junho 28, 2007

O NOME CERTO NÃO É PITBOY

Ninguém perguntou, mas declaro, diante deste egrégio tribunal, que tenho horror a cachorros. Os bichos só são toleráveis em cinema. Não existe nada pior que cachorro fungando a perna dos outros dentro de elevador. Se houvesse justiça nesta planeta desperdiçado, quem botasse cachorro dentro de elevador pegaria cinco anos de cadeia automaticamente, sem direito a apelação.

Mas devo confessar uma admiração secreta por um gesto nobre que os cachorros praticam todo dia, no anonimato, longe dos olhares dos citadinos.


O cenário: aquelas estradas barrentas do interior. Ali, os cachorros praticam um exercício admirável, pela persistência: toda vez que é despertado pelo ronco de um motor, o vira-latas de plantão dispara atrás do carro e começa a latir, desesperadamente. Jamais alcançará os carros, porque não terá força nem velocidade para tanto, mas, ainda, assim, corre e late a cada vez que o ronco de um motor o desperta da modorra. É assim o dia inteiro. Quantas centenas de vezes não vi esta cena ?

Depois de correr cem metros atrás da roda, o cão desiste, exausto, enquanto o carro se afasta.
O bicho perdeu a batalha contra a máquina. Mas basta que o ronco do motor anuncie a passagem de outro carro para que o cão sarnento se apresente de novo para a perseguição inútil.

A beleza do gesto é justamente esta : a coragem de persistir na inutilidade . Porque não existe exercício tão inútil quanto o de cães vadios perseguindo a roda dos automóveis na beira de estradas do interior do Brasil. Mas, sem esperar medalhas da humanidade, eles persistem. É uma lição silenciosa para nós, fracos de espírito que cambaleiam diante do primeiro fracasso.

O cão fracassa todo dia, mas corre, late, faz barulho.

Acabo de descobrir um sentido para a vida: uivar - feito os cães das estradas do interior - diante de cada impostura, cada incômodo, cada fracasso, cada empulhação. Pode ser um belo exercício. Não precisa incomodar os vizinhos. Basta um uivo inaudível. É inútil, porque os carros continuarão passando, indiferentes. Mas vale o protesto.

Em homenagem aos cães sarnentos das beiras de estrada do interior, a humanidade deveria uivar todo dia para a lua ( "Um Cão Uivando para a Lua" é o belo título do livro de Antônio Torres - que li, ainda nos anos setenta, entre uma aula e outra).

Minha ojeriza aos caninos comporta outra exceção: preciso levantar a voz em defesa de um cachorro chamado Boy. Quando eu era criança, no século passado, havia em minha casa um cachorro branco que tinha este nome. Nunca fez mal a ninguém. Numa noite de São João, assustado com o ruído dos fogos, Boy fugiu. Jamais foi encontrado. ( Música triste. Cena trash. Câmera percorre rua iluminada por fogueiras de São João. O olhar de um menino procura na paisagem sinais do cachorro. Nada. Créditos começam a rolar. Luzes do cinema se acendem. Uma mulher disfarça o choro, com vergonha do vexame).

Se eu escrever outro parágrafo, ganharei o Troféu José Mauro Vasconcelos de pieguice animal.

Por que tanta divagação sobre cachorros?

Por um motivo:

Por uma questão de justiça, recuso-me formalmente a dar o título de Pitboys a estes bichos que tentam matar empregadas domésticas em pontos de ônibus. Boy, em minha geografia sentimental, é o nome de um cachorro manso que fugiu de casa com medo do som dos fogos de artifício de uma festa de São João.

Pitboys,não. Pitnazis. É melhor assim.

Posted by geneton at 01:15 PM

junho 24, 2007

UMA SOPA DE TAMANCO: UM NOVO BLOG, PARA ESQUENTAR O INVERNO

É só clicar no link ( você não vai perder a viagem) :


http://www.sopadetamanco.blogspot.com/

Filosofada barata para embalar o sono :

O grande mal causado pelos apóstolos da Patrulha Politicamente Correta (PPC) é o seguinte: como virou pecado ferir as chamadas "susceptibilidades alheias", tudo passou a ser tolerado, tudo passou a ser nivelado por baixo. Tragédia.

Os fundamentalistas desta seita querem porque querem fazer o resto da humanidade acreditar que nada é ruim, nada é feio, nada é insolúvel, nada é insuportável. Todo mundo é igual. Todo mundo é talentoso. Todo mundo é gênio.

Acabo de sentir um leve tremor de terra. Colo o ouvido no chão, feito índio, para descobrir de onde vem o mini-abalo sísmico. Descubro. Vem dos lados do Cemitério São João Batista. Só pode ser Paulo Francis dando voltas no túmulo à simples menção da sigla PPC.

Se os cães de guarda da PPC conseguissem espalhar seus equívocos pelo planeta, a civilização regrediria três séculos. Mas não vão conseguir, porque, no fundo, só conseguem arrancar risos entediados da platéia.

O Sopa de Tamanco não quer perder tempo com estes apóstolos de uma idéia só. Em respeito aos preceitos da Mentalidade Politicamente Correta, o Sopa de Tamanco promete que não os chamará de idiotas.

Igualmente, o Sopa de se absterá de dizer que menininho de sandália cantando Asa Branca é insuportável ; tema da vitória de Ayrton Senna em ritmo fúnebre deveria ser proibido por lei; presidente da República fazendo apologia da ignorância é um escárnio ; jornalista que deixa suas crenças políticas contaminarem seus critérios editoriais deveria sair da redação algemado ; deficiente físico tentando praticar esportes que exigem habilidades acima de suas forças é constrangedor ; defensores de boas causas ecológicas são soporíferos ; mulher com peito turbinado de silicone é um atestado ambulante da ausência de neurônios ; celebridade que posa no quarto de dormir para revista que será folheada na sala de espera de dentista provoca náuseas.

A lista daria para encher tomos e tomos.

Mas o Sopa se absterá.

Calma, estômago velho de guerra. Pare de se revirar. Você não viu nada ainda.

Posted by geneton at 09:21 PM

junho 23, 2007

A BALADA DO BEATLE QUE FICOU SOZINHO : O DEPOIMENTO COMPLETO DE PETE BEST

Ver seção Entrevistas:

http://www.geneton.com.br/archives/000223.html

PETE BEST.jpg

Posted by geneton2 at 08:38 PM

PETE BEST, EX-BEATLE

JOHN, PAUL, GEORGE E......PETE! ( OU : A BALADA DO BEATLE QUE FICOU SOZINHO)

O ex-Beatle conta a história sincera do maior grupo de rock surgido até hoje! – Uma aventura com John Lennon na Alemanha: roubar a carteira de um fã endinheirado! – O trauma da saída dos Beatles – “Paul McCartney era mesquinho!” – As críticas a Ringo Starr – O que os Beatles esperavam no início da carreira – Quais eram os gurus do grupo – Os bastidores de dois anos de convivência diária com John, Paul McCartney e George Harrison - Os olhos cheios de lágrimas na hora de falar de Lennon.

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5beatles.jpg


O trabalho de repórter deu, a este beatlemaníaco, a chance de passar uma manhã ouvindo as confidências do Beatle que perdeu o bonde : Pete Best, o baterista que, depois de dois anos tocando com o grupo, foi substituído por Ringo Starr. Já foi chamado de "o homem mais azarado do mundo". Deixou de ganhar rios de dinheiro. Enquanto os outros conquistavam fama planetária, Pete Best ligava o gás do banheiro para tentar o suicídio. Os meus arquivos implacáveis guardam a transcrição completa da entrevista ( eu teria uma nova chance de entrevistar Pete Best anos depois, em Liverpool, em plene Mathew Street, a rua onde existia o Cavern Club. Ao final desta segunda entrevista, Pete Best nos convidou - a mim e ao cinegrafista Paulo Pimentel - para beber uma cerveja num pub que fica em frente ao Cavern. Lá pelas tantas, confessou: assim que recebeu a notícia de que saíra dos Beatles, foi a este mesmíssimo pub para afogar as mágoas bebendo. Pensei: quem diria que um dia um ex-beatle estaria afogando suas mágoas, diante de um copo de cerveja, justamente comigo.....). A entrevista que se segue foi gravada em Londres.
Como diria a revista Veja, "eis o relato" deste repórter:

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Há quem diga? Não, nem pensar: não há quem diga que aquele hóspede que, agora, toma café com leite instalado solitariamente num imenso salão do andar térreo do Royal Horse Gardens Hotel, em Whitehall Court, Londres, tenha sido co-fundador e instrumentista do maior e melhor grupo de rock surgido até hoje no Planeta Terra. Sozinho, absorvido pela leitura de um jornal, ele nem nota o trânsito de executivos norte-americanos do outro lado do salão, em direção à entrada principal do hotel.

Não fosse pelo traje informal, bem que Pete Best (Madras, Índia, 24/11/1941) poderia ser confundido com um destes executivos por um transeunte desavisado. A confusão, a bem da verdade, não seria tão absurda: o ex-Beatle Pete Best passa os dias sentado atrás de um birô, no Old Swan Job Center, uma agência de empregos estatal de Liverpool, onde trabalha desde 1969.

O caminho entre o posto de baterista dos Beatles - ao lado de John Lennon, Paul McCartney e George Harrison - e os afazeres de funcionário público não foi nada fácil. Deixou traumas profundos - incluída, aí, uma tentativa de suicidio. Ninguém é de ferro. Quem passaria sem marcas pela experiência de deixar de ser um Beatle do dia para a noite para se tornar um funcionário público?

A saída de Pete Best dos Beatles, depois de dois anos no grupo, é um ponto obs- curo na história dos 'quatro rapazes de Liverpool '. Ninguém sabe ao certo, até hoje, por que Pete Best foi trocado por Ringo Starr. Os jornais da época documentam que Pete Best era um ídolo entre os fãs dos Beatles. Quando a notícia de que ele tinha saldo do grupo começou a circular, os beatlemaníacos promoveram uma manifestação pública, com faixas e cartazes, para que ele fosse reintegrado ao grupo.

Tempos depois, John Lennon se penitenciou, numa entrevista, sobre a maneira como Pete Best foi afastado do grupo: nem ele nem Paul McCartney nem George Hamson se deram ao trabalho de comunicar a Best que, a partir dali, o posto de baterista ficaria com Ringo Starr. Quem deu a notícia foi o empresário dos Beatles, Brian Epstein. Pete Best foi para um pub, beber. Depois, seguiu para casa. Passou a noite chorando.

Mas ninguém é um ex-Beatle impunemente. Pete Best é citado com destaque na copiosa bibliografia sobre os Beatles publicada na Inglaterra. Quando viajou de Liverpool a Londres, para lançar um livro em que dá um depoimento pessoal sobre os primeiros anos dos Beatles, ganhou largos espaços no "The Times", foi convidado para aparecer na BBC em rede nacional e não é só: a CBS norte-americana entrou no páreo para disputar, na agenda de Best, um horário para uma entrevista. O mito dos Beatles subsiste bravamente ao tempo.

O ex-beatle vai começar a falar. Parece surpreso por ter sido procurado, pela primeira vez, por um repórter brasileiro. E entusiasmado: a entrevista termina se estendendo por toda a manhã, para desespero da assessora de imprensa que o acompanhava, preocupada com a falta de tempo para o cumprimento de outros compromissos.

Best faz confidências, descreve até episódios pouco recomendáveis que viveu com um velho companheiro de aventuras chamado John Winston Lennon. Quando termina a entrevista, Best sai do hotel e caminha, anônimo, pela Whitehall Court. Reclama do frio. "O último inverno foi terrível". Quer saber quem é quem na música brasileira. Brinca: "Lá deve ter estrelas de rock. Talvez não tão boas quanto as de Liverpool ... ".

Best nasceu na Índia por puro acaso. O pai, um ex-promotor de lutas de boxe em Liverpool, tinha sido enviado à India pelo governo inglês, durante a Segunda Guerra Mundial, para trabalhar como preparador físico do exército. Lá, casou com uma indiana que prestava serviços à Cruz Vermelha Internacional. Teve dois filhos com ela. Assim que a guerra acabou, voltou para Liverpool. Anos depois, na casa da família Best, a de número oito numa rua chamada Hayman's Green, começava a funcionar um clube de jovens batizado de 'Casbah' e freqüentado por dezenas de adolescentes deslumbrados com guitarras elétricas.

Pete Best e a mãe - que até hoje mora na casa - se encarregaram de organizar o clube. Entre os freqüentadores, três rapazes, chamados John Lennon, Paul McCartney e George Harrison.

A casa da família Best ia entrar para a história do rock. Pete também. O endereço faz parte do périplo cumprido até hoje por beatlemaníacos de todas as nacionalidades que visitam Liverpool à procura de estilhaços do sonho. Mas ali, no começo da década de sessenta, a aventura estava apenas começando.

Quem convidou você a entrar para os Beatles?

Pete Best: "Era agosto de 1960. Nesta época, tinha surgido o convite para a viagem dos Beatles à Alemanha, a primeira excursão do grupo a Hamburgo. Eles não tinham baterista. Paul McCartney sabia que eu tocava e me disse, ao telefone: "Pete, surgiu uma chance de ir para Hamburgo. Você gostaria de vir conosco? Precisamos de um baterista!". Eu disse: "Sim!". Paul me convidou para que eu fizesse uma apresentação para eles. Durou cerca de quinze minutos. Toquei seis músicas. Em vinte minutos, eu era um Beatle. Dois dias depois, nós todos estávamos em Hamburgo, no Indra Club".

Você já conhecia Paul McCartney antes do telefonema?

Pete Best: "Sim. Paul, John, George e Sutcliff - que morreu tragicamente - tinham formado os Quarrymen, um grupo que tocava num clube criado por minha mãe, chamado Casbah. Eu já os conhecia daí. E, já antes, eles tinham nos ajudado a decorar o clube. Dois anos antes de ser um Beatle, eu já os conhecia".

Quando foi convidado, qual foi a primeira reação: você pensou duas vezes ou aceitou logo?

Pete Best: "Era o caso de dizer sim de primeira. Meus pais estavam lá. Havia o convite para ir à Alemanha. Eles me disseram: "Então, ok! Se você quer, vá em frente!". Tudo foi rápido. Paul já tinha me dito: "Vamos à Alemanha! Antes, faça urna apresentação pra gente". Tudo foi resolvido assim, em questão de minutos".

Você esperava, naquele momento, que a música dos Beatles fosse significar algo de especial?

Pete Best: "Não sei o que esperávamos naquele tempo. Quanto mais ficávamos juntos, mais tínhamos um sentimento unânime: uma autoconfiança maior do que qualquer outra coisa. Nós iríamos chegar a algum ponto! Bem que poderia ser o primeiro lugar, pelo menos uma vez, nas paradas inglesas. Mas eu não achava que eles próprios, neste tempo, imaginassem que os Beatles pudessem se transformar em superstars - apesar de outras pessoas demonstrarem crença no grupo".

Que tipo de comentário John Lennon fazia sobre música, com você, neste período? Ele era bem informado?

Pete Best: "Todo o grupo tinha o que poderíamos chamar de habilidade musical. John estava interessado em nomes como Chuck Berry e Gene Vincent. Éramos bons guitarristas e bons vocalistas. Todo o grupo era. John - eu sentia, pelo meu gosto pessoal - era o líder do grupo".

Elvis Presley significava o quê, para você?
Pete Best: "Era o ídolo de cada rapaz na Inglaterra. Nós, os Beatles, gostávamos de Gene Vincent, Chuck Berry, Elvis Presley, Little Richard, Jerry Lee Lewis, todos. Nós estávamos construindo o nosso estilo tocando a música que eles faziam. Era o padrão americano - no qual nós nos baseávamos".

Os outros Beatles tiveram ciúme de você? Os jornais de Liverpool davam sempre um destaque especial a você e falavam do grande sucesso que Pete Best fazia com as fãs...

Pete Best: "Quando saí dos Beatles, chegavam para mim e diziam: "Você não notou, mas havia tantos fãs seguindo você que o ciúme já começava a aparecer!". Era o que me diziam".

Você, afinal, era tão popular assim em Liverpool?

Pete Best: "Era algo de que eu tinha consciência na época. Houve uma grande manifestação em frente ao Cavern Club, com cartazes como "Pete Forever!", "Ringo Never!" e coisas assim. E aí eu percebi que sim, eu estava me tornando popular".

Você chegou a ter problemas pessoais com os outros Beatles?

Pete Best: "Não. De maneira nenhuma! Não chegamos nunca a brigar. O que tínhamos eram as discussões normais entre músicos sobre as músicas que estávamos tocando. Não chegamos a ter brigas sérias. Neste tempo, nós estávamos ganhando força. Eu pensava: "Somos quatro rapazes. Somos os Beatles. Continuaremos a ser".

Você culpa alguém por ter saído dos Beatles depois de dois anos tocando no grupo?

Pete Best: "Quando viam o que tinha acontecido,as pessoas me diziam: "O mais passível de culpa pode ser Paul McCartney". Não me interprete mal! (neste ponto, Pete Best assume um ar sério, faz questão de pronunciar cada palavra pausadamente). Não se pode virar para ele e dizer: "Foi ele!". Isto pode ser totalmente falso, porque, na verdade, eu não saberia dizer. Mas me diziam: "Paul é o que teria mais tendência de ficar
enciumado se alguém dentro do grupo se tornasse mais popular".

Você esperava o enorme sucesso dos Eeatles ou tudo foi uma surpresa para você, quando aconteceu?

Pete Best: "Eu imaginava que poderíamos estourar nas paradas inglesas. Era a maior façanha que poderíamos cometer, pelo que eu sentia. Mas atingir o primeiro lugar na Europa logo depois da minha saída, conquistar a América e o mundo com a Beatlemania, tudo me surpreendeu. Os Beatles tinham o talento e também a promoção da mídia por trás. Tudo estava a favor do grupo. Era, portanto, uma bola de neve. E a partir daí
criou-se a Beatlemania".

"Quando viam o que tinha acontecido, as pessoas me diziam:
"A culpa pode ser de Paul McCartney"

Depois de deixar os Beatles, você teve algum tipo de contato com John Lennon, Paul McCartney e George Harrison?

Pete Best: "O engraçado é que não. Uma vez, quando a BBC fez um filme no Cavern Club, logo depois de eu ter saído do grupo, encontrei com eles. Houve outras ocasiões, como no Majestic BalI Room. Eu já fazia parte de um grupo chamado All Stars. Era o segundo melhor grupo de Liverpool, depois dos Beatles. Nós nos apresentamos, todos, num só show de entrega de prêmios. Quando o All Stars estava saindo do palco, os Beatles estavam chegando. Nós nos cruzamos, a poucos centímetros. Não se trocou nenhuma palavra.

Desde o dia 15 de agosto de 1962, não tive contatos com John, Paul e George. Jamais recebi uma explicação satisfatória sobre o episódio da minha saída. Durante os dois anos como um dos Beatles, jamais ouvi de qualquer um deles qualquer restrição à minha atuação como músico. Aliás, bem na época da minha saída, logo antes, nós estávamos todos bebendo juntos e parecíamos os melhores amigos do mundo. Depois, ao ler o livro de Brian Epstein, o empresário que levou os Beatles para o sucesso, vi que ele escreveu o seguinte: eu era "bastante convencional para ser um Beatle e, embora bastante amigo de John, não o era de George e Paul"... Já outras pessoas estavam convencidas de que eu fui retirado do grupo porque me recusei a mudar o corte do meu cabelo...
Quando nos cruzamos, na saída do palco, o que houve foi um silêncio de pedra. Não os vi mais".

Você é parte da história dos Beatles. Quando o grupo se separou, que reação você teve?

Pete Best: "Isto me surpreendeu. Naquele estágio, com toda a organização montada, o grupo continuava indo em frente. A popularidade estava lá! Eles tinham deixado de fazer excursões, estavam só gravando discos. Mas é certo que terminariam voltando para a estrada. Com a Beatlemania e os fãs, eles poderiam ir adiante ainda".

Mas, quando ouviu a notícia de que os Beatles tinham se separado, o que foi exa- tamente que você sentiu? Você tinha passado por uma situação parecida...

Pete Best: "Fiquei sem entender. Tive uma surpresa. Por que eles tinham se separado? Tudo caminhava a favor dos Beatles. Eles ainda eram os Beatles, os fãs todos estavam em volta. Mas só depois é que entendi que havia problemas entre eles. As discussões que já existiam internamente eram suprimidas pela publicidade - que apresentava os Beatles como os quatro rapazes que circulavam pelo mundo..."

Que lembrança mais forte você guarda da longa convivência com John Lennon?

Pete Best: "As mais fortes são do tempo em que fazíamos farra juntos, principalmente quando estávamos na Alemanha, na primeira viagem que fizemos para lá. Nós tínhamos pouco dinheiro (ri). Numa noite, um marinheiro alemão foi ver uma apresentação nossa. Pagou uma rodada de cerveja para nós, os Beatles, como os alemães gostam de fazer. Nós vimos, então, o tamanho da carteira do tal marinheiro: era gorda e recheada. John pensou: "Vamos roubá-Ia!". Nós discutimos a idéia. Para mim e para John, parecia boa. Paul e George não pareciam tão convencidos, porque achavam perigoso. Eram quatro da manhã quando o marinheiro de carteira cheia resolveu ir embora. Nós quatro - eu, John, Paul e George - saímos no frio de novembro para segui-Io. Quando nos aproximamos de um estacionamento deserto, o local ideal para o "golpe", Paul e George resolveram ir embora. George dizia que estava cansado. Eu e John avançamos em cima do marinheiro - que não estava tão bêbado quanto esperávamos... Tanto é que ele reagiu imediatamente. John deu um soco no marinheiro - que ficou de joelhos. Eu tentei agarrar a carteira cheia de dinheiro. Mas o marinheiro, um homem de experiência, logo ficou de pé de novo. Deu um empurrão em Lennon - que foi parar longe. E meteu a mão por trás da calça. Nós vimos que ele ia apanhar um revólver. Nós ainda avançamos de novo sobre ele com as cabeças protegidas. Ele começou a disparar. Tudo que a gente queria naquele momento era ir embora dali correndo. Por sorte nossa, o revólver apenas expelia gás. Era um tipo de revólver que se usava em Hamburgo para defesa pessoal. Nunca esqueci esta história, porque é um bom exemplo de como éramos impossíveis e selvagens o bastante para fazer uma coisa desta. Há um Iado humorado nesta história. E também um lado amargo - que mostra o quanto desesperados nós éramos. Quando olho para trás, vejo: Lennon era o rapaz! Que loucura!.

Sempre houve dois lados de John Lennon. Um era o lado público, o John sarcástico, abusivo. Mas há um outro lado - que conheci bem quando convivemos. Era um lado mais amável. Nós nos sentávamos e discutíamos sobre namoradas e o que sentiríamos quando estivéssemos longe delas... um lado que não se nota tanto. Nós nos sentávamos num clube. Se tínhamos acabado um namoro, ficávamos diante de uma cerveja e começávamos a ter uma conversa sentimental. É algo que precisamos conhecer, para descobrir o outro lado de John".

Numa entrevista ao jornal "The Times", você disse que John Lennon era o Beatle de quem você mais gostava, quando estava no grupo. Por quê?

Pete Best: "Eu gostei de John já na primeira vez que me encontrei com ele, quando ele veio para o clube de minha mãe. Ele era o cômico do grupo, fazia qualquer coisa por uma boa gargalhada. Nós nos demos tão bem que, quando voltamos a Liverpool depois das apresentações em Hamburgo, ele ficou lá em casa. Nós pegávamos drinques e Coca-Cola no clube - que era bem embaixo da minha casa, em Liverpool. Nós nos sentávamos, ouvíamos as músicas juntos, saíamos para tomar alguma coisa. Era uma relação de camaradagem. É por esta razão que eu gostava mais de John".

Você era melhor músico que os outros, naquele tempo?

Pete Best: "Sim. Podiam dizer: eles não me quiseram mais porque eu não tocava tão bem bateria. Ora, ainda hoje, admito que eu era melhor do que Ringo Starr. O que acontece é que, quando ocorreu a minha saída, eu não tinha poder de interferência. Tudo foi preparado já antes de Ringo vir. Algumas semanas depois, cheguei a uma situação em que Brian chegou para mim e disse: "Você não é bom baterista para o grupo. Quero chamá-Io para ficar comigo. Você já não irá tocar com os Beatles, mas há um outro grupo em Liverpool chamado Mersey Beats" - que, na época, eram os Beatles mais novos. Brian me chamou para que eu me juntasse ao grupo para transformá-lo num segundo Beatles. Ora, pode-se dizer: eu não era bom suficientemente para tocar com os Beatles. Eles me tiraram. Mas, por outro lado, eu era bom suficientemente para que Brian me chamasse para tentar fazer de um outro grupo os novos Beatles...

Dizem também que foi George Martin, o produtor dos discos dos Beatles, que teria dito que eu não era bom o bastante. Eu falei com George Martin. Ele achou, na gravação de estúdio, que aquele som não estava no ponto para os Beatles, naquele tempo. Mas ele não quis dizer que eu deveria sair do grupo. O que acontece no estúdio de gravação não faz qualquer diferença com o que acontece no palco. O argumento não cola. Não há elementos que justifiquem".

“John Lennon pensou:
“Vamos roubá-Ia!”. Para mim e para ele, a idéia parecia boa”

Você tinha mais experiência que Ringo Starr?

Pete Best: “Eu não diria que era "maior experiência". Eu desenvolvi, na Alemanha, um estilo marcante. Quem ouvia dizia: "Bem, este é o som de Mersey Beats". Algo como Beatlemania. Quando voltamos a Liverpool, os bateristas começaram a copiar este estilo - ninguém tinha tocado antes. Os grupos de Liverpool estavam tentando copiar o som e o estilo dos Beatles. Ringo vinha tocando há mais tempo como baterista. Eu tinha menos tempo. Mas era o melhor”.

Você viveu e trabalhou com o grupo que mudou a cabeça de milhões de jovens em todo o mundo. Você não vê o fato de ter sido um BeatIe como um privilégio, apesar dos problemas?

Pete Best: “Ah, sim! O que aconteceu ninguém pode levar de minhas lembranças e de minha vida. Eu fui, por dois anos, um Beatle. É parte de minha herança, parte de minha história. É algo que posso olhar, sem me importar com o que aconteceu depois, principalmente o meu afastamento. Aqueles dois anos me trazem orgulho. Sou um privilegiado, por ser parte da lembrança e da história dos Beatles”.

A imagem pública de John Lennon era a de um rebelde, talvez o único entre os BeatIes. Pelo que você conhece, é verdade?

Pete Best: “John era, provavelmente, o mais rebelde, simplesmente porque não ligava para nada. Não queria nem saber. Fazia as coisas por divertimento, por raiva, porque estava bêbado (ri) ou porque era corajoso. Mas, provavelmente, por causa da ansiedade que adquiriu. A imagem pública, naquele tempo, tendia a fazer de John mais rebelde que o resto do grupo. Ele explodia e saía da linha de vez em quando, para se fixar como o mais rebelde. Mas se levarmos tudo em consideração, havia quatro rebeldes entre os BeatIes... As ansiedades e as inquietações do comportamento de John é que o
retrataram como o mais rebelde.

O que acontece é que, ainda no tempo da escola, ele era do tipo que, se quisesse fazer alguma coisa, fazia. Depois, se ele queria ofender a platéia, ofendia e não precisava ter alguma razão para agir assim. Se alguém - até um fã - mencionava alguma coisa, ele, literalmente, perdia a paciência. E explodia com o fã. Cinco minutos depois, esquecia tudo e estava rindo e brincando com o fã. O pobre fã devia estar pensando: "Meu Deus, o que foi que eu fiz para ele de repente explodir em cima de mim?". John mudava de temperamento todo o tempo".

Todo mundo conhece os Beatles como figuras públicas. Mas eu gostaria que você fizesse um retrato falado de cada um, a partir das experiências pessoais e de convivência íntima que você teve com o grupo. Primeiro, Paul McCartney.

Pete Best: "Paul, ali, era, provavelmente, o mais ligado em "relações públicas". Era o mediador, o que queria ser o centro das atenções. Fazia qualquer coisa - como dar declarações bobas e falar com fãs. Queria estar na linha. Comparado com o resto de nós... Nós, os outros, dizíamos: se os fãs vierem, a gente conversa. Se não, tudo bem. Mas Paul fazia tudo para tentar impressionar os fãs. Já neste tempo, acredite ou não, ele era extremamente mesquinho com o dinheiro. Era o único que pensava duas vezes antes de gastar dinheiro com alguma coisa. Mas você não pode dizer que ele era culpado só porque tomava cuidado com seus vinténs... Paul, na verdade, tentava impressionar as pessoas todo o tempo, se comparado com o resto de nós".

George Harrison...

Pete Best: "Ele vivia mergulhado na música, sempre preocupado em melhorar o estilo e procurar equipamentos melhores. E melhorou. Em dois anos, conseguiu uma guitarra que ninguém tinha em Liverpool. É uma pessoa assim. Era
verdadeiramente interessado em melhorar a música e o equipamento, mas não chegou a contribuir para o grupo naquele tempo. George simplesmente acompanhava os outros. Quando dizíamos "não vamos fazer assim, mas de outro jeito" ele aceitava ...

Ringo Starr...

Pete Best: "Eu conhecia Ringo anos antes de ele se tornar um Beatle. Eu o conheci quando eu era um Beatle. Eu prestei atenção em Ringo, simplesmente porque foi ele quem me substituiu. Nós saíamos juntos em Liverpool. Ele era um sujeito que se guardava para se mostrar no palco. Mas era meio deixado de lado. Ringo pensava um bocado sobre a maneira de tocar. Não era o melhor de Liverpool. Era apenas um dos rapazes ali...".

Ringo, na verdade, ficou sempre com a imagem de o menos brilhante entre os Beatles. Você diria que é verdade?

Pete Best: "Ringo, naquele tempo, era o que ficava lá atrás. Não podia compor músicas, não tinha estilo de cantar. Nós tínhamos Lennon e McCartney - que podiam compor as músicas. George Harrison também podia. Os três tinham coisas em comum, um completava o outro. Se os Beatles tivessem continuado, Ringo estaria com eles. Mas só quando a separação ocorreu ele entendeu de repente que deveria fazer alguma coisa diferente. Por esta razão, começou a fazer filmes e a produzir seus próprios discos. Viu que a onda dos Beatles tinha acabado. Era hora de viver dos próprios recursos. É um
homem rico. Você não pode tirar a riqueza de Ringo, mas, em matéria de talento e de negócios, estava um pouco atrás dos outros. Porque os outros comandavam o grupo. Ringo estava atrás".

Brian Epstein criou os Beatles? Os que dizem que ele criou o fenômeno estão errados? Você, como ex-Beatle da época de Brian Epstein, pode dizer que tipo de influência ele teve?

Pete Best: "Como empresário, ele tinha grandes planos. Começou aos poucos mudando a imagem dos Beatles. Fez o grupo vestir paletó e tudo o mais. Tentou um bom contrato numa boa gravadora inglesa. Depois, fomos rejeitados pela DECA e pela maioria das grandes companhias. De repente, surgiu o convite da EMI, a gravadora que, afinal, lançou as músicas dos Beatles. Ali, ele era interessado. Queria progredir financeira e
profissionalmente. Acreditou nos Beatles porque gostava da música que tocávamos e das pessoas. Não é só: acreditava na música.

Tanto quanto se sabe, nós éramos melhores que Elvis Presley. É o que de fato aconteceu: os Beatles terminaram iguais ou até maiores do que tudo que EIvis Presley jamais foi. Mas quem ouvia Brian dizer que os Beatles iam ser maiores que Presley dizia: "Vamos! Que história é essa?" (faz ar de desânimo, ao imitar um interlocutor imaginário). Nesta época, saí dos Beatles e passei a ter um ponto de vista exterior sobre o percurso dos Beatles.

Dizer que Brian Epstein não era tão bom em show business porque provavelmente fez os Beatles perderem milhões de pounds é difícil. Brian pode ter sido ingênuo. As outras pessoas puderam explorar os Beatles, propor negócios ruins. Você não sabe, porque não participa dessa organização. Mas, com todo o dinheiro que possa ter perdido, Brian fez de cada um multimilionário. Ninguém pode negar! Fez daqueles caras os Beatles! Criou a Beatlemania. Não importa como ele fez, se através de promoções, trapaças no show business ou contatos. O fato é que usou todos os recursos disponíveis naquele tempo. Deve ter um crédito por tudo. Pode-se dizer que, em matéria de show business, ele não foi tão bom. Mas conseguiu - de repente - se transformar de simples dono de uma loja de discos em responsável pelos Beatles. Comandou uma organização. Brian não criou só os Beatles. Criou o sucesso dos Beatles e de outros grupos. Alguma coisa havia ali. Era um bom empresário".

“John Lennon explodia e saía da linha de vez em quando,
para se fixar como rebelde"

George Martin, o produtor dos Beatles envolvido no episódio em que você deixou o grupo...

Pete Best: "Só o encontrei uma vez, quando fomos tocar no estúdio para ele. Quando o vi depois, já não estava com os Beatles. Suas técnicas de gravação captavam a música dos Beatles bastante bem. Se você ouvir as primeiras gravações, você dirá: "Eis uma gravação é inteiramente diferente de qualquer outra coisa!". Basta comparar com os outros. Era algo original. Se foi a sabedoria de George Martin ou o brilho dos Beatles, não sei. George Martin era talentoso. Não me interprete mal. Já antes, ele tinha gravado sucessos. Mas os Beatles não faziam o tipo de música que ele tinha gravado antes. E ele entendeu - de repente - que o tipo de música dos Beatles que ele gravou como produtor era só dos Beatles - ninguém mais. George Martin progrediu a partir daí. Enquanto os Beatles avançavam, ele progredia também, através de mudanças na música. E aí veio o psicodelismo, o Magical Mistery Tour e outras coisas. George Martin até pensou em se aposentar cedo, ir morar numa ilha e só gravar quando quisesse. É sinal de sucesso".

Stuart Sutcliff, morto aos vinte e um anos de um tumor no cérebro, depois de ter tocado nos Beatles, foi a primeira tragédia na vida do grupo. Que tipo de artista era ele?

Pete Best: "Tinha talento como artista. Como pessoa, era o que se poderia chamar de um sujeito legal. Baixinho. Tinha consciência de suas limitações. E mantinha uma relação de mútua estima com o grupo. Ele se preocupava com tudo quando os Beatles atuavam; envolvia- se totalmente. Stu se apaixonou à primeira vista por uma moça chamada Astrud. A decisão de deixar o grupo deve ter custado a ele noites e noites de sono. Ele gostava de ser parte dos Beatles. Mas sempre se dividiu entre ser um artista plástico e um músico. Logo antes de sair dos Beatles, entendeu que o verdadeiro talento que ele tinha era como artista plástico. Um incrível artista. Tudo que posso dizer é que foi uma grande tragédia".

Como é que você se sente, hoje, ajudando os desempregados de Liverpool numa agência de emprego?

Pete Best: "É um outro desafio. Não é fácil encontrar trabalho para os desempregados em Liverpool. A taxa de desemprego é alta. Meu trabalho é como qualquer outro: passa por sucessos e fracassos. Eu, felizmente, posso me colocar numa posição melhor do que a maioria das pessoas, porque estive no fundo do poço, tanto quanto alguém possa estar, envolvido numa depressão total (N: em 1965, em situação financeira difícil e deprimido pela frustração de ter perdido a chance de repartir o sucesso mundial dos Beatles, Pete Best veda todas as entradas de ar do banheiro da casa onde morava em Liverpool, abre o gás e deita-se no chão, à espera da morte. Um irmão sente o cheiro do gás do lado de fora, consegue entrar no banheiro e salvar a vida de Pete Best, a esta altura já
inconsciente. Ele guardou em segredo durante vinte anos a história da tentativa de suicídio).

Embora não diga aos desempregados que me procuram o que é que eu acho, eu sei o que eles sentem. Tenho simpatia por eles. Eu estive lá, afinal! Tento ajudar os outros tanto quanto posso. É o meu trabalho. Tenho prazer - e paciência - quando tento
ajudá-Ios".

Você vive satisfeito com este trabalho?

Pete Best: "Quando deixei o show business, mudei totalmente o meu estilo de vida. Vou ser honesto: agora, posso dormir bem. Eu estive no show business desde que deixei a escola. Naquele tempo, quando resolvi dar uma parada, eu já tinha minha mulher e uma criança para tomar conta. Depois de pensar um bocado, finalmente decidi que era tempo de me dedicar a elas - e não apenas a mim. O que houve, então, foi uma ruptura completa. Desde 1968, estou inteiramente afastado do show business. Fiz apenas uma ou outra aparição em shows de TV. Meu estilo de vida, como disse a você, mudou.

Passei a viver o que podemos chamar de uma vida normal: ir ao trabalho, voltar, sair para tomar uma cerveja, coisas assim. Mas, lá no fundo, ainda existe aquela sensação: "Meu Deus, se eu tivesse continuado como um Beatle!". Hoje, penso que não faz diferença. Quando chego em casa, encontro as contas a pagar que o correio deixou embaixo da porta. Vem alguém e me diz: "pague!". E vou vivendo, afinal, todas essas coisas normais que todos vivem. Trabalho duro. Tenho orgulho de tudo. Com a vida que levo, desenvolvi o meu estilo. Faço o que quero, quando quero. Não fico remoendo o passado. É bom".

Que sensação ficou até hoje do dia em que você recebeu a notícia de que já não era um Beatle? Deve ter sido um dia doloroso...

Pete Best: "Não chegou a ser exatamente, porque foi como se uma bomba caísse na minha cabeça, assim, de repente. Só no dia seguinte é que tudo começou a entrar na minha cabeça, quando entendi que tinha acabado. Já era. É aí que a dor começa. Não se tem como voltar. Aquele terminou se transformando no dia mais doloroso, no sentido de que mudou a minha vida. Tive outros tempos duros, desde então. Mas aquele foi o dia que mudou todo o curso de minha vida. Eu me lembro bem. Era agosto de mil novecentos e sessenta e dois".

"Eu estive no fundo do poço, tanto quanto é possível estar.
A depressão era total"


O "Times" recontou a história há pouco tempo. Você foi a um pub beber umas cervejas...

Pete Best: "Umas? Muitas! (ri). Eu tinha acabado de falar com Brian Epstein, às 10 e meia da manhã. Um amigo estava me esperando do lado de fora. Recebi a notícia de que tinha saído dos Beatles e fui para fora. Meu amigo notou que algo diferente tinha acontecido comigo. Perguntou: "o que foi que houve?". Eu disse: "Eu saí! Não sou mais um Beatle!". Ele respondeu: "Meu Deus! Não pode ser verdade! O que é que aconteceu?" Eu disse: "Tudo o que quero fazer é tomar uma cerveja, afundar a minha cabeça!".

Fomos para um pub. Derrubamos um bocado de cerveja. Chegou um momento em que eu disse: "Ok! Vamos para casa!". Quando fui para casa é que senti a pancada. E comecei a chorar. Chorei a noite inteira. É o tipo do choque de efeito
retardado. Bem aí é que entendi: tudo tinha acabado" .

Por que Brian Epstein foi quem deu a você a notícia, e não um dos outros Beatles?

Pete Best: "Não sei. Anos depois, John Lennon disse: "Se todos nós estivéssemos presentes - eu, Paul e George - para dizer a Pete, haveria uma briga!". Se ele estava se referindo a socos na cara ou qualquer coisa assim, não sei. John sentia que Brian era o empresário. Cabia a ele a responsabilidade de fazer as coisas. "Então, nós passamos para você. Faça o trabalho sujo, Brian!". É assim que parece".

Você viu o filme da BBC sobre a vida dos Beatles? Nesta passagem, Lennon diz a Brian Epstein que você não era tão profissional quanto Ringo Starr. Aconteceu assim?

Pete Best: "Talvez os autores dos scripts tenham entrevistado as pessoas e reconstituído assim o curso do diálogo. Se Ringo era mais profissional ou se eu não era tão profissional quanto Ringo... tudo é uma alusão ao fato de eu estar no show business e à nossa habilidade como bateristas. O que aconteceu - do ponto de vista do filme realizado pela BBC e exibido na televisão - é que John instigava as decisões do grupo. O que de fato aconteceu no diálogo entre ele e Brian é difícil dizer".

Você entendeu o que aconteceu depois com John Lennon?

Pete Best: "Guardo o dia em que John Lennon foi baleado como uma lembrança viva. Eu estava no primeiro andar da minha casa. Fazia a barba para ir trabalhar. Minha mulher, Cat, estava no térreo. Eram seis e meia da manhã. Ela me disse, lá de baixo: "Pete! John está morto!". Aquilo não me alterou, porque não imaginava jamais que fosse John Lennon. Pensei que era um dos amigos ou alguém do trabalho. Perguntei: "John quem?". E ela: "John! John! Com quem você tocava nos Beatles!". Eu disse: "Estão brincando no rádio! É algum jogo sujo, alguma brincadeira estúpida que estão fazendo. Isto acontece no rádio!". Ela: "Não! A cada dois minutos, há novas notícias! Venha logo ouvir! Os rádios só falam em John Lennon!" (nesta altura, os olhos de Pete Best estão marejados).

Corri para ouvir. Cada estação de rádio trazia flashs e flashs e repetia a notícia, sempre com maiores informações. De repente, entendi, naquela manhã de dezembro: não era alguma publicidade suja. Aquele cara tinha sido brutalmente atingido! Houve quem me dissesse, depois: "Que diferença faz para você? Só porque você estava com os Beatles há tanto tempo?". Mas aquilo me chocou, porque trouxe de volta todas as boas lembranças de tudo que vivi com John, o bom tempo que vivemos juntos. Para ser honesto, eu conheci John inteiramente, não só no tempo em que vivi com ele nos Beatles. Nós fomos íntimos por quatro ou cinco anos. Um bom tempo que vivemos reunidos. A morte de John me arrasou. Não havia necessidade de algo como aquilo. Não havia razão alguma. Ele tinha voltado para o show business. Talvez o lugar seja de John e não de Paul McCartney. E ele estava lá de novo".

Você imagina por que Mark Chapmann matou John Lennon?

Pete Best: "Era alguém que tinha uma obsessão, uma fixação na morte de Lennon. Bang! Não posso acrescentar nada. Razão? Não há. Lennon fazia suas próprias coisas: tinha deixado o show business, vivia uma vida reclusa em Nova lorque. Não afetava ninguém! O que ele estava tentando era viver com uma identidade própria. Depois de alguns anos de reclusão ele decide voltar e bang! (imita o estampido de um revólver). Lennon agora não está mais lá. É algo completamente estúpido".


Há dezenas de diferentes versões sobre a convivência de Pete Best com os Beatles. Qual será a versão definitiva?

Pete Best: "Ao longo dos anos, a história desta época não tem sido contada em detalhes. Não se cobriu esta parte dos episódios entre o grupo no início da carreira: as tragédias, as escapadas e até as brincadeiras e tudo o mais. O livro que escrevi com Patrick Doncaster, "Beatle! The Pete Best Story", dá a atmosfera em Liverpool na época. E mostra Como éramos, antes de formarmos os Beatles. O livro mostra os primeiros sucessos e o que aconteceu comigo. A maior parte do que conto é sobre o início dos Beatles. É o que interessa mais (N: O livro "Beatle! The Pete Best Story" foi publicado pela Plexus Publishing Limited)

Por que você não tenta uma carreira solo, ainda hoje?

Pete Best: "Porque eu ficaria um pouco assustado! Gosto do meu trabalho atual. Preciso levar em conta uma coisa: hoje, consegui "segurança". É um mundo engraçado. Por que é que eu tenho de encarar as coisas dessa maneira? É preciso ter sorte para que dê certo voltar ao show business depois de não fazer nada por vinte anos. Eu já considerei o que uma eventual volta poderia ser. Mas não sei. Eu passaria noites mal dormidas...".


Como um ex-Beatle, o que é que você diz da música pop de hoje? É melhor do que a dos anos sessenta?

Pete Best: "O engraçado é que, vinte e tantos anos depois, os grupos de Liverpool ainda se dão bem. "Frank Goes To Hollywood" faz grande sucesso nos Estados Unidos e chega aos primeiros lugares. Durante os anos, a preferência musical tende a mudar. Hoje, há de novo uma maior influência americana nas paradas, como já não acontecia há alguns anos.

Naquela época, era fácil os grupos ingleses irem para lá, mas era difícil os americanos chegarem à Inglaterra. Eu acompanho a cena pop. A competição, hoje, é maior, assim como a diversificação da música pop. Há bandas, sintetizadores, músicas folclóricas. A variedade é grande. Ainda assim, o panorama é bom".

Mas o tempo dos grandes nomes, como os Beatles e Elvis Presley, parece que acabou...

Pete Best: "Você pode dizer o contrário. Tenho 43 anos e minha herança e minha juventude vêm dos anos sessenta, não importa o que tenha acontecido nem que aquela já não seja a música que se tem hoje. Quando ouço alguma coisa dos anos cinqüenta ou sessenta, eu me acendo (dança com as mãos, animado). Há quem diga que nunca haverá outro Elvis Presley, outros Beatles. Antes, falavam assim de Frank Sinatra. Mas pode haver um outro grupo que, vindo de algum lugar, conquiste o mundo de repente. Se será com a intensidade dos Beatles, não sei. Mas você não pode escrever que ninguém chegará lá. Porque pode haver algo como os Beatles, deixando tudo para trás e
explodindo como mega-star".

Você ainda ouve as canções dos Beatles?

Pete Best: "A gente ouve no rádio, de qualquer maneira. Tenho, na minha coleção dos Beatles, quase tudo o que o grupo fez. Tenho, principalmente, os discos em que toco com eles, as gravações todas feitas em Hamburgo (ri) e tudo o mais. Tenho cinco ou seis discos, "Love Me Do", coisas assim, o tipo de música que me lembra o som que nós fazíamos juntos, nos Beatles, não o que eles fizeram quando evoluíram para o psicodelismo, as drogas, a influência dos gurus".

Você ouve as canções de Julian Lennon?

Pete Best: "Não ouvi o primeiro disco todo, mas faixas. Quando ouvi pela primeira vez, disse: parece com o que John fazia! Minha primeira reação foi esta. Julian se baseou no estilo do pai. O tom nasal e as coisas que ele faz quando fora do palco. Acredito em Julian. Você não pode dizer que ele apenas pegou carona no pai. Não é o caso de dizer: morreu John, chegou Julian! Entre uma coisa e outra, há um espaço de quatro anos. Mas Julian veio com um som que lembra John. Boa sorte para ele!".

Uma velha questão: Beatles ou Rolling Stones? Com quem você fica?

Pete Best: "Do meu ponto de vista, Beatles. Não estou dizendo simplesmente porque toquei com os Beatles. Mas o que ocorreu é que são dois grupos que surgiram simultaneamente, com dois estilos diferentes. Há os fanáticos pelos Beatles e os fanáticos pelos Rolling Stones. Ao longo de todos estes anos, os Rolling Stones vêm fazendo, ainda, excursões e shows ao vivo. O público ainda pode vê- los. Se os Beatles ainda estivessem juntos, poderiam estar fazendo todas essas coisas? Não sei. Gosto dos Rolling Stones, mas, entre os dois, eu escolheria os Beatles!".

O livro “Beatles-In Their Own Words” traz a seguinte declaração de Ringo: “Quando Pete Best ficava doente, eu assumia o posto”. É verdade?

Pete Best: "Fica até parecendo que eu era urna pessoa doente... Ringo, quando fala assim, provavelmente se baseia em dois ou três casos, no máximo. Urna vez foi numa apresentação no Cavern Club. A minha ausência não chegou a causar grandes inconvenientes para eles, porque havia outros bateristas. Outra, quando eu tinha negócios para resolver e não podia deixar de fazê-lo. Não pude tocar. Quem tocou foi Ringo, no meu lugar. E, finalmente, houve um dia em que eu estava lmpossibilitado de atuar, porque tinha pegado uma gripe forte. Não se pode dizer que eu vivia doente. Pelo contrário. Eu era saudável. É errado dizer coisas assim. Quando não pude tocar e fui substituído por ele não foi porque estivesse doente, mas porque tinha outros compromissos e ele, pelo contrário, estava disponível naquele dia".

Uma das histórias sobre John Lennon é que ele vivia à procura de uma mãe - e afinal encontrou uma na figura de Yoko Ono. Naquela época, em Liverpool, você notava esse lado da personalidade de Lennon?

Pete Best: "Nós tínhamos consciência. Mas John jamais falava sobre a mãe e a maneira trágica como ela foi morta, num acidente. Ele vivia com uma tia, chamada Mimi. Mas se dizia que a raiva, a amargura e a dor que ele suprimia e guardava dentro de si o levaram a fazer coisas loucas. John não falava sobre essas coisas, porque não queria. Guardava tudo consigo. A agressividade, a ansiedade e a dor teriam de ser externadas de alguma maneira. É esta a razão de alguns atos cometidos por John".

Yoko, pelo que você sabe, teve influência sobre a dissolução dos Beatles?

Pete Best: "John tendia a se apaixonar demais pelas mulheres. Yoko parecia significar estabilidade para ele. Era um outro mundo para John. Eles se trancaram e encontraram a felicidade. Qual terá sido a influência de Yoko para fazer John retornar? Quem sabe? Mas há ali, em Yoko, alguma coisa que John encontrou e o influenciou".

Como você se imagina quando tiver 64 anos?

Pete Best (rindo da referência à música "When I'm Sixty Four"): "Quando eu tiver sessenta e quatro anos? Terei algumas rugas a mais. Bem mais cabelos brancos. Só espero ser como sou hoje. E espero não mudar tão rapidamente. Aos sessenta e quatro anos, tentarei ser exatamente como sou, neste caminho...".


Você não pensa, afinal, em sair de Liverpool?

Pete Best: “A maior parte da minha vida eu passei em Liverpool. Meus melhores amigos estão em Liverpool agora. Minha vida, minha casa. Para ser honesto, não se criou nunca uma situação em que eu pudesse dizer: "Ok, deixe-me sair de Liverpool e ir para um outro lugar...". Se tivesse acontecido, não sei se teria me mudado, se teria ficado ou o que poderia ser. É algo que eu teria de decidir pessoalmente, se tivesse acontecido".

Que tipo de informação você tem sobre o Brasil?

Pete Best: "A única informação que tenho sobre a música brasileira é a que ouço no rádio e vejo na TV. São cenas de festivais em que aparecem, também, tangos e rumbas. Há um grupo - parece que do Brasil - formado por rapazes que, quando completam 16 ou 17 anos, são substituídos..."

O grupo não é do Brasil. É da Costa Rica. São os "Menudos" ...

Pete Best: "Perdoe-me. A música brasileira produz ritmos fortes, Nós conhecíamos, antes da Beatlemania. Há uma grande influência da América Latina. Os ritmos que estão por cima hoje se originam daí. Músicas que só agora aparecem sofreram influência destes ritmos - e os autores capitalizaram a influência. Gosto da música latino-americana e brasileira. Gostaria de ouvi-Ia".

Você esperou vinte e dois anos, até resolver dar um depoimento pessoal, em forma de livro e entrevistas como esta, sobre o início dos Beatles. Por que tanto tempo?

Pete Best: "Quando eu estava no show business, depois de ter saído dos Beatles, todo mundo pedia que eu escrevesse um livro. Eu dizia que não. Ainda não era tempo. Não queria ser visto como se quisesse me aproveitar da onda dos Beatles. Eu tinha meu orgulho, afinal. Então, me diziam: "Ok, mas ganhe dinheiro com essa coisa toda!", Eu insistia que não. Era preciso esperar. O momento certo de dizer tudo chegaria. O que aconteceu é que, durante todos estes anos, ao ler os livros e biografias escritas sobre os Beatles, notei que aquele período específico da nossa vida, logo antes de os Beatles se tornarem superstars, não foi coberto suficientemente com todos os detalhes reais.
Então, decidi: é hora de contar. Se não, jamais a história seria contada tal como ocorreu".


Há versões erradas sobre o início dos Beatles, em Liverpool?

Pete Best: "Há. As versões que existem dão um par de informações sobre o que aconteceu. "Foram para a Alemanha, voltaram e - de repente - se tornaram mega-stars. A Beatlemania surgiu assim!" - é o que escrevem. Não foi assim que aconteceu. É esta a razão por que decidi escrever um livro e falar agora. Só assim as pessoas teriam informação sobre as tragédias, as paixões, as brincadeiras e o tipo de vida que levávamos.
Fui, por dois anos, um Beatle. E o que digo: o que aconteceu ninguém pode levar de minhas lembranças.
Tenho minha casa em West Derby, Liverpool, não longe de onde minha mãe mora e da sede do já extinto Casbah Club. Por anos e anos, minhas duas filhas - Beba e Bonita -, hoje adolescentes, ficaram sem saber que eu tinha sido um Beatle. Isto não significaria nada para elas, de qualquer maneira. Somente depois, na escola, quando todos os colegas começaram a perguntar se era verdade que o pai das duas se chamava Pete Best, o ex-Beatle, é que eu contei tudo a elas.

Todas as lembranças dos bons e maus momentos são parte da minha vida. Vão ser sempre. Admiradores dos Beatles e membros de fãs-clubes espalhados por todas as partes do mundo, mas particularmente da América do Norte e do Japão, ainda hoje chegam a Liverpool e vão até Hayman's Green ver o que era o Casbah Club.
Disse em meu livro : de vez em quando, vou até lá e deixo as lembranças tomarem conta de mim. Parece que o tempo volta atrás. Ouço os sons e as risadas dos velhos tempos. Parece que vejo de novo o rosto dos músicos. Sozinho no Casbah, toco na bateria do meu irmão mais novo, Roag. Fecho os olhos para sentir toda a atmosfera de antes. Quando estou ali, no meu posto de baterista, no Casbah hoje deserto, a música e as lembranças se perdem numa nuvem. Para dizer a verdade, não seria difícil remodelar o Casbah e restaurar a antiga glória. Mas jamais tudo seria como antes".

(Entrevista gravada em Londres, 08/03/1985)

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Posted by geneton at 08:06 PM

junho 18, 2007

NOVIDADE NA ÁREA : SOPA DE TAMANCO. O BLOG QUE É PAU PURO!

Favor visitar:

www.sopadetamanco.blogspot.com

Posted by geneton2 at 02:22 PM

AULA DE POESIA: JOÃO CABRAL DE MELO NETO ATACA A EMOÇÃO FÁCIL

ver seção Entrevistas

Posted by geneton2 at 01:49 PM

junho 17, 2007

NOVIDADE NA ÁREA! : www.sopadetamanco.blogspot.com

Posted by geneton2 at 11:30 AM

junho 11, 2007

SID WATKINS, O MÉDICO DA FÓRMULA-UM

SID WATKINS, O MÉDICO QUE SOCORREU AYRTON SENNA NA PISTA, DESCREVE OS MINUTOS FINAIS DO CAMPEÃO : "SENNA DEU UM GRANDE RESPIRO. ESTAVA VIVO QUANDO FOI LEVADO PARA O HOSPITAL. O CORAÇÃO ESTAVA BATENDO"


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LONDRES - Quando uma nova temporada de Formula-Um começa, como agora,um personagem importante entra nas pistas, mas dificilmente chama a atençãoo do publico,porque nao vive frequentando as telas de TV ou as paginas dos jornais,ao contrario do que acontece com as superestrelas do espetaculo - os corredores.Quase nunca reconhecido,este personagem e’ uma peca fundamental na imensa engrenagem que move o automobilismo : chama-se Sid Watkins. E’ o diretor-medico da Formula-Um - o homem encarregado da dificil missao de dar os primeiros socorros aos corredores,quando o pior acontece. Neurocirurgiao ingles, Watkins e’ testemunha ocular de momentos dolorosos na historia da Formua-Um,como a morte de Ayrton Senna.

A historia completa do mais dramatico fim-de-semana da Formula-Um - em maio de 1994,no Grande Premio de San Marino,no circuito de Imola,na Italia - ainda nao pode ser contada : presidente da Comissao Medica e do Comite de Especialistas em Seguranca da Federacao Internacional de Automobilismo(FIA),Watkins diz,nesta entrevista,que houve, antes da corrida,discussoes que ate' hoje permanecem ''confidenciais''.

Autor do livro ''Life at The Limit'' - publicado no Brasil pela editora Edipromo,com o titulo de ''Vida nos Limites'' - o presidente da Comissao Medica revela que fez um apelo para que Senna nao disputasse a corrida em Imola.Um dia antes de morrer em Imola,Senna chorou no ombro do medico quando soube da morte do piloto austriaco Roland Ratzenberger.

O neurocirurgiao confessa que,no momento em que socorria Senna na pista,teve a ''estranha sensacao'' de que a alma do piloto ''tinha partido''.

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ANTES DA CORRIDA FATAL,
UMA CONVERSA SECRETA

O senhor diz que,durante o briefing dos pilotos antes da corrida em Imola,em l994,discutiram-se assuntos que devem permanecer ''confidenciais''.Que assuntos sao estes,exatamente ?

Watkins : ''As discussoes normalmente sao sobre o numero de voltas,problemas especificos na largada e problemas na primeira curva - o que pode variar de acordo com a pista.Temos discussoes tambem sobre a velocidade,assim como o que acontecera' numa primeira e numa segunda largada,se for o caso..Assim,os pilotos saberao o que podera' acontecer naquele circuito''.

Mas houve discussoes confidenciais antes da corrida em Imola ?

Watkins : ''Houve,sim''.

Havia algo de especial em relacao ao circuito de Imola naquele dia,em relacao 'a seguranca ?

Watkins : ''Nossa preocupacao em relacao ao circuito de Imola nao era maior do que antes.Posso dizer que nao houve discussoes previas sobre a curva de Tamburello,por exemplo.O que havia,antes do inicio da corrida,era uma tristeza que se abateu sobre todos depois da morte de Ratzenberger''.

O senhor nao quer dizer que tipo de discussoes confidenciais houve antes da corrida de Imola no dia 1 de maio de l994 ?

Watkins : ''Nao''.


O CONSELHO QUE O MEDICO DEU,MAS SENNA
NAO OUVIU : E’ HORA DE DEIXAR AS PISTAS


O que e' que o senhor disse a Ayrton Senna antes da c corrida de Imola,em meio ao luto provocado pela morte do piloto austriaco Roland Ratzenberger ?

Watkins : ''Ayrton Senna chorou no meu ombro. Eu disse a Senna,no sabado,que seria uma boa ideia se ele nao corresse em Imola no dia seguinte,primeiro de maio.Numa conversa a sos com Senna,eu disse que ele ja' tinha feito o suficiente.Ja' era tres vezes campeao do mundo.Eu disse a ele : ''Nos sabemos que voce e' o piloto mais rapido e mais corajoso.Voce ja' nao precisa provar nada ao mundo.Se voce deixar a Formula-Um agora,eu tambem deixarei.Nos dois,entao,poderemos ir pescar''.

Por que o senhor pediu a Senna que ele nao disputasse a corrida ?

Watkins : ''Porque Senna estava bastante chocado com o acidente fatal ocorrido em Imola no sabado''.

Que resposta ele deu ao senhor na hora ?

Watkins : ''Quando a gente fazia uma pergunta dificil a Senna,ele nao respondia imediatamente.Nao importava que pergunta era.Se a pergunta exigisse uma avaliacao antes da resposta,Senna demorava-se pensando. Antes de Imola,quando eu pedi que ele nao corresse,Senna olhou por cima do meu ombro,como se estivesse mirando o infinito.Nao estava olhando para mim nem para nada.Entao,ele se virou para mim e disse : ''Sid,ha' coisas sobre as quais nos nao temos escolha.Eu tenho de ir adiante''.

‘’TIVE A SENSACAO DE QUE A ALMA
DE SENNA TINHA IDO EMBORA’’


Num texto que escreveu sobre o acidente com Senna,o senhor diz que e' ''totalmente agnostico'' ,mas teve a impressao de que ''a alma de Senna o deixou ali,no chao da pista de Imola,no momento em que o senhor o socorria.O que e' que deu ao senhor a impressao de que Senna perdeu a alma na pista,em Imola ? Senna estava clinicamente morto ali ?

Watkins : ''Senna deu um grande suspiro.Seu rosto estava tranquilo.Parecia em repouso.Tive,ali,no momento em que o socorria,a estranha sensacao de que a alma de Senna tinha ido embora.Nao posso explicar o que senti''..

Ainda ha' controversias no Brasil sobre onde Senna morreu : se na pista ou se no hospital,para onde foi levado de helicoptero.Onde ele morreu ?

Watkins : ''Ayrton Senna morreu no hospital''.

O senhor tem certeza ?

Watkins : ''Totalmente .Senna ainda estava vivo quando foi levado para o hospital.Quero dizer : clinicamente vivo.O coracao estava batendo.Senna ainda respirava. A minha curiosa reacao foi que me fez sentir que ele nao poderia sobreviver.Mas eu nao suportava ficar ali por um tempo maior.Porque eu sabia que ele ia estar clinicamente morto em pouco tempo''.

AYRTON SENNA IGUALARIA O RECORDE
HISTORICO DO ARGENTINO FANGIO


A ''estranha sensacao'' que o senhor teve foi de natureza pessoal - e nao medica ?

Watkins : ''Exatamente.A explicacao correta e' esta.O que senti foi algo pessoal ,sobre o qual eu nunca tinha pensado antes.Talvez por que nos fossemos amigos que se amavam''.


O senhor sabia desde o inicio que ele iria morrer de qualquer maneira em consequencia do acidente ?

Watkins : ''Sim''.


Alain Prost e Juan Manoel Fangio ganharam um numero maior de titulos que Ayrton Senna.Que posicao Senna ocupa na historia da Formula-Um ?

Watkins :''Tanto Fangio quanto Prost tiveram um periodo maior de atuacao.Porque nao morreram correndo.Se Senna tivesse sobrevivido,ainda disputaria pelo menos outras quatro temporadas de Formula-Um.Quando ele morreu,tinha apenas 34 anos.Eu diria que ele levantaria dois outros titulos mundiais.Igualaria,entao,o recorde batido por Fangio - que foi cinco vezes campeao''.


Quando vai a uma corrida ,hoje,para trabalhar,o senhor ainda teme intimamente pela vida dos pilotos ?

Watkins(Depois que algum silencio): ''Sim.

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(1997)

Posted by geneton at 11:19 PM

O DIA EM QUE ENCAREI OS OLHOS VERDES DA CIGANA. OU: A ARTE DE IMPRESSIONAR OS CÉTICOS

Céticos, tremei. Quem se recusa terminantemente a dar um mínimo crédito de confiança a ciganas ,videntes,adivinhos e outros habitantes da Terra da Premonição deve ficar longe da fita de vídeo que uma cigana chamada Esmeralda gravou,em dezembro de 1993,para o Fantástico. Porque esta fita pode ter o poder de abrir uma fresta no paredão de descrença que os céticos profissionais erguem em torno de si.

Revejo a fita. Depois de tirar uma carta de um baralho na tentativa de prever o que o ano de 1994 reservava para o campeão Ayrton Senna,a cigana diz,textualmente,à repórter Fátima Bernardes : "Ayrton Senna poderá sofrer um acidente fatal numa curva". Menos de cinco meses depois, no dia primeiro de maio de 1994, as palavras "curva" e "acidente fatal" cruzaram o caminho de Ayrton Senna.

Durante a gravação da entrevista para o Fantástico, houve uma cena que não foi captada pela câmera . Com uma dramaticidade realçada por olhos esverdeados que fitam o fundo da retina do interlocutor, a cigana Esmeralda diz a Fátima Bernardes que ela não deve se preocupar com o problema de saúde que tinha sido descoberto na véspera. "Fiquei imóvel",diz,hoje,a apresentadora do Jornal Nacional. "Porque eu realmente tinha ido ao médico".

A cigana cravou pelo menos dois outros acertos. Disse,em dezembro de 1993, que a economia sofreria uma reviravolta em julho de 1994."A moeda terá um novo nome". Assim foi feito. Os bruxos da economia deram à luz o Plano Real. Por fim,os cartas disseram à cigana que o próximo ocupante do Palácio do Planalto seria um nativo do signo de gêmeos. Em outubro de 1994,as urnas deram a Presidência das República a um nativo de gêmeos - o professor Fernando Henrique Cardoso,nascido em dezoito de junho de 1931. Quando a cigana fez a previsão,ele ainda não era candidato. Acredite quem quiser.

A que estranhos poderes esta cigana recorre afinal para dar a impressão de que é capaz de enxergar, num amontoado de cartas de baralho, os desígnios do futuro ?

Uma década depois , desembarco no endereço da cigana numa manhã chuvosa de sábado. A consulta tinha sido marcada com a devida antecdência,por telefone. Nuvens cinzentas pairam, assustadoras, sobre Copacabana. O céu ameaça desabar a qualquer momento. O cenário parece perfeito para que uma cigana entre em cena. Que ela venha, com seus santos protetores, cartas de baralho, metais misteriosos e olhares esverdeados. Eu estarei pronto a espargir, sobre este exército de entidades sem rosto, todas as poções do meu ceticismo militante.

O porteiro avisa à moradora do apartamento 101 deste prédio de esquina na rua Raul Pompéia que o visitante, esperado para a consulta das 13 horas, chegou. Um homem de cabelos grisalhos, presos num extemporâneo rabo-de-cavalo, abre a porta dos fundos do apartamento. A cigana aguarda pelo visitante instalada, como uma soberana, num inacreditável quarto de empregada, decorado por imagens de entidades ciganas,medalhas, moedas espalhadas pelo chão, imagens de bruxas,gnomos,baralhos,véus,espelhos,dados,pedras,metais. A anárquica congregação de signos impressiona os olhos recém-chegados do cliente. As moedas, diz ela, são símbolo da fertilidade. As estatuetas representam os Ciganos da Lua Cheia. Um inventário do que significa cada uma daquelas bugingangas místicas seria suficiente para encher um tomo.

Apelo ao mutismo para tentar descobrir que estranho jogo é este que a cigana joga para impressionar o freguês. Se eu começar a falar pelos cotovelos, estarei dando à cigana as informações de que ela necessita para, espertamente, formular suas previsões. Baixa em mim o espírito daquele ministro do governo militar que respondia as inquisições dos curiosos com uma frase-padrão :"Nada a declarar". Declaro o mínimo possível à cigana. Faço mistério. Quero ver se ela é capaz de decifrar esta esfinge precária , com a ajuda daquele exército de entidades.

O jogo começa em desvantagem para o consulente. A paisagem do quarto de empregada - transformado em altar de supostas divindades ciganas - dá a Esmeralda uma posição de indiscutível superioridade sobre quem a visita. Ali, literalmente,quem dá as cartas é ela. Ao visitante, cabe o papel de ouvinte. Quem bate às portas deste oráculo cigano na esperança de enxergar as feições do futuro sente-se como um paciente que espera ouvir do médico um prognóstico qualquer - de preferência,otimista. O médico é o senhor da situação. A cigana também.

A cena lembra um conto que Jorge Luis Borges nunca escreveu. Uma porta maciça, no fundo do Salão do Tempo Presente, protege um mistério inalcançável : o futuro. É impossível enxergá-lo . Quando finalmente o viajante consegue abrir a porta maciça , o feitiço se quebra : o futuro deixa de ser futuro. Desvendado aos olhos do curioso, o futuro transforma-se em tempo presente. Mas o mistério se renova com a aparição de outra porta maciça, ao fundo do salão recém-conquistado : lá estará,novamente invisível, o futuro que a todos fascina - arredio , inalcançável , fora do campo de nossa visão. Ciganas como Esmeralda se dizem capazes de enxergar através da porta indevassável, esta barreira que mantém o futuro protegido contra as investidas de nossa pobre curiosidade . Deve ser esta a principal razão que leva ciganas a atrair a curiosidade de crentes ou céticos envergonhados que, como eu, pagam setenta reais pelo direito de entrar neste quarto de empregada de um prédio em Copacabana.

Eis agora a Cigana Esmeralda tentando exercer diante de mim seus pretensos poderes divinatórios. Ciganos,videntes e outros supostos donos de bolas de cristal têm também o dom de provocar medo em almas impressionáveis. Porque há,na vida ou nos palcos,qualquer coisa de trágico e intrigante em previsões. É assustadora a voz da vidente que, misturada à multidão, grita para César "cuidado com os idos de março !" na cena shakesperiana. César manda chamar o autor do aviso : "O que me dizes agora ? Repete !". O vidente : "Cuidado com os Idos de março". Mas César não dá ouvidos ao vidente :"É um sonhador.Pode esquecer.Passemos". Quando os idos de março chegam, César é apunhalado no senado romano.

As sobrancelhas da cigana que agora olha nos meus olhos foram desenhadas a lápis. Os cabelos com certeza passaram por um tintura. A cigana começa a manusear as cartas, avisa que meus dias de sorte são terça e sexta à tarde (depois,numa busca na Internet,vejo que outro horóscopo cigano indica o dia segunda-feira como dia de sorte.Em qual das duas entidades acredito : Internet ou cigana ? ).

De vez em quando,em meio a caudalosos informes sobre saúde ("boa"),vida ("longa"),pedra de nascença ( "turmalina verde"), elementos da natureza ("ouro branco" e prata velha"), número de sorte
("trinta e três"), cristal de sorte ("branco transparente"), cor ("verde"),recomendações ("atenção a modificações na pele"),a cigana faz perguntas repentinas : "Quem é Sérgio ?","quem é José ? ","quem é Paulo ou Paulinho ? ". Respondo que não me lembro de alguém com estes nomes. A cigana informa : um "Sérgio" vai me ajudar; um "José","já morto", intercede por mim; um "Paulo" pode trazer problemas se eu assinar documentos com ele.

Começo a avaliar a possível tática da cigana. Faz perguntas genéricas envolvendo nomes ou situações razoavelmente comuns. Quem não conhece um "Sérgio",um "José" ou um "Paulinho" ? A certa altura, ela pergunta,depois de bater no meu joelho direito : "O que é que você sente aí ? ". Respondo que nada. Mas poderia perfeitamente ter um problema qualquer no joelho, o que com certeza alargaria a lista dos possíveis acertos da cigana. Se houver pelo menos uma coincidência entre as suposições da cigana e a vida do visitante , o caminho estará aberto para que o ouvinte saia dali impressionado.

Adiante,a cigana lê nas cartas que tive "preocupação com aquisição de residência",mas os problemas ligados à documentação "estão se desembaraçando" - o que é verdade. "Você pode fazer uma viagem ao exterior de repente de uma hora para outra".

Depois de descobrir que tenho três filhos , insiste : "você teve preocupação com um dos filhos este ano" . Rebato : "Qual é o pai que não tem preocupação com filhos ? ". A cigana não entrega os pontos : "Mas você teve uma preocupação especial com um dos três,sim.Vejo o sol clareando a situação".

O segundo conselho é precedido por uma pergunta : "De quem é esse carro prateado ? ". A cigana simula ver alguma coisa nas cartas. Respondo que nunca tive carro dessa cor. Mas ela insiste :"Cuidado quando entrar num carro prateado,porque ele pode estar com problema nos freios. O carro pode ser de um amigo .Você pode se dar mal. Você tem de ficar atento .Cuidado com velocidade,cuidado com acidente".

Que fique registrado : se um dia o autor dessas mal traçadas linhas se meter em trapalhadas num carro prateado,a cigana Esmeralda merecerá ser entronizada no altar as pitonisas.

Quando a consulta se aproxima do fim,Esmeralda me informa que uma entidade cigana,um certo Vladimir,me dá proteção. A cigana sugere que eu um dia faça uma oferenda a Vladimir : podem ser frutas, ofertadas ao "povo cigano" ao pé de uma árvore. Esmeralda me oferece dois conselhos. Primeiro : "Não use perfume de Alfazema ! Dá azar. É das múmias !". Uriel,"anjo da Noite", igualmente me protege - é o que dizem as cartas de Esmeralda.

O Grande Jogo das Coincidências vai se armando neste quarto de empregada travestido de oráculo. Um pai que tivesse tido uma "preocupação especial" com um dos filhos ficaria,com certeza,impressionado com a insistência da cigana sobre esta particularidade. Quem acredita em "avisos" pensaria dez vezes antes de embarcar num carro prateado depois de ouvir a recomendação. Embalada pelas cartas, Esmeralda ainda me daria dois conselhos que são um primor de incorreção política : "Afaste-se de quem é homossexual.Cuidado ao lidar com judeus".

Não revelo minha condição de repórter. Deixo sem resposta a pergunta que a cigana me faz com insistência : "Por que você tem dúvida quanto à profissão"? Entre uma e outra informação, tento perguntar à cigana por que ela se acredita capaz de enxergar o que ninguém enxerga :

- É espiritual. Não sei explicar. É uma mediunidade espontânea dada por Ele (refere-se a Deus,aponta para uma imagem na parede). Faço este trabalho deste os oito anos de idade. Já estou com sessenta e nove.

Esmeralda sabe capitalizar o dom de impressionar os outros.Trabalha "de segunda a segunda",como diz,orgulhosa.Em dias de movimento intenso, pode dar "de doze a treze" consultas.Façam-se as contas. Treze vezes setenta igual a 910 reais - um faturamento diário nada desprezível. Se apenas três almas penadas batessem por dia à porta da cigana em busca de um facho de luz sobre os mistérios do futuro, ela teria um faturamento mensal de 6.300 reais.Caixinha,obrigado.

Peço para tirar fotos da cigana,com a desculpa de que uma de minhas filhas gostaria de ver em que ambiente ela trabalha. Em nenhum momento digo que aquela consulta eventualmente poderia servir de matéria-prima para um reportagem que penso em publicar numa revista que nem existe ainda. Quando me preparo para me despedir,a cigana me diz,textualmente :

- Se sair em alguma revista, mande para mim...

Fico pensando : quem sabe,ela notou em minha curiosidade um ou outro traço típico de jornalista. Observadora atentíssima - porque precisa pescar nas palavras do visitante informações que lhe permitam arquitetar previsões - ela pode perfeitamente ter imaginado minha intenção. Arriscou,então,um palpite nada absurdo.

De qualquer forma, quer tenha sido mero palpite ou não, devo dizer,em nome da veracidade factual, que a cigana se referiu a uma revista que era segredo. As palavras de Esmeralda ficaram registradas no meu gravador.

Piso novamente no terreno movediço das suposições,divagações,coincidências. Quem entra neste quarto de empregada em Copacabana ingressa num jogo de espelhos sem fim. Uma suposição leva a outra, numa teia que não se acaba nunca.

Deixo o oráculo depois de uma consulta que durou exatos cinqüenta minutos. Chove lá fora. Um carro prateado (são tantos,na cidade) sai do túnel que dá para a rua Raul Pompéia. Tenho a sensação de que paguei setenta reais para adquirir uma dúvida ("cuidado com um carro prateado") e um alívio ("a carta forte do sol saiu várias vezes. Sol não pode ser ruim,porque clareia").

O Santo Protetor da Racionalidade me sopra, enquanto tento driblar as poças d'água na calçada neste começo de tarde de sábado : é ridículo acreditar que generalidades pronunciadas por uma mulher que se diz dona de poderes premonitórios. Somente quem já chega ao Oráculo de Esmeralda preparado para acreditar em platitudes sobre o futuro é capaz de dar credibilidade às palavras da cigana.

Penso que a chave do enigma é este : só acredita em previsões assim quem chega ali preparado para acreditar. Caso contrário, é possível derrubar uma por uma todas as sentenças da cigana . Prever que um piloto de Fórmula-Um vai sofrer um "acidente fatal" numa curva não chega a ser uma demonstração genial de clarividência. Igualmente, dizer a um pai que ele teve "preocupação especial" com um dos filhos é apostar no mais do que possível . Por fim,quem nunca se preocupou com documentos de imóveis ?

Noventa e nove por cento das evidências dizem que tudo não passa de um esperto jogo de adivinhações. A própria cigana é mestra em jogar na loteria das coincidências : quer saber - por exemplo - se o visitante tem um problema no joelho. Se ele tiver, vai acreditar que ela é dotada de poderes no mínimo estranhos. É tudo ilusão. O iludido é o visitante. A ilusionista é a cigana.

Mas devo confessar : é impossível não se deixar fascinar por este Grande Jogo das Coincidências, tão habilmente manipulado por uma observadora arguta,cercada de ícones por todos os lados,num minúsculo quarto de empregada. O ambiente, algo lúgubre,é propício a divagações de todo tipo. Um encontro como este deixa sempre uma fagulha de dúvida no peito de quem descrê.

Caio por cinco minutos na tentação de perguntar a mim mesmo, enquanto espero pela condução (felizmente, não há táxis prateados no Rio de Janeiro) : e se o José de que ela fala for o meu avô, já morto ? Como é que ela adivinhou que fiz a consulta pensando em escrever para a revista ? O que é que levou a cigana a dizer que eu tinha tido um problema com documentação de uma "residência" ? Rendo-me por quinze minutos à certeza de que não custa nada dar uma chance ao imponderável, ao invisível, ao insondável,nem que seja por mera curiosidade jornalística. É um gesto inofensivo.

A tempestade que estava se armando no céu de Copacabana finalmente se dissipa. Pego um táxi - amarelo,é claro. Nada de carro prateado. A rua Raul Pompéia fica para trás. A cigana permenece no quarto- quem sabe,à espera do próximo visitante.

Vou adiante : intimamente, decreto a suspensão temporária de meu ceticismo. Resolvo dar um crédito de confiança às entidades que - jura a cigana - me oferecem proteção : então, bem-vindo,Cigano Vladimir. Bem-vindo, Uriel,Anjo da Noite. Obrigado, pedra de Turmalina, ouro branco, prata velha. A partir desta tarde de sábado, conto com vocês.

Mas, lá no deserto de minha descrença, onde não há espaço para pedras de turmalina nem anjos da noite nem carros prateados, eu sei : é tudo um mero jogo de espelhos, um labirinto de adivinhações.

Copacabana me engana.

Quatro meses depois da consulta,bato de novo à porta da cigana. Quero saber se é verdadeira a informação de que ela teria morrido dias antes do Natal. O porteiro confirma : "É verdade.Dona Esmeralda morreu de repente. Fecharam o apartamento.Desligaram o telefone.Acabou o movimento".

Posted by geneton at 09:15 PM

junho 10, 2007

NOVIDADES! DEPOIMENTO COMPLETO DE FRANCISCO JULIÃO SOBRE 1964, GUEVARA, ARRAES E JANGO. E TAMBÉM: A ÍNTEGRA DE UMA GRAVAÇÃO COM O POETA JOÃO CABRAL DE MELO NETO. UM ENCONTRO COM O MÉDICO QUE SOCORREU AYRTON SENNA NA PISTA! E UMA CONSULTA COM UMA CIGANA!

Ver nas seções Entrevistas e Reportagens
PS : JÁ ABERTO À "VISITAÇÃO PÚBLICA" O BLOG COLETIVO
www.sopadetamanco.blogspot.com
SOPA DE TAMANCO : É PAU PURO!

Posted by geneton2 at 09:57 AM

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

UMA AULA DO POETA QUE COMBATIA A "EMOÇÃO FÁCIL" NA POESIA


João Cabral de Melo Neto abre fogo contra os poetas que só sabem provocar “saudade, melancolia e tristeza”! – Por que ele é inimigo da emoção fácil – O autor de ‘Morte e Vida Severina’ garante: “A popularidade é uma coisa terrível!” – Por que ficou traumatizado com a música – O Hino Nacional e o Hino de Pernambuco são as duas únicas músicas que ele consegue distinguir de ouvido! – Um julgamento rigoroso: “Morte e Vida Severina não me satisfaz...” As memórias do jogador de futebol: a diretoria do Santa Cruz foi pedir à mãe de João Cabral a liberação do passe do craque!


O titular da cadeira número 37 da Academia Brasileira de Letras é um caso único de jogador de futebol que deu certo como diplomata e se consagrou como poeta e, seguramente, o único acadêmico que pode ostentar glórias tão díspares - como a de ter sido campeão pelo Santa Cruz Futebol Clube e autor dos versos de um clássico da literatura brasileira, o poema "Morte e Vida Severina". João Cabral de Melo Neto é um exemplo em carne e osso de que a força física do futebol pode conviver sem grandes traumas, em uma só pessoa, com um extremo apuro intelectual.

O jogador já se aposentou, é claro. Mas o poeta continua entregue a uma difícil, suada e elegante batalha com as palavras. João Cabral de Meio Neto (Recife, 06 de janeiro de 1920) é, acima de tudo, rigoroso com o que escreve. Trabalha as palavras com a precisão de um médico na mesa de cirurgia. Despreza as emoções fáceis. Não quer nem ouvir falar de poetas e escritores que não tenham "interesse intelectual'. E fala da própria obra com uma frieza que chocaria os não iniciados.

A longa carreira diplomática - com passagens pela Espanha, Inglaterra, França, Suíça, Paraguai, Senegal, Equador, Honduras e, finalmente, Portugal - deixou, no comportamento do poeta, traços de uma solenidade que ele mantém em qualquer situação. De férias, em casa, ele dá entrevista metido numa impecável camisa de manga comprida abotoada até a gola. Uma vez, na casa de um irmão, na praia, combinou com um repórter uma entrevista para as dez e meia da manhã. A circunstância de estar de férias de frente para o mar não lhe alterou o gosto de cumprir os horários com rigor. O repórter chegou vinte minutos depois da hora marcada. João Cabral não perdeu a chance: "Você chegou com uma pontualidade nada britânica... " - foi a primeira saudação que ele pronunciou. Faz tempo que a cena ocorreu. Mas João Cabral não mudou.

Abatido por uma hemorragia gástrica que o obrigou a uma temporada num hospital no Rio de Janeiro e ainda profundamente tocado pela viuvez recente, o poeta não perde a elegância do diplomata nem o rigor do intelectual vigilante quando começa a falar diante do gravador ligado.
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O fato de conviver com outros idiomas durante anos a fio, como é o caso do senhor, traz alguma dificuldade para o ato de escrever?

João Cabral: "É uma das desvantagens do escritor que é diplomata e vive no estrangeiro. É difícil viver vinte e quatro horas falando uma língua e escrever em outra. Quando Vinícius de Moraes era cônsul em Los Angeles, Gabriela Mistral era cônsul do Chile : ela disse ao Vinícius que ia voltar para o Chile porque estava perdendo o espanho. Veja só: ela encontrava dificuldades para escrever em espanhol vivendo em Los Angeles. É uma desvantagem que o diplomata tem. O diplomata de carreira - não o diplomata ocasional - ou pára de escrever ou tem uma obra pequena. O caso de Aloísio de Azevedo é típico. Depois que foi nomeado cônsul, não publicou mais nenhum romance!".

O senhor se lembra de algum caso em que a palavra em português tenha fugido durante esse período todo no exterior?

João Cabral: "Ah, claro! e comum, inclusive, a pessoa abrasileirar uma palavra estrangeira, coisas que, às vezes, enriquece o vocabulário do autor, mas, outras vezes, você tem de substituir, porque não dá...".

Por que o senhor tem tanta prevenção contra a subjetividade? Há um conceito mais ou menos generalizado de que a poesia é uma manifestação extremada da subjetividade...

João Cabral: "Há uma diferença. Tenho aversão à subjetividade. Em primeiro lugar, tenho a impressão de que nenhum homem é tão interessante para se dar em espetáculo aos outros permanentemente. Em segundo lugar, tenho a impressão de que a poesia é uma linguagem para a sensibilidade, sobretudo. Uma palavra concreta, portanto, tem mais força poética do que a palavra abstrata. As palavras pedra ou faca ou maçg, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer "eu estou triste". Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente se confessando na base do "eu estou triste".

Qual é a relação do senhor com a escrita, no dia-a-dia? O senhor diz que tem horror a trocar cartas. Quer dizer, então, que o senhor evita escrever?

João Cabral: "O negócio da carta é o seguinte: eu não gosto - realmente - de escrever carta. É um resultado de minha vida de diplomata. Sou diplomata desde fins de 45. Já faz quarenta anos. Quando vive no exterior, você tem de fazer tudo por meio de carta. É uma das coisas que leva o sujeito a acabar escrevendo cartas, porque em todos negócios e todas as coisas que ele tem para fazer, ele precisa escrever - para a família, para um amigo, o que seja.

Em segundo lugar, não gosto de carta. E tem tanta gente que escreve até diário... Para mim, escrever o meu diário é uma coisa inconcebível. Ninguém é tão interessante para falar de si mesmo o tempo todo. Em carta, você acaba falando de si próprio. É como num diário. Se você está lá fora, isolado, e escreve uma carta para um amigo, é inevitável que você fale de seus estados de espírito - e dessa maneira errada que é falar do estado de espírito descrevendo-o. Agora, quanto a escrever, eu estou, permanentemente, tomando notas para poemas. Não tenho nenhum poema acabado depois do meu último livro ("Agrestes", 1985). Tenho notas para poemas. Um dia trabalharei nelas. Ou não. Se estou numa fase com menos trabalho e menos preocupação, começo, então, a trabalhar aquelas notas que tenho".

Parece que o senhor não tem nenhuma ânsia de escrever, esta é que é a verdade...

João Cabral:" Ah, não tenho..."

O senhor pode anotar um poema e guardar durante anos, esperar...

João Cabral: "E nunca escrever, também. Outras vezes, descubro uma nota anterior, elaboro e faço um poema, naturalmente".

O senhor diz que a poesia que faz não é para ser amada. Não é porque o senhor não quer ou o senhor gostaria que suas poesias fossem amadas?

João Cabral: "Não gostaria. O escritor corre o grande risco de se baratear. A popularidade é uma coisa terrível, nesse sentido. A popularidade acaba cercando o escritor e o artista de um mundo artificial e um interesse inteiramente artificial. O sujeito acaba fazendo aquilo que sente que o público gosta, em vez de fazer aquilo que acha que deve ser feito. Eu lembro de quando Manuel Bandeira fez oitenta anos. Havia quase manifestações populares, nas homenagens que fizeram a ele. Mas você acha que aquele pessoal algum dia leu Manuel Bandeira?".

O senhor se considera, então, o quê? Um poeta popular ou um poeta conhecido? O senhor é conhecidíssimo, mas deve achar que só conhecem o nome João Cabral, não a obra ...

João Cabral: "É difícil dizer. O êxito teatral de "Morte e Vida Severina" é que tornou o meu nome conhecido. Mas não creio que minha poesia seja popular".

O senhor sempre diz que não gosta de fazer poesia dada a emoções porque o que se chama comumente de emoção é algo feito à base de um sentimentalismo fácil e barato. O senhor diz, pelo contrário, que "emoção é outra coisa". Mas nunca ficou exatamente clara a definição que o senhor tem de "emoção". Dá para explicar - de uma vez por todas?

João Cabral: "Minha definição de emoção não é nada de especial. É o que todos chamam de "emoção". O que acontece é que me recuso a explorar essa coisa diretamente. O interesse do poeta não é descrever suas emoções e criar emoções, é criar um objeto - se é poeta, um poema; se é pintor, um quadro - que provoque - emoções no espectador. Mas não explorar nem descrever a própria emoção. Quando digo que sou contra emoção é exatamente neste sentido: o de usar a minha emoção para fazer com ela uma obra, descrevê-Ia primariamente e construir, com ela, um poema".

Quer dizer, afinal, que o senhor não é exatamente contra a emoção: é contra a exploração da emoção...
João Cabral: "Exatamente! (Faz ar de alívio, como se a charada estivesse resol- vida). Quanto a esse descrever da emoção e da sentimentalidade, a grande maioria da poesia que se escreve no mundo é assim. A obrigação do poeta, repito, é criar um objeto, um poema, que seja capaz de provocar emoção no leitor".


O que é que o senhor chama de "emoção intelectual"? Já vi o senhor usando esta expressão..:

João Cabral: "Um grande crítico americano uma vez disse o seguinte de uma poetisa americana, Edna Miller: que ele não gostava da poesia que ela fazia porque não tinha interesse intelectual. É nesse sentido que eu digo. Você pode ver perfeitamente quais são os escritores que têm um interesse intelectual e quais são os que não têm. Confesso que o escritor que não tem interesse intelectual não me interessa.

A mim, me interessa enormemente a poesia de Joaquim Cardozo, mas nunca me interessou a poesia de Emílio Moura - de Minas Gerais. Eu sinto que não tinha interesse intelectual. Não só a poesia de Emílio Moura, mas a grande maioria dos poetas brasileiros. Aliás, dos poetas brasileiros, não, mas do que se chama no mundo todo de poesia. Um homem de mediana inteligência não vê interesse intelectual naquilo. Tenho a impressão de que pode ser um defeito meu. Mas confesso. A atividade intelectual é uma coisa que seduz. Vivo para ela. Quando leio um poeta que só é capaz de provocar essas emoções correntes, como saudade, melancolia ou tristeza, essa coisa não me interessa. Ora, se tenho minhas emoções, para que vou buscar emoções semelhantes numa outra coisa?".
Quando o senhor se auto-intitula um "poeta artificial", o senhor se refere ao trabalho quase artesanal que tem com a poesia?

João Cabral: "Não apenas. Os assuntos que uso na poesia são "tirados pelos cabelos", como se diz. Fiz um poema sobre o ato de catar feijão. Você não imagina Alfonso de Guimarães, o pai, grande simbolista, fazendo um poema sobre o ato de catar feijão..."

O resultado poético do trabalho do senhor é obviamente sofisticado, sob o ponto de vista intelectual. Isso contradiz a intenção de fazer uma coisa simples? A que é que o senhor atribui esta defasagem entre a intenção de fazer uma coisa simples e o resultado - que é indiscutivelmente sofisticado?
João Cabral: "A coisa simples que quero não é fazer uma coisa boboca. O simples que almejo é chegar a uma forma que os outros entendam. Consigo raramente. e difícil traduzir as coisas de que falo de uma maneira acessível a todo mundo. Minha luta é esta: tentar botar uma coisa mais complexa numa linguagem mais simples possível. Confesso que geralmente eu fracasso".


"Minha luta é tentar botar coisas complexas numa linguagem simples.
Geralmente, fracasso"

Além de dizer que é um poeta artificial, o senhor também se considera um poeta não espontâneo. Acontece que estes dois conceitos se chocam de novo com o conceito generalizado de que a poesia é algo não artificial e espontâneo...

João Cabral: "Exatamente. Valerie dizia que tudo que vinha a ele espontaneamente era eco de outra pessoa! Ele só acreditava numa coisa que ele fizesse com rigor intelectual, porque durante este trabalho rigoroso ele eliminava tudo o que, nele, era dos outros. O homem acha, em geral, que tudo o que se faz artificialmente é falso e não diz nada dele. Vejo exatamente o contrário: o que você faz espontaneamente é eco de alguma coisa que você leu, ouviu ou percebeu de qualquer maneira".

A popularidade - é o que o senhor diz - pode prejudicar o poeta. A popularidade prejudicou Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes e Manuel Bandeira?

João Cabral: "Não. Vinícius, no fim da vida, dedicou-se inteiramente à poesia popular, à música popular. Agora, Manuel Bandeira e Carlos Drummond são sujeitos de tal integridade que não foram corrompidos pela popularidade. Nem todo mundo tem integridade para resistir. Em geral, o sujeito acha bom e barateia a produção para ser agradável. Baixa o nível para ser agradável..."

O poema que é tido como marca registrada do João Cabral de Melo Neto é o 'Morte e Vida Severina'. E é justamente este que o senhor chama de "poema fracassado". Por que um julgamento tão cruel?

João Cabral: "Nunca chamei de fracassado. "Morte e Vida Severina" foi um poema que escrevi: não trabalhei. Eu escrevi a pedido de Maria Clara Machado e não trabalhei como trabalho em outras coisas minhas. Eu sinto que é um poema que não me satisfaz. Mas foi um poema bem levado para o teatro e a televisão. Ficou popular. Mas sinto: é um poema que não trabalhei, porque eu tinha um prazo para escrevê-lo".

O 'Morte e Vida Severina' é considerado uma obra-prima. O senhor, então, não assina embaixo desse julgamento...

João Cabral: "Não! Dentro de minhas coisas, acho "Morte e Vida Severina" a menos realizada. E a mais escrita na perna...

É frustrante saber que os Severinos e as Severinas da vida real não vão ler o 'Morte e Vida Severina'?

João Cabral: "Quando escrevi "Morte e Vida Severina", tinha a impressão de que seria uma coisa tão popular quanto os romances do Nordeste, os romances de cordel. Quando o livro saiu, vi que quem me elogiava eram os intelectuais. Eu lembro do entusiasmo de Vinícius de Moraes. Eu disse: "Vinícius, não escrevi para você! Para você, escrevi outras
coisas!". Eu tinha a impressão de que estava escrevendo aquele poema para o povo. Quase me danei...".

A condição de intelectual e poeta num país como este - em que a grande maioria da população não tem acesso à produção intelectual - é frustrante?

João Cabral: "Pelo meu temperamento, nunca gostaria de ser um escritor popularíssimo. O fato de não ser popular me dá tranqüilidade. Não vivo de escrita. Se vivesse de escrever, gostaria de ser popular, porque os direitos autorais seriam grandes. Mas, como não vivo de escrever, a falta de popularidade não me frustra. Ao contrário".

Um intelectual deve falar em nome do povo?

João Cabral: "O que é que você quer dizer?"

O senhor acha que o intelectual deve ser porta-voz dos anseios populares?

João Cabral: "Se ele está identificado com os anseios populares e se ele acha que é capaz de expressar os anseios populares, claro. Mas é preciso que ele esteja identificado com os anseios populares - e não com o programa de um partido político - que dura dois anos! Eis o negócio. Você fala em povo. Mas o que é povo? O que é o povo brasileiro? O que é o povo de qualquer país? É uma quantidade enorme de pessoas, com interesses contraditórios. Como falar em nome do povo? Você fala em nome de uma classe, em
nome de uma idéia - que pode estar no povo".

Quando o senhor estava em Barcelona, leu numa revista que a expectativa de vida no Recife era menor do que na Índia e se sentiu profundamente chocado. Depois, o senhor disse que deveria escrever algo denunciando...

João Cabral: "Eu escrevi "Cão Sem Plumas", já disposto a não escrever mais nada na minha vida".

O senhor acha, então, que o poeta deve reagir a estas agressões da realidade?

João Cabral: "Não sei se deve reagir. Eu reagi. Agora, se todo mundo é capaz de reagir ou se todo mundo deve reagir, é um problema que deixo a cada um".

Paul Eluard dizia que a função do artista é "dar a ver". Qual é a diferença entre o "dar a ver" e a denúncia?

João Cabral: "Eluard chamou de "Dar a Ver" um livro de poemas que ele fez sobre os pintores. Quando digo "dar a ver" é porque a minha poesia, em primeiro lugar, é mais visual do que musical. Em segundo lugar, digo "dar a ver" porque o poeta deve mostrar realidades sem tomar partido. Você mostra a realidade. Cada pessoa que veja como quiser. Depois de "Morte e Vida Severina", eu não botei no fim algo como "Façam assim!". Não apresentei solução, porque esta não é função do artista. A função do artista é expressar a realidade. Os administradores, os políticos, quem seja, que resolvam o que há de injustiça nessa realidade. Não é obrigação do artista".
O Brasil, hoje, como país, satisfaz o senhor? O país melhorou?

João Cabral: "Durante o ano de 1986 foram tomadas boas medidas. Tenho esperanças nelas. O negócio é que o mundo é complicado. Você pergunta a um francês... Ele votou no Partido Socialista na eleição de François Miterrand e imaginou que a França fosse melhorar. Depois, os socialistas perderam a maioria no Congresso. Isso não é uma coisa permanente. O Brasil está numa boa fase. Acredito que os políticos, os administradores estão querendo resolver certos problemas. Não quer dizer, no entanto, que daqui até o fim do mundo o Brasil tenha resolvido os seus problemas. Em primeiro lugar, porque estes homens podem mudar mas, depois, pode vir uma orientação diferente".

O senhor tem aversão total à música; só conhece de ouvido o Hino Nacional e o Hino de Pernambuco. De onde é que vem, afinal, esta aversão à música? Qual é a lembrança mais remota que o senhor tem desse horror à música?

João Cabral: "Não tenho nenhum ouvido musical. Você pode tocar uma música conhecidíssima. Eu não distinguirei uma da outra! O que lembro é que, desde menino, eu era o filho desentoado. Já no coro do Colégio Marista, mandavam que eu fingisse que estava cantando, mas não cantasse, porque saía tudo desentoado.
Você pode não ter ouvido musical, não saber cantar e, no entanto, gostar de música, a chamada música clássica.

Mas vou dizer uma coisa que aconteceu comigo. Tive minha infância e adolescência no Colégio Marista. Nós éramos obrigados a uma missa semanal. Era uma missa cantada. Nós éramos obrigados a ir diversos dias à Igreja, para ouvir canto sacro. O que estragou um possível gosto meu pela música foi a música religiosa que me era imposta, quando eu era menino e adolescente. A música significava, para mim, tédio. Eu ficava naquele banco de colégio ouvindo aquela música de órgão, aqueles sujeitos cantando... E era incapaz de me concentrar naquilo. Ficava pensando em outra coisa. A música religiosa extinguiu em mim qualquer possível futuro em música".

Depois desse trauma de infância, o senhor, então, não conseguiu ter interesse em música...

João Cabral: "Isso estragou até a minha capacidade de atenção. Se há uma coisa que me dá sofrimento é um concerto. De vez em quando, sou obrigado a ouvir um. Ir a um concerto é um inferno para mim. Você pode dizer o seguinte: "Eu estou impondo a este infeliz duas horas de sofrimento"... E essa coisa estragou minha capacidade de atenção auditiva. Quando estou conversando, sigo o que a pessoa diz. Mas essa coisa de rezar tantas vezes por dia e a música no colégio estragaram a minha capacidade de ter atenção para uma coisa que me entra pelo ouvido. Outro sofrimento é ir a uma conferência e ouvir um discurso. Sou incapaz de compreender. Fico pensando noutras coisas e não no que o conferencista diz. De repente, volto para o que ele está dizendo; sou até capaz de entender uma ou duas frases, mas minha atenção se perde outra vez. Fico como uma pessoa que está nadando debaixo do mar e de vez em quando sobe para respirar. Tenho a impressão de que estragaram a minha capacidade. Quando quero entender alguma coisa, leio".

O pior de tudo é que o senhor, como cônsul e embaixador, é obrigado, por dever de ofício, a ouvir discurso...

João Cabral: "Claro! De concerto eu fujo. Mas, numa solenidade, você não pode fugir. Eu confesso: o sujeito está falando e eu pensando noutra coisa... Sou incapaz de me concentrar numa conferência ou num discurso".

Naquele tempo das rezas no Colégio Marista que idade o senhor tinha, exatamente?

João Cabral: "Dos oito aos quinze anos. Era no Recife. Primeiro, no Colégio São Luís - que é Marista também -, em Ponto Uchoa. Depois passamos para o Colégio Marista, na avenida Conde da Boa Vista, no centro da cidade".
Que relação o senhor tem com Pernambuco, hoje? A presença de Pernambuco na poesia que o senhor escreve ainda é forte. Há, no livro "Agreste", várias passagens sobre Pernambuco - e particularmente a Zona da Mata.

João Cabral: "Eu saí de Pernambuco com vinte e dois anos, na véspera de fazer vinte e três. Da primeira vez que saí de Pernambuco, passei onze anos sem ir até lá. Eu saí em 1942 e voltei em 1953. Mas nunca superei o fato de ser obrigado a viver fora de Pernambuco. Sempre dou um pulo lá, embora Pernambuco seja bem diferente do que eu conheci. O Recife, então, está inteiramente mudado. Em todo caso, volto sempre. Toda oportunidade que tenho vou por lá. A gente não pode dizer o que é que vai falar no futuro. Mas tenho a impressão de que a gente escreve sempre sobre as impressões da infância e da adolescência. Nesta época, o homem é mais sensível. Grava mais as coisas. Então, forçosamente, nunca poderei me livrar dessa impressão de Pernambuco sobre mim. Imagino que ela continuará".

Onde é que o João Cabral poeta estará no futuro? O senhor deve abandonar a carreira de diplomata em 1990...

João Cabral: "Com a nova lei, tenho a impressão de que já devo me aposentar em 1987. Não creio que vá viver em Pernambuco. Gostaria, mas acontece que - dos meus cinco fIlhos - quatro moram no Rio e uma filha em Honduras. Quando me aposentar, irei morar em Petrópolis, porque estarei perto deles e ao mesmo tempo não estarei no Rio. É uma cidade que não me agrada nada. Nunca me agradou".

O que é que assusta o senhor no Rio de Janeiro?

João Cabral: "As distâncias, o movimento, o tráfego e o calor. É aquele calor desagradável... O calor aqui no Rio é abafado. O de Pernambuco é um calor ao ar livre. Até há um poema de Manuel Bandeira: "Vamos viver de brisa”. Faz calor no Nordeste, mas lá existe brisa. O calor do Rio é um calor sem brisa".

O senhor acha que, quando se aposentar e se dedicar somente à poesia e à literatura, essa relação acidentada que o senhor tem com o ato de escrever vai ser, afinal, pacificada?

João Cabral: "Eu estou com sessenta e seis anos. Escrever poesia me é difícil. Não sei se, nessa idade, ainda terei coragem de enfrentar o trabalho de um novo livro de poemas. Imagino, em minha aposentadoria, ter uma casa agradável em Petrópolis. Eu me imagino lá fazendo aquilo que gosto de fazer: não sair de casa. Detesto sair de casa. Em segundo lugar, ler. Neste negócio, sou caseiro. É um traço que, talvez, eu tenha puxado de minha mãe. Quase não vi minha mãe sair de casa. Ela ficava meses e meses e meses sem sair de casa. Não visitava nem os filhos. Os filhos é que iam visitá-Ia, porque ela não gostava de sair de casa. Eu sempre fui de ficar em casa. Com a idade, este traço vem se agravando cada vez mais".

O fato de levar uma vida mais descansada, sem compromissos sociais, vai acalmar esta relação do senhor com o ato de escrever - que é algo torturante...?

João Cabral: "Não. Eu escrevo com dificuldade. Mas, a mim, não me irrita só escrever com dificuldade. Se, um dia, eu escrever com facilidade deixarei de escrever de vez. A facilidade não leva a nada. Você vê, por exemplo, em matéria de futebol. A seleção brasileira jogou mal mas jogou melhor contra a Espanha. Por quê? Porque tinha um adversário forte pela frente. E estava acostumada a jogar com juvenis, contra os juvenis. Em jogos fáceis, a seleção não se revelava. A seleção, então, começou a jogar direito (N: João Cabral se refere ao jogo Brasil 1 x 0 Espanha, na Copa do México). A facilidade não conduz ninguém a nada. Ainda que, de repente, baixar o Espírito Santo e eu começar a escrever com facilidade, espero ter a coragem de deixar".

O senhor seria capaz de escrever uma coluna diária num jornal?

João Cabral: Acredito que não. Para mim, seria difícil. É uma atividade que não me seduz. Para mim, seria difícil escrever uma crônica diária. Não me seduz.
É como escrever carta. Quem escreve uma crônica acaba falando de si".

Nesses quarenta anos de vida diplomática, o senhor conheceu centenas de grandes personalidades da área intelectual e política. Qual foi a que mais marcou o senhor?

João Cabral: "Miró me impressionou enormemente. Eu o conheci da primeira vez que estive em Barcelona. Quando fui embaixador no Senegal, o presidente Senghor me impressionou enormemente, porque é um homem extraordinário".

Como ex-jogador de futebol, o senhor acha que o futebol faz bem à saúde mental do povo brasileiro?

João Cabral: "Ah, eu gosto de futebol! Mas, agora, como não vivo no Brasil, não vou a futebol. A grande vantagem do futebol brasileiro é que é o único futebol que você assiste sem estar interessado na vitória de um clube. Você assiste porque é um espetáculo bonito. Com futebol europeu não acontece. Você não vê uma jogada maliciosa, não vê um gesto harmônico, não vê elegância. Só aquela correria. E correria não me interessa. Só consigo me interessar pelo futebol brasileiro.

Há os que gostam de ver futebol porque gostam de ver o time predileto ganhar. Mas acontece que meu clube é o América. Ganha tão pouco... Então, gosto de futebol não para ganhar. Gosto pelo espetáculo. Eu era América no Recife. Quando voltei para o Rio, era normal que fosse América também. Joguei um campeonato pelo América, no Recife. O Santa Cruz tinha chegado ao fim do campeonato empatado com o Torre, um clube que nem existe mais. O Santa Cruz não tinha center-half. Então, descobriram que a minha mãe era fanática pelo Santa Cruz, embora nunca tenha ido a um jogo de futebol. A diretoria do Santa Cruz, então, foi pedir à minha mãe que me fizesse jogar pelo Santa Cruz. Joguei. Disputei o campeonato com o Torre e fui campeão juvenil pelo Santa Cruz, em 1935".

Daí é que surgiu a famosa dor de cabeça que o acompanhou durante décadas?

João Cabral: "Não. Minha dor de cabeça começou quando eu tinha dezesseis anos e foi uma das coisas que me fez largar o futebol. Naquele tempo, eu não podia correr, porque vinha a dor de cabeça...".

Já passou?

João Cabral: "Não. Hoje, talvez esteja um pouco melhor. Com a idade, talvez ela doa menos. Mas ainda sou obrigado a tomar remédios..."

Quantas aspirinas o senhor toma por dia?

João Cabral: "Não posso mais tomar aspirina. Depois dessa hemorragia gástrica que tive, em novembro de 85, os médicos me proibiram de tomar aspirina. Agora, tomo outros calmantes".

Que informação o senhor tem sobre a poesia que se faz hoje no Brasil?

João Cabral: "Não conheço bem a poesia brasileira posterior a mim. Só conheço os livros dos poetas que me mandam livro. Poucos são os que me mandam. Lá fora, não encontro estes livros para comprar. É difícil, para um escritor, julgar o pessoal que vem depois. Um sujeito pode julgar bem os anteriores a ele. Mas julgar uma geração mais nova é difícil, porque essa geração vem com uma experiência que o mais velho já não tem. Eles
escrevem sobre as experiências que eles têm e eu não tenho. Não vivo aquelas coisas. Sou de uma outra geração. Minha sensibilidade estava mais aguda em determinadas fases de minha vida.

O Brasil de minha mocidade não é o Brasil da mocidade desse pessoal. A vida que eu levava como jovem não é a vida que eles levam. Eu seria injusto se julgasse, porque eles falam de uma experiência e de uma visão de vida que não são as minhas. Em geral, não gosto de julgar os autores mais jovens do que eu. Viveram num tempo que não vivi, foram jovens num tempo em que eu já não era jovem e levam um tipo de vida que não é a que eu levei".

Desses poetas posteriores ao senhor, a poesia de um Afonso Romano de Santana, por exemplo, lhe agrada?

João Cabral: "Conheço. É um poeta interessante. Afonso Romano é um desses sujeitos que escrevem poesia sabendo que é poesia. Não escreve poesia de oitiva. É um homem culto, um professor. A.gente vê que ele leu um bocado. A poesia que ele escreve não é improvisação nem uma coisa gratuita. Não é o resultado de bossa. É o fruto de uma consciência intelectual".

(1986)

Posted by geneton at 12:02 AM

junho 09, 2007

FRANCISCO JULIÃO

UM DEPOIMENTO PARA A HISTÓRIA : O HOMEM QUE AGITOU OS CANAVIAIS
Francisco Julião revela os planos de Ernesto Che Guevara para chegar ao Brasil – A conversa entre os dois em Cuba – A autocrítica do criador das Ligas Camponesas – A confissão que Miguel Arraes fez a ele na prisão, em 1964 – Um padre católico é o guru de Arraes! – Por que Fidel Castro ficou fascinado por Jânio Quadros – A luta para reunir Miguel Arraes e Leonel Brizola no exílio – Por que Arraes não quer se aproximar de Brizola – A queixa de Julião contra João Goulart – A ascensão e queda das Ligas Camponesas.

Francisco Julião (Bom Jardim, Pernambuco, 16/02/1915) cumpriu uma penitência, por livre e espontânea vontade: durante quinze anos, entre 1940 e 1955, peregrinou pelos canaviais da zona da mata de Pernambuco usando a lei para defender camponeses. Era advogado. Tinha feito uma escolha. Não queria gastar energias defendendo poderosos. A penitência, ele sabia,”não dava dinheiro nem voto. Mas fui". O resto é história.

Transformado em líder das célebres Ligas Camponesas, Julião ganhou fama de santo entre os sem-terra. Aos olhos de quem o combatia, era o diabo em pessoa. Chamavam-no de agitador, incendiário, comunista, Julião agradece o título de "agitador". É e sempre foi. "Mas dentro da lei". Afinal de contas - diz ele - "até remédio você precisa agitar antes de usar”... E só ler a bula. A primeira instrução é: “Agite antes de usar".
Comunista nunca foi. “Minhas divergências com os comunistas permanecem
até hoje ". O que pouca gente sabe é que Julião é um dos fundadores do Partído Socialista Brasileiro, ao lado de Otávio Mangabeira.

Quando veio o primeiro de abril de 1964, Francisco Julião estava na Câmara dos Deputados, em Brasília. Era deputado federal. Conseguiu ficar lá até o dia 7 de abril. Neste dia, pegou uma carona no carro de Adaucto Lúcio Cardoso, líder da UDN. Talvez para não assustar o motorista do carro, o líder da UDN escreveu em cima de um jornal e mostrou a Julião: "Está tudo perdido". Ali, a certeza de que o golpe não tinha volta, se corporificava na forma de três palavras rabiscadas numa folha de jornal.

A tarde estava caindo em Brasília, num crepúsculo de cartão postal. Adaucto Lúcio Cardoso olha para o céu e constata: "Ah, essa cidade deveria se chamar Belo Horizonte!”. Veio o estalo. Julião tomou ali, dentro do carro, a decisão de fugir para Belo Horizonte, disfarçado de camponês. Terminou preso. Sobral Pinto o defendeu. Ganhou um habeas-corpus. Ia ser preso de novo. Correu para o Rio de Janeiro; tentou, em vão, obter asilo nas embaixadas da Iugoslávia e do Chile. Conseguiu um lugar na Embaixada do México. E lá se foi para dezesseis anos de exílio, a maioria vivida em Cuernavaca. Quando voltou ao Brasil, em 79, trouxe um saco de terra do México. E também a fórmula do Elixir da Juventude.

Quem vê Julião não diz que ele nasceu em 1915. Já tem dois bisnetos. Não esperava chegar a tanto. Tinha uma enxaqueca terrível - que o perseguiu por quarenta anos, desde a adolescência. Já dera a batalha contra a enxaqueca como perdida. Um dia, o milagre. Em meio à Conferência de Puebla, no México - para onde tinha ido porque, exilado, queria ver de perto os bispos brasileiros – esbarra com um jesuíta argentino chamado Alejandro.

Das mãos do jesuíta, saiu a fórmula criada por um bruxo sul-americano. Assim: primeiro, arranja-se meio quilo de alho. E meia garrafa de álcool etílico de 96 graus. Depois, é só colocar os dentes de alho no liquidificador e ir misturando com o álcool. O último passo: "Coloca-se esta emulsão em um frasco de vidro, onde deve permanecer durante quinze dias num canto. A partir do décimo sexto dia, deve-se tomar uma colherzinha da emulsão misturada em um copo de suco de fruta". A enxaqueca acabou. Julião, bisavô, ficou novo. Jamais deixou de beber a sagrada mistura.

O agitador Julião vem escrevendo, há anos e anos, um relato completo de tudo o que viveu. Cada vez que preenche um caderno com anotações, manda-o para o México. “Ninguém sabe o que pode acontecer amanhã neste País” – diz, para justificar tanto cuidado com o diário íntimo. Não é para menos. Em 1964, oficiais do Exército foram aos arquivos fotográficos dos jornais do Recife e recolheram toda a documentação que existia sobre Francisco Julião, Miguel Arraes e Gregório Bezerra. Onde andarão todas estas fotos?
Agora, o 'Chico Julião' que um dia foi personagem nas páginas da revista 'Time" passa as mãos nos cabelos revoltos - que lhe dão um certo ar messiânico - e embarca numa viagem pelo tempo, ao encontro de figuras como Ernesto Che Guevara, Salvador Allende, Leonel Brizola, João Goulart, Miguel Arraes, Fidel Castro, Jânio Quadros e todos os personagens que cruzaram o caminho do advogado que saiu das terras do Engenho Galiléia para a história das lutas políticas do Brasil.

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Qual foi o sentimento do Francisco Julião líder das Ligas Camponesas em abril de 1964 quando soube que o governo tinha mudado de mão? Qual foi a extensão da frustração pessoal ?

Julião: “A palavra frustração é pouco intensiva para exprimir este sentimento. Meu sentimento foi bem mais profundo. Era um sentimento de rebeldia e revolta, por ter sido interrompido bruscamente, pelas armas, com um golpe à Bonaparte, o processo de democratização popular do País. A Constituição foi rompida. E, o que é incrível, em nome da Democracia e da legalidade romperam-se a Democracia e a legalidade. Eu preferi, ali, permanecer no Brasil ao invés de buscar uma embaixada, apesar de saber que corria um grande risco. Então, lancei um manifesto no interior de Minas Gerais convocando o povo para a resistência armada. O manifesto caiu no vazio, porque ninguém estava, absolutamente, preparado para tomar as armas. Todos nós acreditávamos que as eleições de 64, em outubro, iriam se realizar. E todos estávamos preparados para enfrentar as urnas. Daí a razão por que caiu no vazio o meu manifesto com um apelo ao povo para que se unisse e defendesse a Constituição com armas na mão”.

O senhor faz alguma crítica, hoje, à atitude do ex-presidente João Goulart - que preferiu não resistir, segundo os historiadores, para evitar um derramamento de sangue?

Julião: “Faço. O comportamento de Goulart foi débil. Não chamaria de pusilânime, mas diria que foi débil (fala em tom de lamento). João Goulart era um homem ambivalente: como populista, oscilava feito um pêndulo entre a direita e a esquerda e queria simultaneamente atender aos patrões e aos operários. Acabou entrando em choque com o próprio sistema que ele queria que não se interrompesse, apesar de proclamar a necessidade de reformas de base.

Não se preparou nem se preveniu para dar um sustentáculo mais forte ao programa de reformas de base. Faltou a ele mais decisão, coragem cívica e valentia frente aos golpistas. Ele tinha informações. O próprio Brizola - cunhado de Goulart - prevenia e até alguns oficiais que percebiam a mobilização dos que estavam mais à direita dentro do Exército preveniam Jango. Mas ele acreditava que nada iria acontecer e estava convencido de que depois da Campanha da Legalidade - em que o Exército se dividiu e afinal ele conseguiu chegar à Presidência da República com o apoio de Leonel Brizola, general Lott e das forças legalistas do País - fatos assim não iriam ocorrer. E, no entanto, ocorreram.

Não era a primeira nem a segunda nem a terceira vez que se tentava dar um golpe de direita no País. Considero que Jango cometeu um erro quando deixou a Presidência sem oferecer resistência”.

Havia condições reais de oferecer resistência? A grande interrogação que existe até hoje é esta: há os que dizem que havia condições; há os que dizem que não, não havia de modo algum. E o senhor, como personagem central dos acontecimentos de 64, o que diz?

Julião: “Em escala bem menor, poderia se repetir o que houve em 1961, quando da luta pela legalidade democrática, iniciada no Rio Grande do Sul. Afinal de contas, João Goulart era o chefe supremo das Forças Armadas. E era dever de Goulart permanecer no Palácio lutando pelo mandato que o povo lhe concedera. Deveria ter seguido não o caminho de Getúlio Vargas, mas o caminho que Salvador Allende posteriormente adotou no Chile como presidente: preferiu sacrificar-se e oferecer resistência às forças armadas para defender o mandato, em vez de entregá-lo e aceitar simplesmente o exílio ou escapar ou fugir do País. Um presidente não pode desertar numa hora como aquela, porque o seu mandato é mais importante que sua vida”.

O escritor Antônio CaIlado - autor de um livro sobre as Ligas Camponesas - diz que a máxima aspiração de João Goulart era ser presidente do PTB - e não presidente da República. O senhor também tinha essa imagem de João Goulart? Ele não seria, segundo esses depoimentos, um homem talhado para a Presidência da República ...

Julião: “Goulart era, no fundo, um homem bom. Dotado de grandes ambições, não estava suficientemente talhado para atender a essas ambições que ele tinha pelo Poder. O que lhe faltava era convicção. Daí, a ambivalência e a facilidade com que se deixou apear do governo. Não era um bom gaúcho, como foi Vargas. Veja: Vargas não se deixou apear. A primeira vez sim, porque ele tinha um mandato que foi arrematado por um golpe. Mas quando ele recebeu um segundo mandato através do voto popular ele disse: “Do Palácio só me tiram morto”. Como estava só, preferiu o suicídio, o que é uma forma de resistência, no caso de Vargas. Sou contra o suicídio, mas ele deixou um manifesto que é um convite à rebelião do povo brasileiro em defesa do mandato que os trabalhadores lhe deram e uma denúncia em favor dos povos de Terceiro Mundo e contra a penetração do
capital multinacional”.

Qual é a autocrítica que o senhor faz hoje ao célebre “Chico Julião” das Ligas Camponesas?

Julião: “Naquele tempo, eu via os problemas do Brasil e da América Latina através das Ligas Camponesas, através do Nordeste, através da minha região conflitiva, atrasada e dominada pelas forças oligárquicas mais retrógradas. Hoje, tenho uma visão mais distinta, porque vejo Pernambuco, o Nordeste e o Brasil através do mundo - e não só do Terceiro Mundo mas do mundo industrializado e do campo socialista. A minha visão se universalizou.

É essa a primeira crítica que faço a mim mesmo: ter tido uma visão local, estreita e regional. É verdade que, num dado momento, essa visão local pode adquirir um sentimento universal. Mas em política não podemos usar essa expressão com tanta propriedade como se usa na Literatura e na Poesia...”.
Inclusive na poesia se diz que quanto mais local mais universal se é ...

Julião: “Em política, você tem de adquirir uma visão bem mais ampla dos problemas e analisar as situações desde um ponto de vista global, para então tomar posições dentro de uma região determinada.

A segunda crítica que me faço é que por falta de tempo - uma vez que eu dava 48 horas por dia ao movimento das Ligas Camponesas - eu vivi um praticismo bastante acelerado. Eu deveria ter respaldado esse praticismo com mais conhecimentos teóricos, para corrigir as distorções que se davam dentro do próprio movimento, o que é normal dentro de um movimento popular ou um partido político. É também uma crítica que me faço: a falta de uma melhor base teórica para conduzir o movimento de maneira a cometer o menor número possível de erros”.


O senhor pode dar um exemplo concreto, na prática, de como essa visão “local, estreita e regional” se traduziu em atos?

Julião: “Hoje penso - o que é válido também para aquela época - que não podemos conduzir um país com a extensão territorial e a diversidade de situações sociais como o Brasil ... Por exemplo: aquilo que ocorre no Nordeste não é válido para o que acontece em São Paulo ou no Rio. Então, nossas alianças deveriam ter sido mais amplas.

Eu me ative tanto ao problema camponês que cheguei a entrar em choque até com pequenos e médios agricultores - que eram aliados naturais do movimento camponês! Então, os pequenos e médios agricultores, pelo temor de perder seus pedaços de terra - o que era bastante explorado pela imprensa burguesa -, buscavam aliança junto ao grande latifúndio. E o latifúndio é inimigo do pequeno e médio agricultor.

Ora, o latifúndio empresta, compromete e acocha para se expandir. Ao latifúndio não importa absolutamente que o pequeno e o médio agricultor percam as suas terras, desde que ele, o latifúndio, possa se alargar, para fazer não a cultura de subsistência, mas a cultura de exportação. Então, perdemos aliados importantes entre os pequenos e médios agricultores. Hoje, considero que estes pequenos e médios agricultores são aliados incondicionais e necessários para que se lute por uma reforma agrária no País e se melhore a situação do próprio camponês que não tem trabalho. Ando até com essa preocupação de unificar os pequenos e médios agricultores. Assim como as Ligas Camponesas acabaram forçando a criação dos sindicatos, considero que a união dos pequenos e médios agricultores pode levar o País ao cooperativismo”.

Há espaço hoje para a reativação das Ligas Camponesas ou os sindicatos rurais podem cumprir o papel que foi das Ligas até 64?

Julião: “A Liga Camponesa era parte da luta dos camponeses pela democratização do trabalho no campo e pela democratização da terra. Sempre tive essa visão. O camponês que nós buscávamos naquele tempo era o que arrendava a terra; não era o assalariado. Não havia sindicato. E sempre considerei que o sindicato era um passo bem mais avançado que a Liga, porque o homem que vende a força de trabalho tem mais consciência política do que aquele que arrenda um pedaço de terra e só encontra o senhor, o proprietário, para pagar a renda no fim de cada ano ou quando vai levar a parte que lhe corresponde no cultivo de uma dada lavoura.

Eu achava que essa gente iria inevitavelmente ser liquidada dentro de um processo de capitalização do campo. A Liga era um passo que poderia contribuir para conduzir até o sindicato. Então, falar em Liga agora é um retrocesso. O Sindicato pode perfeitamente cumprir as funções da Liga e ir além”.

Durante a fase negra da repressão, a figura do “Chico Julião” foi “satanizada”, como o senhor diz. Durante anos e anos houve uma contrapropaganda bem forte. A imagem do Francisco Julião para a geração mais nova é de um agitador que fazia marchas de camponeses sobre o Recife e queria a reforma agrária “na marra”. Qual é a imagem que o senhor gostaria que ficasse do Francisco Julião das célebres Ligas Camponesas?

Julião: “A imprensa distorceu a minha imagem. Nunca saí da legalidade. Sempre utilizei o Código Civil e a Constituição para defender minhas idéias. Já naquele tempo eu sustentava a necessidade de uma “Revolução Francesa” no campo e achava que o Nordeste tinha ficado parado na história. O latifúndio no Nordeste utilizava ainda as sobrevivências feudais. E era preciso trazer o camponês para o processo de democratização da região. O camponês era utilizado como “besta de carga”, para usar a expressão de Engels. Sempre foi - durante toda a Colônia, todo o Império, toda a República. Sobre ele pesava a carga mais forte.

O que eu queria era libertá-Io dessa carga. Como não havia nenhuma forma de organização camponesa, surgiu a Liga - não das minhas mãos, mas de uma necessidade histórica. Houve um momento na história deste país que propiciou o surgimento da Liga. A imagem que eu gostaria que ficasse - e por ela continuarei lutando até o fim - é que fui um homem apegado à legalidad