembarcasse numa praia limpa,coberta não de índias despidas,mas de lindas moças quase despidas. Eu diria que aqui é um sítio para viver,uma terra linda.Se,no entanto,eu começasse a encontrar as favelas,eu diria : “Mas o que é que se passa aqui ? Eu julgava que os índios viviam de outra maneira !”.
6
GMN : Usa-se no Brasil a expressão “comunista de carteirinha”. O senhor anda com a carteirinha do Partido Comunista Português ?
Saramago : “Não ando com ela.Tenho cartões e carteirinhas de várias e várias instituições com quem mantenho relações.Não ando com as carteirinhas de todos.Mas pago a minha cota ao PC”.
7
GMN : O dirigente comunista Álvaro Cunhal entregou ao senhor uma carta que não deveria ser aberta.Que segredo essa esse ?
Saramago :”Álvaro Cunhal na verdade escreveu uma carta que nunca li,porque a carta só me seria entregue se ele não tivesse sobrevivido a uma intervenção cirúrgica a que foi submetido na União Soviética.O que sei,pelo que me foi dito,é que ele escreveu algumas cartas que seriam entregues a vários destinatários se ele não tivesse sobrevivido.De qualquer forma,não é o Terceiro Segredo de Fátima : ele próprio me comunicou,depois,ter dito,na carta,que esperava que eu nunca saísse do Partido Comunista Português.Não saí.Não sairei.Em todo caso,a carta nunca me foi entregue”.
8
GMN : Independentemente do apelo que seria feito nessa carta,jamais passou por sua cabeça a idéia de largar o Partido Comunista ?
Saramago : “Não tenciono efetivamente –para usar a sua expressão – “largar” o Partido Comunista,a não ser que ele me largue .Quero dizer : se amanhã o Partido se transformar em outra coisa,como aconteceu com a maioria dos partidos comunistas europeus,posso não reconhecer o Partido a que aderi.Nesse caso,é possível que eu saia.Mas espero que não aconteça”.
9
GMN : O senhor já disse que o Brasil é um país de luzes e sombras.Aos olhos do mais famoso escritor português de hoje,qual é a grande luz e qual é a grande sombra que o Brasil projeta ?
Saramago : “Uma pergunta dessas não é fácil de responder.Países de luzes e sombras de uma maneira ou de outra todos o são.O que digo em relação ao Brasil é que o país poderia ser,por suas riquezas naturais e pelas características do seu povo, um país em que as luzes predominassem.Não digo que as sombras é que predominam.O que quero dizer é que as sombras poderiam ser menores e menos graves”.
10
GMN : O senhor ainda se sente “como uma Miss Universo”,com a agenda atolada de compromissos depois do Prêmio Nobel ?
Saramago :”Fiquei com a sensação de que
as agendas de uma Miss Universo e a de um escritor premiado eram bastante parecidas.Mas hoje posso dizer que não se parecem em nada.As obrigações e responsabilidades de uma Miss Universo duram um ano.
Haverá,então,outra Miss Universo,não só com a coroa na cabeça,mas também com o dever de fazer tudo aquilo que a predecessora fez.Mas,no meu caso – eu,que,não sei se feliz ou infelizmente, não pareço em nada com a Miss Universo - essas obrigações não cessaram pelo fato de em 1999 Gunter Grass ter ganho o Prêmio Nobel.
Diga-se que o Prêmio Nobel não impõe rigorosamente nenhuma obrigação. O sujeito chega lá,recebe o Prêmio e vai para casa.Depende da vontade do escritor o uso que ele fará do seu tempo – o emprego que fará de suas possibilidades de comunicação,se vai continuar a escrever,se vai ter contatos com os leitores.
Como o Prêmio Nobel foi atribuído a um escritor de língua portuguesa,é claro que minhas obrigações e responsabilidades se multiplicaram.Eu entendi que deveria assumi-las”.
11
GMN : Por que os escritores brasileiros são tão ausentes de Portugal e os escritores de Portugal tão ausentes do Brasil ?
Saramago : “Pode-se pensar,por exemplo,que leitores de um país não dêem atenção suficiente àquilo que se publica no outro. Pode-se pensar que os temas que tratam os escritores de um país não interessam aos leitores de outro.Mas também se pode pensar que não há um trabalho de fundo para aproximar os dois.É certo que os escritores portugueses vêm aqui.É certo que os escritores brasileiros vão a Portugal.Mas há algo que se passa que não sei explicar. Temos de pensar no seguinte : o leitor também tem suas razões para preferir ou não preferir.Quero crer,no entanto,que seria bom se houvesse um trabalho mais contínuo de ajuda à edição – evidentemente,é preciso ver até que ponto tal ajuda é economicamente viável.O que é lamentável é que seja assim.Eu sou uma exceção.Eu próprio me pergunto por quê.Não sou capaz de dar uma explicação.
Talvez o que se devesse fazer seria perguntar aos leitores : por que não os interessa a literatura portuguesa ? Por que não os interessa a literatura brasileira ? Como é que poderiam se interessar ? Por que os interessa um determinado autor – e não outro ? Fernando Pessoa é muito lido no Brasil.Cem anos depois,Eça de Queiroz também o é.Já Machado de Assis não é tão lido em Portugal como Eça de Queiroz é no Brasil. Faça-se um inquérito para que se chegue a alguma conclusão”.
12
GMN : O primeiro escritor brasileiro com quem o senhor teve contato deixou alguma influência em sua formação ?
Saramago : “Não posso jurar,porque foi há muitos e muitos anos.Mas o primeiro pode ter sido Raul Pompéia,com esse livro extraordinário que é “O Ateneu”. Você me pergunta se ficou alguma influência da leitura.Claro que não,porque eu era muito novo.Ainda não pegava essas coisas.O resto foi a aprendizagem.Uso essa palavra propositadamente,porque o que houve comigo foi a aprendizagem de uma literatura escrita em minha própria língua,mas criada e imaginada em outro lugar - o Brasil -,com tudo o que para mim representou a descoberta não só dessa literatura,mas também das realidades sociais e culturais que estavam por trás dos livros”.
13
GMN : Por que é que o Prêmio Nobel de Literatura não gosta de falar de literatura ?
Saramago : “...Mas eu nunca disse que não gosto de falar de literatura ! O que disse foi que cada vez menos me interessa falar no assunto.Não é que não goste.Se é meu trabalho,como é que eu não iria gostar ?
Quando se publica um livro,ou por qualquer outro motivo,ligado ou não ligado a mim,falo de literatura,evidentemente.O que acontece é que considero que os problemas do mundo não se esgotam na literatura.São tão graves e tão importantes que,se tenho a oportunidade,até quando trato de literatura trato de abordá-los.Isso não é dizer que não gosto de falar de literatura”.
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GMN : Uma crítica publicada numa revista brasileira sobre o livro “A Caverna” diz que “a literatura refinada de Saramago dessa vez dá lugar a um sermão”.O senhor acha que a denúncia das mazelas do mundo pode eventualmente comprometer a qualidade literária ?
Saramago : “Tenho que dizer que nunca comento qualquer crítica.É um princípio meu.Eu escrevo o que entendo.O crítico escreve o que entende.
Comentários meus sobre uma crítica ninguém encontrará,em toda a minha vida”.
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GMN : Uma velha pergunta : o senhor escreve para fugir da morte ?
Saramago : “Não,porque ninguém foge da morte.É uma ilusão.O que pode acontecer é pensarmos – e devo ter pensado – que se escreve porque não se quer morrer.Parte-se do princípio de que a obra vai ficar,não se sabe por quanto tempo.
Hoje não sou tão ambicioso.Eu me limito a dizer que escrevo para tentar compreender as coisas”.
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GMN : A que escritor brasileiro vivo ou morto o senhor concederia o Prêmio Nobel de Literatura ?
Saramago : “A um vivo e a dois mortos.Não me importaria nada dar a eles o Prêmio,se eu fosse membro da Academia Sueca.O vivo é Jorge Amado.Os que já não estão vivos são Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.Sem nenhuma dúvida,eu,membro da Academia Sueca,atribuiria o Prêmio a qualquer um dos três.Não foi assim que aconteceu”.
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GMN :O senhor escreveu,no livro “A Caverna”,que as frases de efeito são “uma praga maligna”.Qual é a sua frase de efeito predileta ?
Saramago :”Tento evitar,o mais que posso,as frases de efeito.Mas nem sempre consigo fugir à tentação de escrever uma.Só espero é que,se elas são só frases de efeito,as pessoas que as leiam ou as ouvem não as tomem demasiado a sério”.
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GMN : Se o senhor fosse definir o Brasil numa só palavra,que palavra o senhor usaria ?
Saramago : “Como é que se pode definir numa só palavra ? Se pudesse usar nem que fossem duas palavras,talvez eu conseguisse.Dê-me três palavras...”.
19
GMN : Quais seriam,então,as três palavras ?
Saramago : “Eu definiria assim o Brasil : “Quando se decidem ?”.
20
GMN : Quase aos oitenta anos,qual é a grande pergunta que o escritor José Saramago não conseguiu responder até hoje ?
Saramago : “A pergunta que não consigo responder é muito simples :para quê ? Para que tudo isso ? Vou morrer sem encontrar a resposta.Creio que ninguém nunca encontrou”.
(2001)
Se nomes próprios pudessem ser traduzidos , qual seria o significado de Vernon Walters ? Quem se opôs ao golpe militar de 1964 responderia de bate-pronto : Vernon Walters quer dizer o cafute, o cambito,o capeta, o coisa-ruim, o diacho, o esconjurado, o mequetrefe,o mofento,o tinhoso. Em uma palavra : o demônio.
O coronel que,durante a conspiração que derrubou João Goulart,desempenhava o papel de adido militar da embaixada dos Estados Unidos entrou irremediavelmente para a história do movimento militar de 1964 como símbolo de conspiração.
Procuro o general Vernon Walters para uma entrevista que seria gravada num cenário apropriado : um salão da Biblioteca do Exército,no prédio que já foi sede do Ministério da Guerra,no centro do Rio de Janeiro.
O general tinha feito uma viagem-relâmpago ao Brasil,para divulgar um livro autobiográfico(“Poderosos & Humildes”). Imagino que a figura lendária do esconjurado,o mofento,o cafute de 1964 vá se materializar em minha frente com o peito ornamentado de condecorações de todo tipo. Afinal, é assim que ele aparece,impávido,na capa do livro.
Surpresa : o homem desembarca na porta de entrada do prédio numa cadeira de rodas, embalada por um sobrinho. Problemas na articulação dos joelhos tinham nocauteado os movimentos do militar que um dia fez carreira nos campos de batalha : Walters lutou na Europa durante a Segunda Grande Guerra e esteve no Vietnam,na década de sessenta.
Os trajes civis do mequetrefe são discretos : a farda deu lugar a um paletó marrom,uma camisa amarela,uma gravata estampada. Poliglota que falava francês,espanhol,italiano,alemão,holandês e russo, Walters fazia questão de conduzir a conversa em português.
O forasteiro que tentasse arrancar de Walters segredos sobre os bastidores do movimento que tirou o presidente João Goulart do poder era brindado com uma frase de efeito. O cafute trazia no bolso do colete uma frase de efeito : dizia que um “coronel americano inexperiente em golpes de estado” (como ele se auto-intitulava) não teria grandes lições a dar a generais brasileiros razoavelmente habituados a derrubar presidentes.
Insisto. Walters abre um flanco . Mas é parcimonioso na hora de ceder a pressões de bisbilhoteiros profissionais. Tira uma cena do fundo do baú da memória : reconhece que meteu o bedelho em “assuntos internos” brasileiros durante um almoço com um militar , nos dias que se seguiram à quartelada de 1964. O militar – que, na lembrança de Walters, era Emílio Garrastazu Médici - deu-lhe uma notícia quentíssima : o ex-presidente Juscelino Kubitscheck iria ser cassado. Walters contra-argumentou : a repercussão da cassação seria desastrosa no exterior,porque,fora do Brasil,”Juscelino é a imagem de Brasília”. Mas a cassação,disse-lhe o militar de alta patente,estava “assinada”. Era irreversível. Lá estava o adido militar da embaixada americana exercendo plenamente a função extra-oficial de palpiteiro. Deve ter cumprido o papel em outras situações – que preferiu manter em segredo. Não se deve esquecer que Walters passou a vida manuseando segredos : chegou a ocupar,por anos a fio,o posto de vice-diretor-geral da CIA,depois de deixar o Brasil. Depois de ouvir o vozeirão do general descrever a história da cassação de JK, São Gutemberg,o Santo Protetor dos Repórteres,sopra no meu ouvido : “A história é boa,mas este general deve estar escondendo o jogo. Seja insistente. A insistência é a alma do negócio. Segredo só é a alma do negócio para empresários e generais. Para um repórter,a alma do negócio é outra . Avante, soldado desarmado !”.
Vou colhendo pequenas vitórias no campo de batalha verbal. O cafute faria outra concessão à minha insistência : diria que manteve segredo durante décadas sobre uma impressão que guardou do presidente João Goulart depois de uma audiência,no Rio de Janeiro,em companhia do então embaixador americano,Lincoln Gordon. Os dois – adido e embaixador – relataram ao presidente a gravidade da crise dos mísseis cubanos : fotos aéreas comprovavam que a União Soviética poderia usar Cuba
como base de lançamentos de mísseis contra os Estados Unidos. Goulart fez com a mão um gesto que Walters interpretou como uma indicação de apoio a uma rápida ação americana contra a ameaça soviética. Que ação seria esta ?
Walters diz que,no carro,na viagem de volta à embaixada,imaginou que o gesto de Goulart poderia ser traduzido como “bomba atômica”.
Fica o registro : informações importantes – sobre até onde iria o apoio de um presidente brasileiro a uma eventual reação americana contra a instalação de mísseis soviéticos em solo cubano – nem sempre são cristalinas,indiscutíveis,pétreas. Podem depender da interpretação de um simples gesto com a mão. Política pode ser mímica. Assim caminha a humanidade.
O general de pijama – ou de terno – reconhece que os Estados Unidos iriam, sim, fazer “alguma coisa” se a crise de 1964 descambasse para uma situação de guerra civil no Brasil. Bastaria que os soviéticos tentassem, por exemplo,”abastecer um dos lados em luta”.
Como não estava aqui em 1964 para ir passear no Maracanã, Walters tratou de reunir informações sobre a crise política brasileira. Diz-me que tinha “quase certeza” de que o movimento militar seria deflagrado no dia 31 de março de 1964. A suspeita era tanta que ele aconselhou o embaixador americano a cancelar de última hora uma viagem ao Recife para inauguração de casas populares construídas com dinheiro americano . Assim foi feito : o embaixador desistiu da viagem ao Recife. Goulart terminaria partindo para o exílio em Montevidéu, derrubado pelos militares.
Walters faria reminiscências pessoais sobre o amigo Castelo Branco. Os dois se conheceram nos campos de batalha na Itália,na Segunda Guerra. O primeiro militar a ocupar o poder depois do golpe de 64 chamou Walters para um almoço – a dois - no dia em que assumiu a Presidência da República. A deferência dá uma idéia da proximidade entre os dois. Quando Castelo deixou o governo, chamou Walters para um jantar. O adido faz uma pequena confissão : diz que ouviu Castelo Branco dizer que um dos problemas do Brasil eram os Presidentes que,depois de aboletados no Poder,relutam em entregar o cargo. O primeiro presidente da linhagem militar cumpriu o que disse : passou adiante o Poder – obviamente, a outro militar,o general Costa e Silva. O povo, como se sabe, não era chamado a opinar.
Quando estava na Guerra do Vietnam, Walters soube da morte de Castelo Branco,num acidente de avião. Não teve dúvida : ordenou ao capelão que rezasse uma missa pelo brasileiro,numa base militar, em meio ao conflito no sudeste asiático.
Termina a entrevista. O general desliza a bordo de uma cadeira de rodas pelos corredores da antiga sede do Ministério da Guerra. Cumpriu o ritual a que se habituara há décadas : concedeu a um repórter migalhas das toneladas de informações que armazenou numa memória freqüentemente citada como “prodigiosa”.
O sobrinho de Walters precisa da ajuda de dois soldados para tirar o homenzarrão da cadeira de rodas para o banco traseiro de um carro. O militar que povoa a galeria de personagens de 1964 como a face oculta do “imperialismo americano” despede-se com um aceno. Já escureceu no Rio.
A batalha verbal deixa pequenas escoriações no repórter – que, como sempre, sai de cena certo de que não conseguiu tudo o que queria. Recolho as armas : o gravador,a máquina fotográfica, o bloco de anotações. Bato em retirada. A fortaleza do general permanece tecnicamente intacta.
Dez dias depois, na segunda semana de fevereiro de 2002, o cafute, o cambito,o capeta,o coisa-ruim,o diacho,o esconjurado,o mequetrefe,o mofento,o tinhoso do imaginário de 1964 estava morto, num quarto do Good Samaritan Medical Center, em West Palm Beach, Flórida.
Tinha 85 anos de idade, quase dois metros de altura.
E uma montanha de segredos.
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(2004)
"O GATILHO CEDEU,TOQUEI O VENTRE POLIDO DA CORONHA E FOI AÍ,NO BARULHO,AO MESMO TEMPO SECO E ENSURDECEDOR,QUE TUDO COMEÇOU.SACUDI O SUOR E O SOL. COMPRENDI QUE DESTRUÍRA O EQUILÍBRIO DO DIA,O SILÊNCIO EXCEPCIONAL DE UMA PRAIA ONDE HAVIA SIDO FELIZ.ENTÃO,ATIREI QUATRO VEZES AINDA NUM CORPO INERTE,EM QUE AS BALAS SE ENTERRAVAM SEM QUE SE DESSE POR ISSO.E ERA COMO SE DESSE QUATRO BATIDAS SECAS NA PORTA DA DESGRAÇA"
"COMPRENDI,ENTÃO,QUE UM HOMEM QUE HOUVESSE VIVIDO UM ÚNICO DIA PODERIA SEM DIFICULDADE PASSAR CEM ANOS NUMA PRISÃO. TERIA RECORDAÇÕES SUFICIENTES PARA NÃO SE ENTEDIAR".
"TAMBÉM EU ME SINTO PRONTO A REVIVER TUDO.COMO SE ESTA GRANDE CÓLERA ME TIVESSE PURIFICADO DO MAL,ESVAZIADO DE ESPERANÇA,DIANTE DESTA NOITE CARREGADA DE SINAIS E DE ESTRELAS,EU ME ABRIA PELA PRIMEIRA VEZ À TERNA INDIFERENÇA DO MUNDO. POR SENTI-LO TÃO PARECIDO COMIGO,TÃO FRATERNAL,ENFIM,SENTI QUE FORA FELIZ E AINDA O ERA. PARA QUE TUDO SE CONSUMASSE, PARA QUE EU ME SENTISSE MENOS SÓ,FALTAVA-ME DESEJAR QUE HOUVESSE MUITOS ESPECTADORES NO DIA DA MINHA EXECUÇÃO - E QUE ME RECEBESSEM COM GRITOS DE ÓDIO".
(ALBERT CAMUS,"O ESTRANGEIRO")
PAREM AS MÁQUINAS ! O RECLUSO,O TÍMIDO PROFISSIONAL,O DISCRETÍSSIMO,O SILENCIOSO CHICO BUARQUE DE HOLLANDA FALA !
CHICO BUARQUE,O EX-"MOTORISTA" DE GARRINCHA,CRIA UMA TESE PARA EXPLICAR POR QUE JÁ NÃO COMPÕE TANTO :
"TALVEZ A MÚSICA POPULAR SEJA UMA ARTE DE JUVENTUDE"
“(....)O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
num fundo de armário,
na posta-restante,
Milênios,milênios
No ar
E quem sabe então
o Rio será
alguma cidade submersa.
Os escafandristas virão
explorar sua casa,
seu quarto,suas coisas,
sua alma,desvãos
Sábios em vão
tentarão decifrar
o eco de antigas palavras,
fragmentos de cartas,poemas,
mentiras,retratos,
vestígios de antiga civilização”
( “Futuros Amantes”)
Somente um poeta inspiradíssimo escreveria versos assim. Mas o autor desses versos não se considera poeta.Nem inspiradíssimo.O que dizer desses versos :
“Mesmo que você fuja de mim
por labirintos e alçapões
saiba que os poetas,como os cegos,
podem ver na escuridão.
E eis que menos sábios do que antes
os seus lábios ofegantes
hão de se entregar assim :
-Me leve até o fim
-Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos
como o nosso
são bonitas,
não importa,
são bonitas as canções.
Mesmo sendo errados os amantes
seus amores serão bons”
(“Choro Bandido”)
Não,não adianta.O compositor de música popular Chico Buarque de Holanda não se declarará Poeta. Mas até as pedras do calçadão do Leblon – por onde ele transita de vez em quando em passo apressado para se livrar dos chatos e queimar calorias - sabem que os versos de Chico Buarque não se enquadram na mera definição de “letras de música”. As rimas que o poeta Chico Buarque engendra há uns bons trinta e cinco anos (!) teriam vida própria se,desgarrados da música,pousassem nas páginas do livro que ele,provavelmente , jamais lançará. Para todos os efeitos , o livro já foi escrito (é só reunir o caminhão de rimas inesperadas,achados brilhantes,metáforas belíssimas que ele foi armazendo pelo caminho). Mas permanecerá inédito, em forma de páginas soltas nas faixas dos discos. O próprio Chico Buarque se encarregou de esclarecer, no site que mantém na Internet (chicobuarque.com.br) : “Nunca publiquei nem creio que venha a publicar um livro de poemas.Não escrevo poemas”.
Assim caminha a humanidade.
A fábrica de versos de Chico Buarque pode ter, com o tempo,reduzido o volume de produção. O dono da fábrica é o primeiro a reconhecer essa evidência estatística. Mas a qualidade dos versos se manteve intacta. Basta pegar um ou outro exemplo recente. Em “ Xote da Navegação”,letra que escreveu sobre música de Dominguinhos , Chico Buarque devaneia como se fosse o passageiro de uma barcaça que vai passando por vilarejos na beira de algum rio brasileiro. Aos olhos de quem viaja na barcaça, a paisagem é que se move :
“(...) Para quem anda na barcaça
tudo, tudo passa
Só o tempo não.
Passam paisagens furta-cor
Passa e repassa o mesmo cais
Num mesmo instante eu vejo a flor
que desabrocha e se desfaz
Essa é a tua música
é tua respiração
mas eu tenho só teu lenço
em minha mão
Olhando meu navio
o impaciente capataz
grita da ribanceira
que navega para trás.
No convés,eu vou sombrio
cabeleira de rapaz
Pela água do rio
Que é sem fim
E é nunca mais”
O primeiro sinal de vida de Chico Buarque em 2001 veio nas letras que escreveu para as músicas de Edu Lobo em “Cambaio”,musical de João e Adriana Falcão. Os tietes podem respirar aliviados : o Padrão CBH de Qualidade brilhou de novo. Um trecho de “Canção Que Existe”, pérola da nova safra :
“Deve haver algum lugar
um confuso casarão
onde os sonhos serão reais
e a vida não.
Por ali reinaria meu bem
com seus risos,seus ais,sua tez
E uma cama onde à noite
sonhasse comigo
talvez
Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
onde os sonhos extraviados
vão parar
entre escadas que fogem dos pés
e relógios que rodam para trás.
Se eu pudesse encontrar meu amor
não voltava
jamais”.
Quem tentar extrair do entrevistado Chico Buarque de Holanda circunvoluções teóricas sobre a Música Popular Brasileira ou sobre a Poesia ou sobre a Política certamente voltará para casa de mãos abanando. Porque Chico Buarque, tímido profissional, usará a timidez como escudo para escapar pela tangente. O homem não é dado a digressões – nem um pouco. Diante de jornalistas em geral, Chico é um caso clássico de Síndrome do Silêncio Compulsivo : em situações normais,prefere se calar. Só fala – provavelmente incomodado – quando enfrenta a rodada de entrevistas programadas pela gravadora para badalar um novo lançamento. Fora daí, o assessor de imprensa de Chico Buarque, Mário Canivello , trabalha dobrado para ir se livrando dos incontáveis pedidos de entrevistas. Estrela de primeira grandeza, Chico Buarque pertence à constelação de personalidades que despertam atenção em qualquer época, sob qualquer circunstância – não apenas quando lança um disco. Ninguém precisa ser psicólogo profissional para constatar que Chico Buarque dispensaria de bom grado essa honraria.
A palavra unanimidade já foi escrita inúmeras vezes ao lado do nome de Chico Buarque de Holanda. Mas um crítico cri-cri poderia,se quisesse,repetir em relação a Chico Buarque o que o poeta e crítico Mário Faustino disse de Carlos Drummond de Andrade : a presença de Chico Buarque de Holanda na vida brasileira – assim como a de Carlos Drummond – seria ainda maior se ele usasse o enorme prestígio de que é dono para intervir com maior frequência no debate cultural.
-“A poesia de Carlos Drummond – disse Faustino,em célebre artigo publicado no suplemento literário do Jornal do Brasil -é documento crítico de um país e de uma época (no futuro,quem quiser conhecer o geist brasileiro,pelo menos entre 1930 e 1945,terá de recorrer muito mais a Drummond do que a certos historiadores,sociólogos,antropólogos e “filósofos” nossos...) e um documento humano “apologético do Homem”. Não parece restar dúvida de que Carlos Drummond de Andrade é um dos nossos raros masters,ao lado de Camões,Fernando Pessoa,Jorge de Lima.Já apontamos aquilo que consideramos o seu grande pecado de omissão : o não se ter nunca realmente interessado(e hoje em dia ainda menos) pelo desenvolvimento da poesia brasileira como forma de cultura.O não propagar.O não ensinar,por um de tantos meios.O não lutar abertamente contra os inimigos de nossa poesia : a facilidade,as falsas glórias,a caótica escala de valores”.
Diante de tal cobrança – se um dia lhe fosse feita -, o master Chico Buarque poderia responder que já disse em suas músicas tudo o que tinha a dizer - assim como Drummond fez em seus poemas e crônicas. Quem discordar que atire a primeira pedra.
Fora dos palcos e estúdios, tenta levar uma vida que nem de longe lembra a de uma estrela. Observadores sortudos podem flagrar o Poeta empenhado em fazer caminhadas solitárias pelo calçadão da praia do Leblon – cenário que escolheu para manter a forma desde que se mudou do Jardim Botânico. Volta e meia é personagem de uma cena tipicamente carioca,como esta,testemunhada pelo locutor-que-vos-fala : Chico Buarque chega sozinho para almoçar em um self-service do Jardim Botânico, o Fazendola. Como qualquer mortal, enfrenta a fila do caixa com a bandeja na mão. Depois, flana pelo salão em busca de uma mesa vazia. As testemunhas da cena cumprem com louvor o papel que lhes cabe : todo mundo faz de conta que Chico Buarque não é Chico Buarque.Deve ser um sósia. Assim,a estrela pode almoçar em paz,sem ser importunado por estranhos. Em outro território, certamente a presença de Chico provocaria compreensível alvoroço. Não aqui. A aparente indiferença faz parte do Código de Conduta da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Quando já se dirigia ao portão de saída do self-service , Chico Buarque foi abordado pela primeira vez desde que chegou para o almoço. Quatro moças pedem autógrafo. O pedido é atendido em guardanapos.
Se um dia resolvesse escrever um livro de memórias – remota possibilidade que ele,no entanto, não descarta inteiramente – Chico Buarque teria assunto para encher mil páginas. Se quisesse,reuniria cenas incontáveis da convivência com gente que,como ele,virou mito. O que dizer da amizade com Garrincha no exílio,na Itália ? Chico serviu de motorista de luxo para o gênio das pernas tortas.Enquanto circulavam, Garrincha ia confessando uma surpreendente admiração por João Gilberto.
Nesta entrevista, Chico revisita cenas marcantes como estas –em companhia de Garrincha. Fala da primeira e única vez em que viu o então ditador Emílio Garrastazu Médici. Desmente um mito : o de que teria escrito os versos “você não gosta de mim,mas sua filha gosta” pensando no general Ernesto Geisel. Diz qual é a música de outro compositor que lhe desperta um sentimento parecido com a inveja.
Repórter que se preza deve evitar manifestações de tietagem explícita. Não faz bem à profissão. É recomendável que se mantenha um mínimo de “distanciamento crítico” em relação ao entrevistado. Caso contrário, a entrevista corre o sério risco de se transformar numa dessas conversas televisivas em que entrevistador e entrevistado parecem duas comadres plantando abobrinhas – um prova insuportável para a paciência dos senhores espectadores. Devo confessar, no entanto, que cometi um pequeno pecado : terminada a entrevista em que Chico,receptivo e simpático,disfarçou com extrema habilidade o incômodo de encarar um repórter, pedi ao Poeta um autógrafo numa foto que descobri,empoeirada,em meus Arquivos Implacáveis. Tirada no já remotíssimo ano de 1972, no camarim do Teatro Santa Isabel, no Recife,a foto mostra o locutor-que-vos-fala em início de carreira,aos 16 anos de idade,importunando Chico Buarque com um pedido de entrevista – felizmente atendido. Lá se vão (quase) vinte e nove anos. O autor da foto – acredite quem quiser – foi um soldado da polícia chamado Chateaubriand – que, nas horas vagas, saía do quartel para dar expediente como free-lancer no Departamento Fotográfico do Diário de Pernambuco. Dois detalhes inesquecíveis.Primeiro : Chateaubriand se locomovia numa velha lambreta que exibia, nas laterais,um adesivo com a palavra “reportagem” - sinal de que exigia respeito onde quer que chegasse. Segundo : ia trabalhar fardado de soldado. Deve ter causado estranheza a figura de um soldado com uma máquina fotográfica nas mãos nos camarins do Teatro Santa Isabel na noite do show de Chico Buarque – uma figura detestada pelo regime militar. Em todo caso, cumprimos a missão a contento. Voltei à redação do Diário com um punhado de frases,ditas por um Chico que curava o nervosismo antes de entrar no palco com goles de uma bebida que não levava gelo. Devia ser uísque. Chateaubriand fotografou o astro. Ao ver a foto, tanto tempo depois, Chico Buarque diz, assustado : “....Mas é você ? !!!”.
Desgraçadamente, era. O autógrafo sobre o flagrante diz : “Para o jovem Geneton, um abraço do jovem Chico Buarque”.
O Poeta que prefere não falar vai responder, a partir de agora, a quarenta perguntas. São lembranças inéditas - um capítulo do livro de memórias que,possivelmente,jamais será escrito.
Gravando !
GMN : Que música de outro compositor você daria tudo para ter feito ?
Chico Buarque : “Eu não daria tudo para ter feito música nenhuma de outro compositor.Mas existem músicas que amo.Gosto mais do que as minhas.Eu não gostaria de ter feito uma música alheia.É uma coisa que não me ocorre.Porque o maior prazer da música está exatamente no momento em que você a cria. Nunca mais vai ser a mesma coisa.Quando você ou repete nos shows, não vive a mesma sensação. Ignoro qual terá sido esse prazer em outro autor. Prefiro,então,sentir o prazer que sinto a cada composição minha,por menor que seja”.
GMN : Você poderia,então,citar uma música de outro autor que você inveja ?
Chico Buarque : “Um milhão de músicas.Não tenho uma preferida,mas agora que você falou,me bateu uma na lembrança : “Águas de Março” – de Tom Jobim. É uma música que eu não diria que gostaria de ter feito,porque é impossível que eu fizesse uma música dessa.É outra cabeça.Mas é uma música da qual eu adoraria conhecer o prazer e o mecanismo da criação,assim como músicas de Noel Rosa,Cartola,Caetano Veloso,Gilberto Gil,Milton Nascimento. Recorro a um recurso : tenho parceiros que admiro muitíssimo – inclusive o próprio Tom.Ao me fazer parceiro,eu crio a música com eles.Ao fazer a letra para uma música alheia,eu estou me apropriando um pouco dessa música - que não é minha”.
GMN : Depois de fazer “Paratodos”,você passou anos sem lançar um disco com músicas inéditas.Disco de Chico Buarque agora é feito Copa do Mundo – só de quatro em quatro anos ?
Chico Buarque : “Pior ! Agora é de cinco em cinco. Os lançamentos vão se espaçando.O trabalho vai ficando mais difícil mas também mais prazeroso.Quando termina,você se sente cansado,mas satisfeito.As músicas saem,talvez,com menos espontaneidade,com mais intensidade” .
GMN : A que você atribui o espaçamento cada vez maior entre um disco e outro ?
Chico Buarque : “Talvez a música popular seja uma arte de juventude.Imagino que seja,porque o consumidor de música popular é,sobretudo,o adolescente,o jovem de vinte a trinta anos.Depois,começa a diminuir. Já o autor de música popular tende a ser mais seletivo com o tempo. Faz uma coisa ou outra,mas não com a exuberância que tinha aos vinte anos de idade. Quando você tem vinte anos,você tem um baú de música inéditas. Depois,as músicas vão escasseando.Você fica mais exigente.Chega,então,um tempo em que a gente começa a fazer música popular com o resto de juventude que se tem.Depois,o melhor a fazer talvez seja imitar Dorival Caymmi – que se recolheu aos seus pincéis e suas tintas.Talvez seja melhor procurar outro afazer,outra ocupação”.
GMN : Não é o que você vem fazendo nos últimos anos,com a dedicação cada vez maior à literatura ?
Chico Buarque : “A literatura é uma alternativa. Talvez eu tenha me inspirado em Caymmi ao pensar nisso : ter um recurso para continuar criando sem depender da juventude - que é o motor da música popular”.
GMN : Você diz que o futebol tem momentos de improviso e genialidade que nenhum artista consegue repetir.Mas em alguma de duas músicas você teve o sentimento de improviso que você só encontra no futebol ?
Chico Buarque : “É possível encontrar algo semelhante ao futebol no jazz,na música instrumental.Alguma coisa pode acontecer enquanto você toca. Mas não sou improvisador.De qualquer forma,há no ato da criação momentos em que você parece iluminado. São jogadas que acontecem sem que você tenha pressentido. De repente,vem uma idéia. Você se pergunta : de onde veio ? É o que acontece com o futebol : é como se o corpo recebesse uma luz repentina inexplicável”.
GMN : Que música ou que verso despertou em você,na hora em que estava compondo, a emoção que você sente diante de um drible ?
Chico Buarque : “Você vai trabalhando,trabalhando,trabalhando em cada música,até que há um “clique” : aparece um verso ou algo na melodia que faz você pensar “isso é novo”, “não fui eu que fiz” .É como se fosse algo que viesse de fora”.
GMN : Quando estava exilado na Itália,você teve contato com Garrincha.É uma página pouco conhecida da biografia de Chico Buarque. Vocês conversaram sobre futebol ou sobre música ?
Chico Buarque : “É óbvio que eu falava sobre futebol – e ele falava de música....Acontece também com Pelé – que adora música.Mas Garrincha era muito musical.Tive um contato maior com ele em Roma.A gente acaba mesmo falando mais de música do que de futebol.Garrincha conhecia música muito mais do que eu imaginava antes.Gostava de João Gilberto.Eu imaginava que Garrincha gostasse de uma música mais simplória,mais ingênua,talvez.Mas não ! Garrincha gostava da sofisticação de um João Gilberto”.
GMN :Que tipo de comentário ele fazia sobre João Gilberto ?
Chico Buarque : “Garrincha comentava gravações,se referia a detalhes,lembrava de como João Gilberto cantava uma determinada música. Para me mostrar,Garrincha cantarolava – não muito bem – mas mostrava que tinha a lembrança das músicas de João Gilberto.Referia-se à maneira como João Gilberto cantava as músicas. João é um inventor.Não é um compositor.Talvez seja mais do que compositor,porque inventa a partir de uma música alheia.E Garrincha falava exatamente disso : a maneira como João Gilberto cantava -talvez uma cantiga mais conhecida que ele tivesse reinterpretado,como “Os Pés das Cruz”. Garrincha salientava a maneira como João Gilberto reiventava um samba”.
GMN : É verdade que você dirigia automóvel para Garrincha na Itália ?
Chico Buarque : “Eu era o chofer de Garrincha. Ele jogava umas peladas – algumas remuneradas – na periferia de Roma.Ganhava um cachê. Eu é que levava Garrincha, no meu Fiat.Era impressionante.As pessoas paravam na rua.Garrincha era muito popular.Isso aconteceu entre 1969 e 1970.Garrincha já tinha parado de jogar há algum tempo.Oito anos já tinham se passado desde a Copa de 1962.Mas ele ainda era muito conhecido na Itália”.
GMN : “Se você pudesse escolher entre ser um grande nome da Música Popular Brasileira e um grande craque da seleção, qual das duas profissões você escolheria ?
Chico Buarque : “Nunca escolhi sem músico. Quando eu pude – e quis escolher – aos quatorze,quinze anos de idade,eu quis ser jogador de futebol mesmo. Eu achava que poderia ser um bom jogador. Era uma ilusão.Mas eu tinha essa ilusão,na época,com bastante segurança.Tornei-me músico um pouco por acaso.
Devo dizer que o sonho de ser um craque
permaneceu na minha cabeça.Ainda hoje acredito que seja”.
GMN : Você chegou a tentar ser um jogador de futebol profissional ?
Chico Buarque : “Eu,que jogava tanto,um dia fui ao Juventus,na rua Javari,em São Paulo,para fazer um teste.Mas eram milhões de candidatos fazendo o teste....Comecei a perceber que ia não dar para mim. Depois de esperar,esperar e esperar,fui embora.Não cheguei nem a ser chamado para fazer o teste,porque acharam que eu não tinha físico para ser jogador”.
GMN : Mas por que você escolheu logo o Juventus para fazer um teste – e não um time grande,como o Palmeiras,o Corinthians ou o São Paulo ?
Chico Buarque : “Porque eu achava que,num time mais fraco,eu teria uma vaga na certa....(ri)”.
GMN : “Você,como especialista em futebol,jogador amador,técnico de um time de futebol de botão chamado Politheama,poderia escalar a seleção brasileira de tods os tempos de Chico Buarque de Holanda ? Qual é o grande time ?
Chico Buarque : “É impossível.A brincadeira de escalar times de diversas épocas é apenas uma brincadeira.Porque você não pode comparar o futebol que se joga hoje com o futebol que se jogava há dez anos.Imagine vinte anos ! A comparação é falsa. Não se imagina o que seria Garrincha hoje nem se imagina o que seria Romário há vinte anos.É uma comparação absurda”.
GMN : Você tem no futebol ídolos que não são tão populares quanto Pelé e Garrincha,como Canhoteiro,por exemplo....
Chico Buarque : “Canhoteiro,Pagão.Fiz uma música chamada “O Futebol” dedicada a uma linha utópica – Mane Garrincha,Didi,Pagão,Pelé e Canhoteiro. Temos nossos ídolos particulares,aqueles que a gente pensa que são só nossos,porque ninguém conhece.Pelé e Garrincha todo mundo da minha idade viu jogar.Quando eu morava em São Paulo,via jogadores como Canhoteiro e Pagão.Não havia televisão em rede nacional. O pessoal do Rio,então,não conhecia esses jogadores.Quando falo de Canhoteiro e Pagão,nem sempre conhecem,aqui no Rio.Outros ídolos aqui do Rio nem sempre eram conhecidos em São Paulo. Quando eu voltava para casa em São Paulo,depois de passar férias no Rio,por volta de 1955,antes da Copa,portanto,eu falava de Garrincha – e ninguém sabia quem era”.
GMN : Quando criança –ou adolescente- você era daquele tipo de torcedor que vai ver o jogador descendo do ônibus na porta da concentração ?
Chico Buarque : “Eu fazia isso tudo,porque morava perto do estádio do Pacaembu.Eu me lembro de ter visto a seleção de 1958 concentrada.Fui lá peruar,ficar com cara de bobo olhando para as “figurinhas”.Porque eu conhecia os jogadores dos álbuns de figurinhas- muito pouco de televisão.Não tinha televisão em casa.A gente não via futebol pela TV : ia ver no estádio.Eu os jogadores de longe,durante os jogos.Ver de perto um jogador era um acontecimento”.
GMN : De qual dos jogadores que você viu de perto você guardou a lembrança mais forte ?
Chico Buarque : “De Almir,o Pernambuquinho – que ficou olhando para mim depois que entrou no ônibus.Eu estava ali de boca aberta,com cara de babaca,olhando os jogadores.Almir,então,começou a caçoar de mim.Depois de ter sido chamado na primeira convocação,num grupo de quarenta e quatro jogadores,Almir terminou nem indo para a Copa da Suécia”.
GMN : Você,ainda criança, viu a famosa seleção brasileira de 1950 jogar em São Paulo contra a Suécia,nas vésperas da grande derrota contra o Uruguai,no Maracanã. A derrota de 1950 deixou algum trauma em você ?
Chico Buarque : “Trauma não posso dizer que tenha deixado,porque eu tinha seis anos de idade.Mas me deixou assustado,porque ouvi o jogo pelo rádio.O Maracanã,”o maior estádio do mundo”,era um sonho na minha cabeça.Eu me lembro exatamente de que o locutor,chamado Pedro Luís,disse assim quando o Brasil fez um a zero contra o Uruguai : “Gol de Friaça ! Quase que vem abaixo o Maracanã !”. Eu pensei que o estádio viesse abaixo mesmo ! Pensei que o estádio estivesse caindo,com duzentas mil pessoas.Não prestei atenção ao jogo.Fiquei pensando no Maracanã tremendo com aquelas pessoas todas ali dentro”.
GMN : Quem levou ao estádio ,em São Paulo,para ver o jogo do Brasil contra a Suiça pela Copa de 50 ?
Chico Buarque : “Quem levou foi minha mãe,porque meu pai não gostava muito de futebol”.
GMN : O futebol tem uma presença enorme na vida do brasileiro,mas aparece pouco como tema de músicas.É desproporcional a relação entre a importância do futebol e a quantidade de músicas que tratam do tema. Por que ?
Chico Buarque : ”Não sei.O futebol é próximo da fita do brasileiro,assim como os jogadores sempre foram muito próximos dos músicos.Jogador de futebol tem mania de batucar,canta na concentração.Isso não é de hoje,existia já nos anos cinqüenta.Hoje,o pessoal de pagode se encontra com o pessoal da seleção para gravar”.
GMN : Se a gente for contar as músicas suas que tratam de futebol,vai ver que são poucas. Qual é a dificuldade em tratar de futebol ?
Chico Buarque : “Não é só música.Há pouca literatura tratando de futebol,há pouco cinema. Dá para entender por que há pouco futebol no cinema : é difícil reproduzir com imagens o que já é tão forte na vida real. Teoricamente,traduzir o futebol em palavras ou em música seria fácil do que em cinema.Prometo fazer mais umas duas ou três”.
GMN : Você jogaria pelo Fluminense hoje ?
Chico Buarque : “Claro que jogaria ! Tenho vaga naquele time”.
GMN : Quando joga futebol,que posição você ocupa ?
Chico Buarque : “Jogo em todas.Mas sou mais de preparar o gol. Sou um centro-avante recuado”.
GMN : Por que é que você se apresentava como jogador da seleção brasileira numa viagem que você fez ao Marrocos ? Alguém desconfiou da mentira ?
Chico Buarque : “Quando você diz que é brasileiro no exterior,o pessoal começa a falar de futebol.
É uma maneira de ganhar ponto com eles.Numa conversa com motorista de táxi,por exemplo,o assunto futebol logo aparece se você diz que é brasileiro.Então,eu assumia a identidade de jogador de futebol até que um estrangeiro disse : “Ex-jogador,não é ? “....Eu disse que tinha sido convocado para a seleção de 82 : tinha sido reserva de Sócrates”.
GMN : O pessoal acreditava ?
Chico Buarque : “Não !” (rindo)
GMN : Você quebrou o perônio e rompeu os ligamentos jogando futebol. Disse,então,que não estava conseguindo compor porque não sabe fazer música parado. Você só compõe andando ?
Chico Buarque : “Não apenas compor – eu também só sei pensar andando. Se você ficar parado,não consegue pensar. Andar eu recomendo para tudo.Se você tem qualquer problema,dê uma caminhada -porque ajuda,inclusive a ter idéias. Se a música ficou emperrada ou se a idéia para um livro não vem ,a melhor coisa a fazer é dar uma bela caminhada. Fiquei três meses preso na cama.Eu não conseguia ter idéias. Só sonhava que andava. Foram três meses perdido pela imobilidade”.
GMN : Você então associa o ato de andar ao ato de compor ?
Chico Buarque : “Associo o ato de andar ao ato de pensar,criar e compor”.
GMN : Você já teve o “estalo” para alguma música jogando futebol ?
Chico Buarque : “Fazer música jogando futebol não dá,porque durante a partida você fica empenhado em suas jogadas geniais.Mas caminhando tive a idéia de várias coisas.A verdade é a seguinte : você compõe com o violão,mas quando o momento em que o processo fica encrencado,você tem de sair andando. Não pode ficar parado,com o violão,a vida inteira. Então,para resolver impasses,o melhor é caminhar”.
GMN : Diz a lenda que você escreveu aquele refrão “você não gosta de mim/mas sua filha gosta” pensando no general Ernesto Geisel – que tinha uma filha.Somente você pode tirar essa dúvida : é verdade ?
Chico Buarque :”Eu nunca disse isso.As pessoas inventam. O engraçado é que a invenção passa a fazer parte do anedotário. Nunca imaginei que pudesse fazer uma música pensando num general ! A gente não faz isso. Você pode fazer uma música com raiva de alguma coisa : acontecia na época da ditadura militar,porque,com a censura,a política interferia na criação,o que nos incomodava.Mas você não ia dedicar uma canção a um pessoa. Quando se falava “você”,não se estava referindo a um general.Era uma generalidade”.
GMN : Por falar em generais : o general Garrastazu Médici freqüentava estádios no tempo em que você sofria os horrores da censura. Alguma vez você cruzou com ele num estádio de futebol ?
Chico Buarque : “Vi uma vez,porque eu estava chegando ao portão que dá nas cadeiras do Maracanã.De repente,chegou uma turma de batedores,com sirenes,com a truculência que é um pouco própria de autoridades,mas na época,era muito mais acentuada.”Afasta todo mundo ! “. Médici desceu do carro.Fiquei vendo de longe aquele figura”.
GMN : Você já era famoso.Algum dos batedores do general reconheceu você por acaso ?
Chico Buarque : “Batedor não reconhece ninguém : não olha para a cara de ninguém na hora de sair abrindo espaço”.
GMN : Em 1978,você participou da campanha do então candidato ao senado Fernando Henrique Cardoso,em São Paulo. Numa declaração publicada em 1998 em livro,Fernando Henrique diz que você é um crítico repetitivo.Como é que você recebeu essa crítica ?
Chico Buarque : “Achei engraçado no começo. Mas não dei a importância que às vezes dão.Parece que fiquei ofendido.Não. É normal,é natural que um político tenha opiniões políticas até a respeito de artistas. Diz o que interessa naquele momento.É da natureza de um político.Fernando Henrique sabe o que diz e tem o direito de gostar de quem quiser.Nunca imaginei que ele gostasse de mim. Achei divertida e engraçada a ênfase com que ele gosta de uma pessoa e pode deixar de gostar.Mas é a opinião de um político.Fernando Henrique diz que não gosta mais de mim.Antes,gostava”.
GMN : É verdade que você tem um irmão alemão ?
Chico Buarque : “Eu tenho um meio- irmão alemão.Não sei se ainda tenho.Mas tive. O meu pai teve um filho alemão antes de se casar.Depois,perdeu de vista,porque voltou para o Brasil,onde se casou.Não se relacionou mais com a mulher nem com o filho que teve na Alemanha.A última notícia que ele teve foi durante a guerra. A mulher pediu que o meu pai enviasse documentos provando que não tinha sangue judeu até a segunda ou terceira geração.O meu pai providenciou.Depois da guerra,não teve notícias”.
GMN : Você chegou a procurar esse irmão ?
Chico Buarque : “Uma vez,quando fui a Berlim,tive a impressão de estar vendo um irmão sempre em alguma parte – alguém que pudesse parecer comigo ou com meu pai. Tive a impressão de que ele poderia estar ali. Não sei explicar o que aconteceu.Não se a mãe não contou a ele quem era o pai.A mulher pode ter mudado de nome depois de se casar de novo.Um pai alemão pode te-lo adotado.O engraçado é que sempre perguntavam ao meu pai – que era muito branco de pele : “Por acaso o senhor é filho de alemão ? “. E ele dizia : “Não.Sou pai de alemão”.
GMN : O seu pai disse,num artigo,que você,quando era estudante,gostava de desenhar cidades.Havia sempre uma fonte no meio da praça,nas cidades que você desenhava. Você,que já foi estudante de arquitetura,ainda hoje desenha ou imagina alguma cidade nas horas vagas ?
Chico Buarque : “Desenho cidades enormes,gigantescas,com fontes,com praças,com nomes,com ruas.Quando não desenho,penso.Sonho muito com cidades. Os meus sonhos misturam cidades que conheço.Também sonho com cidades que não conheço e com cidades que imagino.São as melhores de todas”.
GMN : Você batizou o seu time de futebol de campo de Politheama – que era o nome do seu time de futebol de botão. Que nomes você dá às suas cidades imaginárias ?
Chico Buarque : “Não vou contar.
As cidades têm nomes.Mas não posso nem pronunciar aqui.Vou passar vergonha” .
GMN : Por quê ?
Chico Buarque : “Porque são nomes que têm consoantes que nem existem.São idéias bobas”.
GMN : Você tem a fama – falsa- de tímido e a fama – verdadeira – de arredio.Você não é de estar todo dia nos jornais ou na televisão. Qual é o maior incômodo que a fama traz ? É o assédio dos fãs,a invasão de privacidade ou a curiosidade da imprensa ?
Chico Buarque : “Assédio de fãs,no meu caso,não existe,porque não ando cercado nem de óculos escuros. Ando naturalmente na rua. As pessoas não perturbam muito.Se você andar como uma pessoa qualquer,você fica sendo uma pessoa qualquer. As pessoas me reconhecem,dizem “olá,Chico,tudo bem ? “.Não passa disso.Não vou dizer que é mau.É bom,é simpático,é gostoso.Não tenho nada contra”.
GMN : Mas a imprensa incomoda você de vez em quando...
Chico Buarque : “Quando quer,a imprensa incomoda” .
GMN : É por isso que você dá tão poucas entrevistas e fala tão pouco com os repórteres ?
Chico Buarque : “Eu falo bastante.Falo mais do que devia.Já estou falando aqui há meia-hora com você ! Mas é que não tenho tanto assunto.Tenho preguiça de falar. Gosto mais de fazer outras coisas”.
GMN : “Se você fosse chamado para escrever o verbete Chico Buarque de Holanda numa enciclopédia de música popular,qual seria a primeira frase ?
Chico Buarque(rindo) :”Êpa !. Não sei.Podia ser “ êpa”....
GMN : Com interrogação ou com exclamação ?
Chico Buarque : “Com interrogação.A primeira palavra seria : êpa ? “.
(1998/2001)
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...."AS ÁGUAS,SOPRADAS PELAS CONCHAS DOS TRITÕES E DAS NÁIADES,PELAS NARINAS DOS MONSTROS MARINHOS,IRROMPIAM EM ESGUICHOS FINOS,SALPICAVAM COM UM SUSSURO AGUDO A SUPERFÍCIE ESVERDINHADA DO LAGO,PROVOCAVAM RICOCHETES, BOLHAS, ESPUMA, ONDULAÇÕES, FRÊMITOS, TORVELINHOS ALEGRES ; EMANAVA DE TODA A FONTE,DA ÁGUA TÉPIDA,DAS PEDRAS COBERTAS DE MUSGO AVELUDADO,A PROMESSA DE UM PRAZER QUE JAMAIS PODERIA MUDAR-SE EM DOR ".
...."....ARGUTO DEPÔS AOS PÉS DO PRÍNCIPE UM ANIMALZINHO AGONIZANTE.ERA UM COELHO : O HUMILDE CASACO COR DE BARRO CINZENTO NÃO TINHA SIDO SUFICIENTE PARA SALVÁ-LO.O FOCINHO E O PEITO HAVIAM SIDO RASGADOS POR HORRÍVEIS GOLPES.DURANTE MOMENTOS DOM FABRIZIO VIU-SE FIXADO POR GRANDES OLHOS NEGROS,INVADIDOS RAPIDAMENTE POR UM VÉU GLAUCO,QUE O OLHAVAM SEM REPROVAÇÃO; CHEIOS,PORÉM,DE UMA DOR ATÔNITA DIRIGIDA CONTRA TODO O ORDENAMENTO DAS COISAS"
LAMPEDUSA,EM "O LEOPARDO"
O COMANDANTE FIDEL SUSPIRA,DIANTE DA IMENSIDÃO DA FLORESTA AMAZÔNICA : "QUE GRANDE PAÍS ! AQUI É QUE DEVERÍAMOS TER FEITO A REVOLUÇÃO !"
...."LOGO ME DEI CONTA DE QUE ENTRE OS FATOS DA VIDA,QUE DEVIAM SER MINHA MATÉRIA-PRIMA,E UM ESTILO QUE EU DESEJAVA ÁGIL,IMPETUOSO,CORTANTE,HAVIA UMA DIFERENÇA QUE EU TINHA CADA VEZ MAIS DIFICULDADE EM SUPERAR.TALVEZ QUE SÓ ENTÃO ESTIVESSE DESCOBRINDO O PESADUME,A INÉRCIA,A OPACIDADE DO MUNDO - QUALIDADES QUE SE ADEREM LOGO À ESCRITA,QUANDO NÃO ENCONTRAMOS UM MEIO DE FUGIR A ELAS"
(Italo Calvino em "Seis Propostas para o Próximo Milênio")
"
..."MANUEL BANDEIRA,QUE ERA AMIGO DO REI,IA-SE EMBORA PRA PASÁRGADA. AI ! DE MIM,SEM REI NEM AMIGO REI,QUE QUANDO CAIO NO FUNDO DA FOSSA,QUANDO ENTRO NO DESERTO E SOU DESPEDAÇADO PELAS BESTAS DA DESOLAÇÃO,QUANDO FICO TRISTE,TRISTE (..."MAS TRISTE DE NÃO TER JEITO..."),SÓ QUERO REENCONTRAR O MENINO QUE JÁ FUI"
(Pedro Nava em "Baú de Ossos")
CENA DE REDAÇÃO.DIANTE DO REPÓRTER JOEL SILVEIRA, O GÊNIO NELSON RODRIGUES RESUME EM UMA PALAVRA O DESTINO DE TODOS NÓS : "PATÉTICO !"
O MAIS IMPORTANTE EXILADO CUBANO ATACA TODAS AS FORMAS DE LITERATURA ENGAJADA : "A POLÍTICA MATOU A LITERATURA LATINO-AMERICANA"
LONDRES - A barbicha que ornamenta o queixo do mais famoso exilado cubano,o escritor Guilhermo Cabrera Infante,dá a ele um certo ar de
Leon Trotsky,o revolucionário abatido a golpes de picareta por ordem da
patrulha stalinista. Sisudo na hora de tirar fotos, Cabrera Infante exerce,no
entanto,uma fina ironia na hora de falar de suas três grandes paixões -
a literatura,o cinema e a atriz Melanie Grifith. Logo transforma-se num
guerrilheiro verbal na hora de atacar os seus três grandes desafetos : Fidel
Castro,Fidel Castro,Fidel Castro - uma reconhecida obsessão.
Aos 67 anos de idade,pai de duas filhas,autor de livros como ''Tres Tristes Tigres'',''La Habana para un Infante Difunto'' e ''Mea Cuba'',Cabrera Infante chegou a dirigir o conselho de cultura da recém-instalada revolução cubana,no início dos anos sessenta,mas escolheu o caminho do exílio ao desconfiar da vocação tirânica do comandante Fidel.
Vive na Inglaterra desde 1966,num apartamento térreo em Gloucester Road. Nesta entrevista,concedida em meio ao caos em que se transformou a sala do apartamento em obras,Cabrera Infante bate forte em Gabriel Garcia Marques,revela o que ouviu de Fidel Castro durante um sobrevôo na floresta amazônica e confessa por que preferiu perder a chance de ouro de conhecer Melanie Grifith pessoalmente. Dramático,sentencia : a política é a maior inimiga da literatura.
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GMN : O senhor diz que perdeu o interesse pela obra de Gabriel Garcia Marquez quando um personagem começou a levitar,logo nas primeiras páginas. Como já tinha visto a serie da TV ''A Noviça Voadora'',não se animou a continuar a leitura.A hostilidade que o senhor exerce em relação a Gabriel Garcia Marquez não tem também razões políticas,já que ele apóia um governante que o senhor detesta - Fidel Castro?
Cabrera Infante :..''Mas a adesão de Garcia Marques a Fidel
Castro é posterior à leitura que fiz de ''Cem Anos de Solidão'' ! Se me
interesso tanto por Jorge Luis Borges,não poderia me interessar por ''Cem Anos de Solidão'',um livro folclórico.Se o problema é encontrar um livro que
trabalhe com elementos sul-americanos surpreendentes,então prefiro ''Grande
Sertão : Veredas'' - de Guimarães Rosa - uma obra que,lamentavelmente,ninguém
conhece. Além de ser um livro genuíno,''Grande Sertão Veredas'' faz
contribuições extraordinárias à língua literaria.Vejo em Guimarães Rosa uma
solidez e uma consistência extraordinárias.Aquele mundo é realmente mágico ! .Nada a ver com ''realismo mágico'' e todas essas porcarias. É um mundo mágico que afeta a linguagem.Isto é que é importante.
Outros cultores do realismo mágico na América do Sul,como Isabel Allende,por exemplo,seguem fórmulas.Em Guimarães se encontra a verdadeira magia.Isto se encontra tambem em livros brasileiros anteriores,como Macunaíma - uma obra extraordinária.Já li mais de uma vez.
Minha primeira negação em relação à obra de Garcia Marquez vem de 1967.Sempre considerei seus livros de um folclorismo e um exotismo realmente desnecessários''.
GMN : ...Mas este desprezo por Garcia Marquez não teria também bases políticas,além das razões puramente literárias ?
Cabrera Infante :''A adesão de Garcia Marquez a Fidel Castro,tão pública e tão clamorosa,veio depois de ele ter ficado famoso como
escritor.Há antecedentes parecidos.Quando Hitler subiu ao poder em 1933,um escritor norueguês premiado com o Nobel,Knut Hamsun,foi a Berlim,para dar a ele a medalha de presente.Eis um exemplo de um escritor se manifestando de maneira imprópria diante de um tirano.Hoje,este escritor é virtualmente desconhecido. Hitler perdeu a guerra.Deixaram o escritor numa espécie de quarentena,em que ele permanece até hoje.O gesto de se associar tão de perto a um tirano é perigoso para um escritor.Porque tiranos têm finais violentos.Isto não é novo.Ja' acontecia na Roma dos césares,com Nero e Petronio. Grande cortesão,autor de Satiricon,Petronio sofreu justamente por
estar tão perto do tirano''.
GMN : Mas o senhor enxerga alguma virtude literária em Gabriel Garcia Marquez ?
Cabrera Infante :'' Não conheco a obra que Gabriel Garcia
produziu depois de ''Cem Anos de Solidão''.Fiquei vacinado.Toda essa pseudo-mitologia sul-americana se manifestava através de uma prosa que não me interessa.É a prosa da ''belle ecriture''.A mim me parece absolutamente detestável''.
GMN : Alguém que não conhece a obra de Garcia Marquez poderia esperar que um simpatizante do ''socialismo real'' produzisse um obra que seguisse os parâmetros do ''realismo socialista'', mas acontece que os livros de Garcia Marques apontam exatamente para a direção contrária - rumo ao delírio do chamado ''realismo mágico''....
Cabrera Infante(interrompendo) : ''...Mas os que
professaram o realismo socialista estavam todos sob uma tirania ! O realismo socialista foi produto da tirania de Stalin.Escrevia realismo socialista quem
era obrigado.Mas há escritores comunistas,como Jorge Amado,que não escrevem realismo socialista porque não são obrigados a tal,não existe uma tirania no Brasil.Pelo contrário : Jorge Amado também escreveu realismo mágico - e mais socialista não pode ser ! Apoiou Fidel Castro!
É preciso fazer uma distinção.O que aconteceu com escritores que produziram o realismo socialista aconteceu também com escritores que viveram sob Mussolini,na Itália : tiveram de seguir os ditados estéticos do fascismo.Outra coisa - muito diferente - é viver fora da órbita de um tirano,seja socialista ou fascista. Gabriel Garcia Marquez nao é um escritor cubano.O que acontece é que escritores cubanos são obrigados a seguir as várias formas que o realismo socialista pode assumir no trópico.É o caso de um escritor eminente,Alejo Carpentier.Tinha uma obra grande quando vivia fora de Cuba.Ao chegar lá,os livros que produziu,como ''A Sagração da Primavera'',''O Recurso do Método'' ou ''Concerto Barroco'',foram feitos para aprovação pelo Comitê Central do Partido Comunista Cubano''.
GMN : Jornais sempre citam o senhor como ''o mais importante exilado cubano''....
Cabrera Infante(interrompendo de novo ): ''Eu preferiria que me considerassem o mais importante escritor cubano - não o mais importante exilado,porque não tenho atividade política ! Sou um escritor.Projeto-me como um escritor.Vivo como um escritor.Meu problema com Fidel Castro é de ordem moral.Não tenho aspirações políticas para quando Fidel Castro desaparecer.Sequer contemplo a possibilidade de regressar a Cuba depois de queda de Fidel.A diferenca é esta.Há exilados eminentes que sao políticos praticantes''.
GMN : O sentimento de inveja é comum entre escritores.Gabriel Marquez é famoso também por ter ganho o Premio Nobel de Literatura. Se alguem imaginar que existe um sentimento de inveja entre vocês dois estará exagerando ?
Cabrera Infante : ''Não de minha parte ! A inveja é
genética.Ou se nasce invejoso ou se nasce desinteressado.Não tenho nenhuma
inveja literária.É algo que tenho de agradecer aos meus gens - mais do que à providência.Não entendo o que é a inveja literária.Outra coisa seria dizer que eu preferiria viver melhor ou que esta é uma casa modesta ou que eu gostaria
de ganhar milhões de dólares.É outra coisa.Mas inveja literária não !''
GMN : O senhor diz que Machado de Assis ''não tem rival''.Qual foi exatamente o livro que despertou tanta admiração ?
Cabrera Infante : ''Uso um trecho das ''Memorias Póstumas de Brás Cubas'' no epílogo de um dos meus livros - ''A Twentieth Century Job'',um volume de críticas de cinema.Isto aconteceu quando não muita gente se ocupava de Machado de Assis,pelo menos na órbita espanhola. A gente ve toda esta onda espanhola sobre romancistas do seculo XIX - que teriam sido grandes escritores. Se a medida for Machado de Assis,digo : não são !''
GMN : A condição de "dissidente" e "exilado" incorporou-se à vida a ao nome do senhor como um título.É uma maldição ou é uma bênção ter trocado Havana por Londres ?
Cabrera Infante :''Há uma inexatidão aí : não sou
dissidente.Sou exilado.Os dissidentes vivem no país de que dissentem.Há outros em Cuba que se encarregam desta tarefa.Sou simplesmente um exilado.Se eu levar em conta que aqui em Londres vivo uma vida
inteiramente livre,poderia considerar uma bênção o fato de ter chegado à gloria depois de ter escapado do inferno. Mas o exílio traz problemas.Um
exilado sempre carregará consigo a terra de onde veio.Terá sempre a idéia de
voltar.Tal como Havana,Londres é capital de uma ilha - mas Inglaterra não é
Cuba.A Inglaterra tem problemas graves de luz. Sobretudo no inverno,eu padeço dessa falta de luminosidade,dessa ausência de sol.Em Havana,o sol parecia sobrar,sempre.Para mim,hoje,esta é a maior diferença entre viver no trópico e viver em um clima destes.
De qualquer maneira,a gente precisa reimplantar a vida em
outro destino.Aqui em Londres trabalho à vontade.Você vê esta sala ? Eu me sento aqui para trabalhar,vejo atraves da janela toda essa gente agasalhada passar pela rua,com seus abrigos e seus guarda-chuvas.E eu aqui dentro -
de camisa - escrevendo.Não preciso ir para lugar nenhum para trabalhar.Assim,sou um privilegiado em relação a estes ingleses que passam lá fora,na rua.Simplesmente,eu me levanto,tomo o café da manhã e começo a escrever.A minha casa é o meu lugar de trabalho.É meu escritorio.É minha fábrica''.
GMN : Exilados cultivam o idioma como o único grande vinculo com o país de onde vieram.O senhor,no entanto,já escreve em inglês,depois de trinta anos na Inglaterra.Não teme se transformar num apátrida literário - um escritor de língua espanhola escrevendo em inglês ?
Cabrera Infante :''Um fenomeno interessante acontece aqui em casa.A TV fala em inglês.Os jornais que leio,os filmes que vejo,é tudo quase sempre em inglês.Mas tenho dentro de casa um reservatório de língua espanhola - a minha mulher,Mirian Gomes.Sempre conversamos em espanhol.Minhas filhas se comunicam entre elas em inglês,mas nós sempre nos comunicamos em espanhol .De qualquer maneira,também escrevo bastante
em espanhol,nos artigos que publico toda semana na imprensa espanhola ou mexicana.
Não aconteceu comigo o que acontece com escritores que aprendem um idioma estrangeiro mas já não falam a língua nativa.Não.A mim me interessa escrever em espanhol.Vejo como uma grande vantagem o fato de ter conquistado a língua inglesa sem ter perdido a língua espanhola''.
GMN : O senhor já descreveu o exílio como ''uma estrada sem chão''.Mas,sob o ponto de vista estritamente literário,o exílio pode ser fértil ?
Cabrera Infante : ''Há escritores que se realizam no
exílio,assim como há escritores que se destróem.Devo dar gracas a Fidel Castro por ter me convertido em escritor ! . Eu era um jornalista que fazia sucesso numa revista como crítico de cinema.Ao sair de Cuba,tive de inventar uma carreira de escritor.Porque nunca me interessara escrever livros.Eu gostava era do imediatismo do jornalismo.Mais ainda : eu gostava -e gosto- do ambiente de redação de jornal.Trabalhar numa redação de jornal é como estar próximo do paraíso.
Aqui em casa criei um ambiente mais ou menos parecido com o de uma redação.O telefone vive tocando.Fico escrevendo.Minha mulher chega para dizer que vai sair.Há ruidos. A televisão fica ligada. E eu escrevendo.É certamente igual a uma redação de jornal''.
GMN : O senhor já se considera um inglês ?
Cabrera Infante : ''Tenho um passaporte inglês.Pago meus impostos.Há um ditado que diz que a gente pertence ao lugar onde paga os impostos...Vivo aqui desde l966.Mas não me considero um inglês.Além de tudo,a literatura que me interessa na Inglaterra é a litetatura do passado - não a do presente.Interessa-me Josef Conrad.Ou H.J.Wells.Eu sinto admiração ate' George Orwell.Mas agora não sinto admiração por nenhum escritor inglês.O único escritor inglês que eu realmente admirava morreu há pouco : era Anthony Burgess - culto e interessante''.
GMN : Numa entrevista que fiz com ele,Antohny Burgess reclamava de que nós,latino-americanos,nos preocupávamos obsessivamente com política.O senhor concorda ?
Cabrera Infante : ''A política causou grandes danos a
escritores.Julio Cortazar,antes de se envolver tão ativamente com política cubana e nicaraguense,era outro.A partir do envolvimento,comecou a decair. O ''Livro de Manuel'',eminentemente politico,é muito inferior a obras anteriores.A política tem atrativos.Se você se entretém com a política,não sobrará espaco para nada mais.A literatura é exigente.
Faço uma previsão : a próxima literatura de importância no mundo de fala espanhola vai se produzir na Espanha.Porque os escritores espanhóis,uma vez morto Franco e uma vez passada a euforia da liberdade,se dedicaram completamente à literatura,enquanto que na América espanhola - não posso falar especificamente do caso do Brasil porque não conheço - todos os escritores jovens estavam preocupados em mostrar e demonstrar suas credenciais políticas.Isto foi fatal ! Não há um escritor interessante na América hispânica nos últimos tempos ! Todos se referem sempre a Garcia Marquez,Julio Cortazar,Juan Rulfo,Carlos Fuentes...todos já na faixa dos sessenta,setenta anos. Morto Borges,o grande exemplo literário,não havia outro na América hispânica''.
GMN : Escritores engajados dizem que exercem a militância política porque uma ditadura deve ser combatida
também pela literatura.O senhor acha que este sacrifício estético deve ser feito ?
Cabrera Infante : "Tenho combatido -e muito- Fidel Castro publicamente.Mas meus textos são sempre concebidos a partir de um ponto-de-vista literário. Não pode haver ataque mais direto e mais contundente à ditadura de Fidel Castro do que os que faco em ''Mea Cuba'',mas sempre em
termos literários.A escritura é essencialmente literária : nao é política nem panfleto. O maior inimigo da literatura é a política''.
GMN : O senhor se declarou apaixonado pela atriz Melanie Grifith...
Cabrera Infante (num suspiro) : "Ah,sim.....''
GMN : Já teve a chance de dizer pessoalmente que era apaixonado por ela ?
Cabrera Infante : ''Os dois - ela e Antonio Banderas(N: ator espanhol casado com a atriz) - me convidaram para almoçar.Eu disse que não estava me sentindo bem.A verdade é que não queria conhecê-la. É extraordinária.Naquele filme de Brian de Palma,''Dublê de Corpo'',a cena em que ela comeca a gritar sozinha numa estrada,sem se dar conta de que corre risco de vida,é um grande momento de Melanie Grifith como atriz''.
GMN : O senhor não foi ao almoço porque teve medo de sentir ciúmes ou porque não queria correr o risco de sofrer uma decepção ao vê-la pessoalmente ?
Cabrera Infante : "'Não fui porque prefiro tê-la na
imagem -não ''na carne'',como se diz em inglês.Prefiro guardar comigo a imagem da Melanie Grifith que vi nas telas''.
GMN : Entre suas admirações,alguém lhe decepcionou quando visto pessoalmente ?
Cabrera Infante : ''Uma das pessoas com quem tive uma enorme decepção depois de vê-lo pela televisão e pelos jornais foi Fidel Castro. Tivemos contato íntimo.Em abril de 59,fomos a Washington,Nova Iorque,Montreal e ao Brasil,antes de seguirmos para Montevideu e Buenos Aires.A intimidade de estar num avião para apenas vinte pessoas em companhia de Fidel Castro durante tantos dias me convenceu de que aquele indivíduo era um horror.Era um avião de hélice.Em direção ao Rio,o avião baixou para que víssemos a floresta amazônica.O piloto disse :''Comandante,estamos voando sobre a floresta ! ''.Eu estava sentado no banco logo atrás de Fidel Castro.O que foi que aconteceu ? Fidel ficou olhando a floresta nao sei por quanto tempo. De repente,disse : ''Que grande país !''. Eu pensava que era admiração pelo Brasil. Mas ele disse :''Aqui é que deveríamos ter feito a nossa Revolução !''.
Neste momento,entendi que Cuba era pequena para ele. Fidel se achava um lider tão grande que necessitava de um continente ;não de uma ilha..''
GMN : Se,num acaso digno de uma das páginas de Garcia
Marquez,o senhor se encontrasse com Fidel Castro hoje,num saguão de aeroporto,o que é que o senhor diria a ele ?
Cabrera Infante : ''Eu só diria uma frase : ''Você não
acha que já chega ?''.
(1997)
CHANCE RARA : O REPÓRTER VÊ UM JOGO DA SELEÇÃO
BRASILEIRA AO LADO DO GÊNIO NELSON RODRIGUES
O DIA EM QUE O REPÓRTER VIU UM JOGO DA SELEÇÃO
BRASILEIRA AO LADO DO GÊNIO NELSON RODRIGUES
O DIA EM QUE O CRIADOR DO MODERNO COLUNISMO SOCIAL ENGANOU A RAINHA DA INGLATERRA NO MARACANÃ !
Quem foi o único brasileiro que teve o privilégio de trocar cochichos com a Rainha da Inglaterra ? (aos que duvidam de tal façanha,recomenda-se que consultem nos arquivos públicos o exemplar do jornal Última Hora do dia onze de novembro de 1968,uma segunda-feira : uma seqüência de três fotos,publicadas com destaque na primeira página,registra a façanha).
Quem foi o visitante curioso que o dramaturgo Tennesse Williams,autor do clássico “Um Bonde Chamado Desejo”, conduziu até um quarto todo vermelho,numa mansão em Nova Iorque,não se sabe com que intenções ?
Quem foi o jornalista atrevido que,aos vinte e dois anos de idade,criou,nas páginas do Diário Carioca,no já remotíssimo ano de 1945,”a primeira coluna social moderna do jornalismo brasileiro”,como bem diz o verbete dedicado a ele na mini-enciclopédia “Ipanema de A a Z” ? Antes,a chamada “crônica social” era entulhada de registros empolados de jantares,viagens e outros acontecimentos menos votados.A partir do Diário Carioca,a coluna social ganhou vivacidade : passou a registrar,em notas curtas,grandes negócios,casos de amor,conchavos políticos. O modelo não se esgotou até hoje.
O único brasileiro que falou ao pé do ouvido da Rainha Elizabeth,o repórter curioso que testemunhou a paisagem vermelha do quarto de Tennesse Williams e o jornalista atrevido que lançou,no Brasil,a base do colunismo moderno são um homem só : Manoel Bernardez Muller.
Aos pouco familiarizados com a biografia do jornalismo brasileiro,diga-se que ele ficou famoso como Maneco Muller. Se,ainda assim,o nome soar estranho,o que é improvável,acrescente-se que Maneco Muller tornou-se célebre sob um pseudônimo : Jacinto de Thormes (nome roubado de um personagem do romance de Eça de Queiroz ”A Cidade e as Serras “).
Depois de aceitar de bom grado o pseudônimo que lhe foi sugerido pelo jornalista Prudente de Morais,Neto - um dos grandões do Diário Carioca -, Maneco Muller dedicou-se ao trabalho de criar,sob a marca Jacinto de Thormes,um personagem que o acompanharia,como uma sombra,por toda a vida. Aos olhos do público,Jacinto de Thormes era um homem sofisticado que aparecia fumando um imponente cachimbo,com ares de lorde inglês,nas “fotos oficiais” que ornavam suas colunas.
Confessava-se usuário de um pijama listrado que ficou famoso - sinal de que cultuava a elegância até na hora de dormir.Pronunciava nomes estrangeiros com sotaque britânico.Tinha um cão chamado William Shakespeare Júnior,personagem (real) de suas andanças. O cão chegou a merecer foto de página inteira numa revista de moda, em que aparecia usando um boné que cairia bem numa partida de críquete numa tarde de verão nos arredores de Wimbledon. O fato de criar uma celebridade canina dá a dimensão do poder de fogo de Jacinto de Thormes .
Além de circular nas “altas rodas”,Jacinto de Thormes era um infatigável fabricante das Listas das Dez Mais Elegantes. Criou um modismo. As Listas passaram a ser publicadas em todo o País,em versões adaptadas ao gosto dos cronistas locais – os Jacinto de Thormes que se multiplicavam nas províncias. Igualmente,lançou a expressão “colunável”. Por merecimento,Jacinto de Thormes entrou para a seleta confraria dos jornalistas que são notícia.Virou um “colunável” clássico.
Aposentado depois abandonar as colunas sociais para se dedicar à crônica esportiva (o futebol é uma de suas paixões),Jacinto de Thormes sumiu de circulação.
Por onde andaria,hoje,o cronista dos Anos Dourados ? O que estaria pensando,neste começo de século,o escriba que documentou em suas colunas os tempos em que o Rio de Janeiro era um território idílico,nos idos da década de cinquenta ? Que sentimentos teria Jacinto de Thormes diante da uma sociedade povoada por novos ricos,os “emergentes” que,dentro ou fora da Barra da Tijuca,fazem questão de exibir suas posses nas revistas de celebridades ? Que confidências ele teria a fazer,hoje,sobre cenas indiscretas que não publicou,na época,por pudor ou excesso de zelo ?
O Jacinto de Thormes da vida real – o cidadão carioca Maneco Muller – confessa-se surpreso por ter sido procurado para uma entrevista. Porque é um personagem tecnicamente fora de combate. O encontro fica marcado para o apartamento da filha. Chega britanicamente no horário marcado. A devoção à pontualidade pode ser herança inconsciente dos anos em que viveu sob a tutela de uma governanta inglesa. Maneco Muller é bem nascido. Vem de uma família de diplomatas. A governanta entrou em cena porque os pais de Maneco se separaram quando ele tinha apenas três meses de idade. A mãe partiu para a Europa,em companhia de um marquês. Coube à governanta a tarefa de zelar pelo menino.
Nosso personagem aparece para a entrevista elegantemente metido num blaser azul-marinho,camisa social abotoada nos punhos,calça cinza. Vai fazer setenta e oito anos em breve. É avô de quatro meninas. Orgulha-se de se manter em forma : “Não tenho barriga”. Há duas décadas,instalou no peito quatro pontes de safena que funcionam perfeitamente bem. Quando desce do táxi, é personagem de uma pequena trapalhada : toca a campainha do prédio vizinho ao da filha,para espanto do porteiro.Desfeita a confusão, engana-se de novo ao apertar o botão errado dentro do elevador. As miudezas do mundo aparentemente confundem o coração cosmopolita de Jacinto de Thormes.
Do alto do décimo-quarto andar deste prédio no Flamengo,zona sul do Rio,o quase octogenário Jacinto de Thormes contempla,deslumbrado,a paisagem. Só há um adjetivo para definir a vista : é “cinematográfica”.Nunca um lugar-comum caiu tão bem. Quantas mil vezes ele terá vasculhado com os olhos os contornos do morro do Pão de Açúcar ? Já perdeu a conta. Mas, ainda hoje,é capaz de soltar exclamações como “não existe nada parecido no mundo.Que vista,meu Deus do céu !”.
Primeira conclusão : trata-se de uma alma irrevogavelmente carioca.Segunda conclusão : qualquer outra generalização é perigosa. Porque Jacinto de Thormes é,como bem definiu a revista Vogue,um caso único,”um espécime em extinção,pertencente a uma fidalguia carioca,aquela elegância natural,autêntica,intrínseca”.
Quem apostar que o Jacinto de Thormes aposentado é hoje um dinossauro que vive ruminando nostalgia dos tempos em que o Rio era a capital da Corte se enganará redondamente.Porque,retirado da cena,ele vê com curiosidade a ascensão dos “emergentes”. Diz que,hoje,uma palavra resume tudo : velocidade. Acabou-se o tempo em que os sobrenomes de famílias tradicionais desfilavam pelas colunas. Hoje,gente que enriqueceu depressa brilha depressa nas colunas - mas desaparece depressa também. Neste mundo,Jacinto de Thormes se sentiria deslocado. Mas não faz as vezes de saudosista ranzinza.
O homem vai revisitar cenas inacreditáveis que viveu ao lado da Rainha da Inglaterra.Falará de Tennesse Williams. Descreverá o encontro que marcou com Gilberto Freyre porque queria saber quem chegaria primeiro à presidência da República no Brasil : um negro ou uma mulher.Fará uma radiografia dos novos tempos do soçaite.
Jacinto de Thormes volta a atacar.
Gravando !
GMN : Os nomes tradicionais das colunas sociais foram substituídos pelos chamados “emergentes” – os novos ricos que,no caso do Rio de Janeiro,moram na Barra da Tijuca. O que é que os emergentes despertam no senhor : enfado,asco ou curiosidade jornalística ?
MM : “Tenho uma idéia formada. Precisamos olhar essa questão não como um simples fato,mas como conseqüência da velocidade do que acontece hoje. Em Botafogo,existe uma padaria que exibe uma inscrição : Fundada em mil oitocentos e não sei quantos. A tradição dava prestígio,dava credibilidade.Mas acabou ! As pessoas precisam imaginar que uma “emergente” é fruto do momento que vivemos hoje,dominado pela velocidade.Como o mundo muda,numa grande velocidade,se a mesma pessoa aparecer duas ou três vezes numa revista,dirão : “Mas que chato ! De novo ? “.
GMN : Antes,valorizava-se a tradição.Hoje,o que é que se valoriza : é a riqueza rápida ?
MM : “O sucesso hoje é esse.A Corte acabou ! A diferença é essa : quem aparece hoje é gente que surge rapidamente e ganha dinheiro depressa.Não interessa o nome. O jogador de futebol que faz sucesso também vai para a Barra da Tijuca,porque,lá,ele compra,ele se faz,ele é importante.
Mas não sou contra.Porque as pessoas não têm culpa.Não sou o sujeito esnobe que diz “imagine você....”. Não!
A época atual pede que se faça tudo rápido,para durar pouco”.
GMN : Qual era a dúvida que o senhor quis tirar com Gilberto Freyre ?
MM :”Eu queria fazer alguma coisa diferente,além da coluna.Matérias que representassem alguma coisa.Procurei um banqueiro famoso.Mas o sujeito só falava de dinheiro e política.Não publiquei nada.Já Gilberto Freyre era o tipo da pessoa que sabia falar.Expansivo.Perguntei a ele: quem chegará primeiro à presidência da República - a mulher ou o negro ? Gilberto Freyre achou ótimo.Disse,primeiro,que “o brasileiro não é uma raça,muito menos uma sub-raça ou meia-raça,como os subantropólogos querem,mas,sim,uma meta-raça”.
Depois de muita habilidade e inteligências,acabou dizendo que o negro chegaria primeiro à Presidência”.
GMN : A Rainha Elizabeth desperta,à primeira vista,um sentimento de tédio,até entre os admiradores.O senhor –que teve o privilégio de conhecê-la como intérprete,na visita que ela fez ao Brasil em 1968,teve essa sensação também ?
MM : “A Rainha é uma funcionária pública perfeita.Um dos compromissos que ela cumpriu aqui foi ver,no Maracanã,um jogo da seleção de São Paulo,comandada por Pelé,contra a seleção do Rio,comandada por Gérson.Vi o jogo sentado ao lado da Rainha,perto do governador Negrão de Lima,que falava francês. Samuel Wayner me disse para aceitar o convite para ser intérprete da Rainha.O pessoal do Itamaraty,meus amigos,tinham me convidado.Você sabe que não se chama a Rainha de Sua Majestade,a não ser em cerimônia.Chama-se de “madam”.
Houve um problema : fizeram uma placa de bronze que seria inaugurada no Maracanã para marcar a visita da Rainha.Mas,quando fui ler,vi que a placa tinha um erro de português.Tiveram de correr para mudar.Horrível.Quase não dava tempo.Primeiro,a Rainha perguntou sobre as orquídeas que tinham sido distribuídas na Tribuna de Honra.Eu disse que as orquídeas tinham vindo da Amazônia.Fiz uma onda.Amazônia coisa nenhuma.Eram daqui mesmo”.
. GMN : O senhor achou que seria “rústico” citar a Amazônia ali,para a Rainha ?
MM : “A Rainha entendeu que as orquídeas tinham vindo da Amazônia,mas eu,na verdade,disse que elas eram de um gênero amazonense,o que não deixa de ser verdade.Mas não sei,não entendo nada de flores. A Rainha achou ótimo.A gente tem de fazer essas coisas : é gentileza.
De repente,ela me perguntou : “você não acha que esse jogo está um pouco lento ? “. Não é boba. Eu disse : “Madam,o que acontece é que o jogador que a senhora se acostumou a ver no estádio de Wembley são ingleses fortes e robustos,correm muito,são verdadeiros touros.O nosso jogador ,madam,é uma cobra.Aliás,chamamos de cobra o nosso grande o jogador. Porque ele de repente dá um bote”. A Rainha ficou me olhando impressionada. Para minha sorte,poucos minutos depois Pelé,que estava fingindo que o jogo não era com ele,de repente viu a brecha,gritou “dá”,driblou um,cortou o outro e quase fez um gol maravilhoso.A Rainha se virou pra mim e disse : “Isso é que é cobra ? “.Eu disse : “Yes,madam,precisely”.O que ela fez? Olhou para o Príncipe Philip e perguntou : “Você sabe qual é a diferença entre os nossos jogadores e os brasileiros ? “. Começou a contar ao marido a minha história,sem me pagar royalties”.
GMN : A Rainha lhe deu a impressão de sofrer de uma certa falta de brilho pessoal ?
MM : “A impressão que a Rainha dá é a de que é uma pessoa triste.Aquilo deve ser muito,muito chato”.
GMN : A Rainha,em situações,normais é inacessível aos jornalistas – inclusive os ingleses.A que o senhor atribui o fato de ter sido escolhido para atuar como intérprete ? Bastou a amizade com o pessoal do Itamarati ?
MM: “Eu era cronista esportivo. Falava inglês- bem ou mal. Era um sujeito que não ia cuspir no chão nem fazer nenhuma grosseria.
Antes do início do jogo, quando o juiz Armando Marques entrou,a torcida começou a gritar “bicha ! bicha ! bicha !”. A Rainha me perguntou o que era aquilo.Que história era aquela de “bicha” ? Eu disse que a torcida estava aplaudindo o juiz – que era muito popular no Brasil....
Você veja o que é uma profissional. Quando,depois do jogo,se encontrou com o juiz Armando Marques,a Rainha disse : “Gostei de ver sua popularidade...”.
Mas o Príncipe Philip soube o que queria dizer o coro da torcida,porque disseram a ele”.
GMN : Lygia Fagundes Telles diz que,quando esteve em São Paulo,o escritor William Faulkner abriu a janela do hotel e perguntou : “Isso aqui é Chicago ? “. Bêbado,ele não sabia nem onde estava. O álcool entrou também nos contatos que o senhor teve com escritores americanos como Truman Capote e Tennesse Williams ?
MM : “Não entrou outra coisa,além de álcool. A entrevista com Truman Capote eu nem cheguei a escrever.Para dizer a verdade,achei-o murcho,sem significação alguma. Fiquei com raiva.Decepcionado.Não dava para escrever nada. Eu também estava numa fase ruim.Não vou culpar os outros. Eu estava em Nova Iorque,pela revista O Cruzeiro. Fiz também entrevistas com Tennesse Williams e Salvador Dali. O verdadeiro Salvador Dali era Gala,a mulher que o dirigia em tudo. Houve uma cena que considero terrível : Salvador Dali sentou-se ao lado de uma senhora brasileira que estava em nosso grupo.Disse a ela : “Que mãos lindas ! Eu poderia pintar as suas mãos ? ”.A mulher ficou encantada. Quem não quer ? Dali ficou de telefonar. A secretária de Salvador Dali realmente ligou no dia seguinte : “O senhor Dali gostaria muito de marcar uma data.Por falar no assunto : gostaria de dizer que o preço é.....”.E falou em não sei quantos mil dólares.Que negócio terrível....
Já o Tennesse Williams me fascinava. Quando cheguei para a entrevista,encontrei cinqüenta milhões de pessoas.Gim puro.Um porre sem tamanho.Bebe-se muito em Nova Iorque. Quando essa gente se expande,não é brincadeira.A primeira coisa que Tenesse Williams fez comigo foi : “Deixe-me mostrar minha casa”. A gente nem conseguia ver a casa,em meio a tanta gente sentada por todo canto. Quando ele abriu o quarto,era tudo vermelho e dourado lá dentro.Por que o sujeito vai me mostrar um quarto onde não havia ninguém ? Para que me mostrar um lugar todo vermelho que,para ele, era a parte fundamental da casa ? Eu estou associando coisas. Não houve nenhuma insinuação.
Quando contei umas histórias,ele me perguntou : “Mas era sexo normal ou diferente ?”. Respondi que comigo era tudo normal.De repente,toca a campainha.Abre-se a porta.Aparece um rapaz lindo,bonitão,rosado,com uns dois metros de altura.Ficou parado.Visivelmente,não conhecia ninguém.Tennesse viu o rapaz de longe,correu até onde ele estava : “Mas o que é que você veio fazer aqui ? “. O rapaz estranhou : “Você não disse para vir ? “. E Tennesee : “É amanhã,seu burro !.Não vê que hoje a casa está cheia de gente?”.
GMN : Tarso de Castro escreveu : “O jornalismo se divide mais ou menos assim : no início,é uma conquista maravilhosa,uma briga para ver uma coisa que se escreveu sair no jornal.Depois,chega o tempo de ser o competente cara de jornal.Por esse tempo,há um dia em que se descobre que não temos nada de super-homens.Por fim,chega o tempo em que o cansaço se arrasta diante do fato de que,afinal,não éramos tão importantes”. Jacinto de Thormes viveu essas três estações ?
MM : “Quanto a ser importante ou não,é relativo.Porque,na época,eu fui importante,sim. Fui importante porque,para começar,não me levei a sério.Prudente de Morais,Neto me chamou para ser o que era antigamente “cronista social”. Era tudo muito francês – “tout en bleu”,”tout en rouge”. Eu achava aquilo uma frescura,mas,como precisava ganhar dinheiro,não pude recusar. Só não queria botar meu nome.Afinal,eu fazia esporte,freqüentava academia de boxe.Iam me chamar de sei lá o quê se me vissem falando de vestido. Digo : vou levar esse negócio na brincadeira.Preciso de um pseudônimo.Prudente de Morais disse :”Jacinto de Thormes !”
Eu não tinha lido ainda Eça de Queiroz. O que me impressionou,depois,é que o Jacinto de Thormes do romance de Eça de Queiroz “A Cidade e as Serras” é precisamente um camarada que vive em Paris mas permanece apegado ao lugarejo de onde veio. Já Eça de Queiroz viveu em Paris e em Londres.Não gostava de viver em Portugal.Era um sujeito esnobe,um grande escritor que escrevia numa língua que infelizmente não tinha a repercussão que ele gostaria que tivesse”.
GMN : O senhor é apontado como o criador da primeira coluna social moderna do jornalismo brasileiro.De onde surgiu esse estalo ? Você criou a coluna sob influência americana ?
MM : “O personagem que criei tinha um cachorro chamado William Shakespeare Júnior – que me acompanhava de verdade.Fomos a boates juntos.Era um cão muito educado. O personagem Jacinto de Thormes era uma maneira de me defender,porque o que eu queria era ser escritor.
O Rio de Janeiro era capital da República.Comecei a freqüentar o Senado e a Câmara dos Deputados,os homens de negócio.Passei a incluir esse mundo dentro das brincadeiras,as coisas mais suaves que eu fazia na coluna.A lista das dez mais elegantes era coisa americana. Mas as listas dos americanos não tinham a dimensão que as listas ganharam aqui no Brasil.Quando eu saía,as pessoas me paravam na rua para discutir a lista”.
GMN : A criação desse formato de coluna foi influência americana ?
MM : “Mas claro ! Eu lia sobretudo o New York Times e o Washington Post e –de vez em quando – os jornais de Los Angeles,porque traziam a cobertura de cinema. As colunas que me influenciaram eram publicadas por esses jornais.Mas eu não podia fazer igual. Tinha de adaptar. Porque nos Estados Unidos havia colunistas que tinham um poder terrível : derrubavam fábricas,derrubavam shows,derrubavam pessoas.
Aqui, fiz a brincadeira de inventar Jacinto de Thormes . As colunas americanas já tinham o formato de notas sincopadas.Devo dizer que o Rio de Janeiro tinha uma personalidade. Se estivessem no Rio,aqueles colunistas não escreveriam como escreviam nos Estados Unidos . O Rio era uma das cidades mais divertidas do mundo,como disse a revista Time. A cidade tinha,além da praia,os cassinos,os grandes shows e um lado que faço questão de citar : a cultura. Basta lembrar que Getúlio Vargas convidou Gustavo Capanema para ser ministro da Educação e Cultura. Capanema simplesmente pediu a Carlos Drummond de Andrade que fosse chefe de gabinete.
O Modernismo –que foi paulista- veio explodir no Rio. Todos os grandes escritores, os Portinari,os Villa-Lobos,não apenas atuavam no Rio : a gente convivia com eles. É a diferença.Não era o intelectual lá e o social aqui. Evidentemente,havia na sociedade coisas fúteis.Mas eles participavam das revistas,havia o costume de todos irem ao Municipal para ver balé,ver ópera”.
GMN : O senhor,que escolheu tantas elegantes,pode citar qual foi a figura mais deselegante que conheceu ? Qual é o
sinal de deselegância que mais incomoda você ?
MM : “Quando eu ia fazer a lista,eu levava em conta também a inteligência. O que me incomoda ? É a bonita e burra.Tenho horror a esse tipo de coisa.É a pessoa que se preocupa demais com a aparência,a ponto de não saber fazer outra coisa.Sempre digo : uma grande dama é sempre uma grande dama sem querer.De propósito,não é nunca ! Porque não conseguirá comprar elegância,não conseguirá adquirir essa qualidade fazendo divulgação de si mesmo.
Uma pessoa não elegante pode ter boas maneiras.É outra coisa.Pode ser educada.É outra coisa.Pode ser culta.É outra coisa.Mas elegância reúne quase que todas essas qualidades – inclusive cultura !”.
GMN : Qual foi a personalidade mais surpreendente que você conheceu ? Alguém que tenha surpreendido você no bom ou no mau sentido ?
MM : “Vou dizer : Ibrahim Sued. Começou como fotógrafo.Era um sujeito humilde,com pouca escolaridade.Conseguiu uma coisa formidável. Eu,que comecei dez anos antes de ele surgir no jornalismo,percebi que ele tinha um fato jornalístico incrível.Podia ser ignorante.Mas de burro não tinha nada.Um dia,olhou para minha biblioteca.Perguntou : “Diga-me uma coisa : para que serviram,na sua carreira,esses livros todos ? “.
Sob o ponto-de-vista de Ibrahim,era uma pergunta excelente. Uma vez,eu disse a ele : “Você fatura até erro de concordância”. Ele me respondeu : “Você sabe Português mas não fatura nada”.
Ibrahim tinha toda razão. Era um camarada surpreendente”.
GMN : Quem freqüenta a alta sociedade,como o senhor freqüentou,inevitavelmente ouve e vê segredos impublicáveis.Que segredo impublicável o senhor poderia contar hoje,tanto tempo depois ?
MM : “É difícil falar. São coisas tão grandes que os nomes vão acabar vindo à tona. Fatos verdadeiramente nacionais.Não quero fazer autobiografia,porque ou falo das coisas ou não falo.Não dá para contar pela metade.
Havia um presidente da República,casado com uma mulher muito bonita,que,um dia,saiu de carro com alguém.Os dois deviam ter bebido um pouco. O presidente tinha dado o automóvel novinho à moça. Os dois estavam usando o carro pela primeira vez.Imagine : um presidente e uma moça. Lá pelas tantas,ela disse : “Você sabe que eu acho esse carro uma porcaria ? “ . O presidente respondeu : “Então,bata aí”. A moça bateu numa árvore,com o presidente dentro. Quebrou o carro”.
GMN : Presidente casado com primeira-dama bonita só existiu um ....
MM : “Pelo amor de Deus ! Para que eu fui falar nesse troço !!!”.
GMN : Darcy Ribeiro dizia que a gente tem aqui no Brasil uma das elites mais cruéis do mundo.O senhor –que conviveu com nossa elite no que ela tem de bom e de ruim - assinaria embaixo desse julgamento ?
MM : “É preciso ver nossa história. Os ingleses que saíram para os Estados Unidos foram formar um lugar,um país.O patriotismo americano é impressionante.Vê-se bandeira por todo lado. Já os jesuítas vieram ao Brasil por uma questão de ordem. Os portugueses não vieram fundar nada.Vieram tirar o que era possível tirar,assim como os espanhóis.A diferença é essa : em vez de dar,tiraram.
Nós também não conseguimos tomar certas decisões nacionais que exigem personalidade. Falta igualmente uma unidade. São Paulo trabalha,o nortista emigra,a Bahia se diverte,o Rio Grande do Sul comanda,o Rio de Janeiro vive e Minas Gerais conspira.As diferenças podem até ser fantásticas.Mas não há no Brasil uma união de idéias – o que termina se tornando uma grande dificuldade brasileira.A elite brasileira não é uma só.São várias as elites.De vez em quando,são péssimas.Em áreas importantes sob o ponto de vista popular,como no futebol,por exemplo,a elite não pode ser pior do que é agora”.
GMN : Se Maneco Muller,fosse escrever hoje sobre Jacinto de Thormes,qual seria o primeiro parágrafo ?
MM : “Jacinto de Thormes foi uma farsa,um mentiroso,não era nada aquilo. Criou aquele negócio.O pior é que pegou.Todo mundo veio atrás.
Fico contente com o que fiz. Jacinto de Thormes carregou Maneco Muller nas costas. Mas sem Maneco Muller,seus erros,seus pecados,seus vícios e algumas qualidades,o Jacinto de Thormes não teria existido”.
GMN : O senhor considera o Jacinto de Thormes pai dos colunistas sociais que estão aí hoje ?