http://www.geneton.com.br/archives/000242.html
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O cansaço deixou marcas inconfundíveis no rosto de Gabriel García Márquez: os olhos estão vermelhos, os cabelos desgrenhados clamam por um pente, a camisa branca exibe marcas de suor nas axilas. São 11 e 45 da noite.
Se pudesse escolher, ele estaria dormindo o quarto sono agora. Mas o Prêmio Nobel é homem de palavra. Cumpre a promessa feita horas antes : depois de passar a tarde inteira falando a estudantes de cinema sobre os segredos da criação literária - como se os talentos da imaginação pudessem ser transmitidos numa sala de aula - ele chega sozinho à recepção deste hotel de terceira categoria em Havana. Desaba o peso do corpo sobre uma poltrona vagabunda. Acende um charuto. Aceita com um meneio de cabeça a oferta do garçom : um copo de água mineral.
GGM acha que qualquer tempo concedido a repórteres é puro desperdício. Mas aceitara dar uma entrevista desde que o assunto não fosse literatura. Por imposição do entrevistado, o único tema permitido em nossa conversa seria o mais improvável e aparentemente mais desimportante de todos os assuntos por ventura merecedores de menção num diálogo com um prêmio Nobel de Literatura : o fascínio que as matinês de cinema exercem sobre ele até hoje.
Como todo grande escritor conquista o direito de exercitar pequenas excentricidades sem precisar dar explicações aos intrusos, GGM também determinou com antecedência o número de perguntas: somente seis. Nada além. Número cabalístico ? Jamais se saberá. Não pude perguntar. Não era este o assunto da entrevista.
Eis as descobertas de Gabriel García Márquez sobre as matinês:
1.Por que o senhor considera as matinês tão fascinantes ?
"À hora da matinê - uma palavra francesa metida a empurrões no castelhano - ,no interior dos cinemas, respira-se uma atmosfera lúgubre. Parece que os passos ressoam menos no piso atapetado, mas a verdade é que os que assistem à sessão das três procuram, inconscientemente, passar despercebidos. "É o sentimento de culpa da matinê", já disse alguém, definindo dessa maneira a atmosfera de mistério e clandestinidade que têm os cinemas às três da tarde"
2.O que é que diferencia, então, o frequentador de matinês dos das outras sessões ?
"Um cinema à hora da matinê se parece a um museu. Ambos têm um ar gelado, uma quietude funerária. E, entretanto, é a hora preferida dos verdadeiros cinéfilos. O verdadeiro cinéfilo vai ao cinema sempre sozinho. Senta-se invariavelmente nas laterais da sala. Não mastiga chiclete nem come qualquer tipo de guloseima. Não lê jornais nem revistas, pois permanece nas nuvens, concentrando a tela com ar de concentrada estupidez até começar a projeção"
3.Pelo que o senhor conseguiu observar no escuro, como é que este cinéfilo se comporta depois de iniciado o filme ?
"Desaperta o cinto, desamarra os cordões dos sapatos e o nó da gravata e trata de apoiar os joelhos ou pôr os pés no espaldar da poltrona dianteira. Cinco minutos depois de começada a a projeção, pode estourar uma bomba no cinema que o verdadeiro cinéfilo não se dará conta"
4.Mas não é possível que as matinês sejam povoadas somente por cinéfilos fanáticos. Quem é,então, que faz companhia a eles ?
"Vai também à matinê aquele a quem o cinema não tem a menor importância. É muito provável que a clientela das matinês diminuiria sensivelmente se os colégios secundários fossem fechados. Os estudantes que comumente vão ao cinema em grupos não têm outro interesse além de se refugiar em lugar seguro enquanto as aulas passam".
5.O fato de estudantes se refugiarem nas matinês para escapar das aulas explica o ar de estranha clandestinidade dessas sessões de cinema ?
"Como todos nós o fizemos alguma vez, é também muito provável que essa seja a origem do "sentimento de culpa" e da sensação de clandestinidade de que nós, adultos, padecemos na matinê. Devido a esse pequeno público, um cinema às três da tarde é o lugar mais seguro para um encontro escondido, para os amores secretos - por qualquer motivo - e para fugir a uma obrigação inadiável".
6.Qual foi a melhor definição que o senhor já ouviu sobre as matinês ?
" ``Quando tiver um problema sem solução, vá à matinê´´, dizia, há algum tempo, o gerente de uma importante empresa ao chefe de relações públicas : na quarta-feira da semana seguinte, eles se encontraram à saída de uma matinê".
Meia noite e meia. Gabriel García Márquez disfarça o bocejo, mas, dois minutos depois, emite um suspiro de cansaço e impaciência, como a dizer que chega, basta, já tinha dito o que queria sobre o mistério das matinês, um assunto mais importante do que todas as inúteis teorias literárias. Despede-se com um aperto de mão pouco convincente. Desaparece no penumbra de um corredor de hotel mal iluminado nesta noite de julho em Havana.
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(*) PS: Tanto os encontros com Gabriel García Márquez em Havana quanto as perguntas da entrevista são imaginários: um exercício de realismo mágico amador. Mas as divagações de GGM sobre as matinês são verdadeiras : foram extraídas do texto "Por que você vai à matinê ?", publicado no livro "Textos Andinos" (Editora Record)
O controle remoto me levou a um pouso inesperado num canal a cabo : desembarquei de madrugada numa cena de um filme de Glauber Rocha, "A Idade da Terra", o último que ele fez.
Glauber Rocha faz, em off, sobre imagens de Brasília, um discurso grandiloquente: fala de Terceiro Mundo, capitalismo, socialismo, revolução soviética confrontando a riqueza americana, a roda da História, invasões, Europa conquistando o Novo Mundo, catequeses, cristianismo, utopias, barbáries, caudilhos, a América Latina pagando o preço da progresso alheio, o sonho de que aquela paisagem do Planalto Central produzisse iluminações planetárias.
Eu me lembrei de uma entrevista que fiz uma vez com Antônio Callado, o escritor da obra-prima "Quarup": lá pelas tantas, ele dizia que foi para uma entrevista coletiva do recém-eleito presidente Juscelino. Incrédulo, Antônio Callado viu Juscelino apontar, num mapa, para o local onde um dia se construiria Brasília. Como um louco, o presidente prometeu "Daqui, sairão ondas de civilização. Ondas ! Ondas !".
O escritor-repórter disse que soltou um suspiro de descrença naquele delírio. Mas JK fez Brasília.
O discurso de Glauber Rocha acendeu um devaneio tropical na madrugada: quem sabe, o que falta ao Brasil, hoje, é um toque épico, uma fagulha daquele delírio que Glauber Rocha articulava sobre imagens de Brasília.
Como diria o co-tamanqueiro Amin Stepple, o Brasil não pode se contentar em ser ator de um papelão histórico.
Tive a chance de assistir a uma exibição especial de "A Idade da Terra", numa manhã de sábado, num cineminha em Paris, ao lado de Glauber Rocha. O ano: 1981, meses antes da morte do homem. A sessão fora organizada porque Glauber queria mostrar o filme a um punhado de críticos franceses. Terminada a sessão, Glauber se vira para mim e para o também estudante de cinema Marcos Mendes, hoje professor de cinema em Brasília. Junta os dedos indicadores das duas mãos para perguntar: "Como é ? Fizeram as ligações? Fizeram as ligações ? ".
Quer saber se a gente tinha embarcado naquela torrente desvairada de sons e imagens.
O Brasil - muitíssimo provavelmente - precisa de delírios de grandeza. Ambição de originalidade. Explosões glauberianas. Torrentes e vulcões contra a pequenez. "Ondas de civilização".
Termina aqui o devaneio.
Hora de mudar de canal.
Aqui:
http://www.geneton.com.br/archives/000238.html
Já avisei. Mas aperto a campainha de novo, para acordar os desavisados: o livro do ano, por enquanto, é um relançamento. Título do bicho: "O Afeto Que se Encerra", nova edição da quase autobiografia escrita por Paulo Francis em 1980.
Correi às livrarias, físicas ou virtuais, oh incréu! É tarefa urgente!
.
A maior contribuição de Paulo Francis ao jornalismo brasileiro não foram as tiradas politicamente incorretas, as pirraças, os ataques, os chiliques.
Era tudo ótimo.
Mas o "maior legado" de PF, como se diz na tribuna das câmaras de vereadores, foi ter dado uma grande contribuição para que se consolide no Brasil a tradição de uma "prosa clara e instruída".
Não é pouco, num país em que sempre houve confusão entre escrever bem e escrever difícil. Basta passar os olhos sobre os textos produzidos por nossos advogados: se esta república fosse realmente uma democracia, eles deveriam receber voz de prisão por agressões repetidas à comunicabilidade. Idem para noventa por cento dos autores de teses acadêmicas. Idem para críticos literários ilegíveis. Ia faltar espaço no Carandiru, se o presídio ainda existisse ( em tempo: a expressão "prosa clara e instruída" é da lavra de Francis).
A construção de uma "prosa clara e instruída" num país infestado de bacharelices é um trabalho lento, uma tarefa coletiva, um edifício que se ergue tilojo por tijolo, geração após geração.
Jovem jornalista, aliste-se no Exército dos Defensores do Texto Claro e Instruído.
Vista a farda. Estufe o peito. Bata continência para o general Francis ( e um punhado de outros).
A influência do texto de Francis sobre as novas gerações é cem por cento benéfica, portanto.
O que ele dizia sobre nossos jornais um dia pode deixar de ser verdade,
se os cultores da "prosa clara e instruída" se multiplicarem a cada geração:
"Nossa imprensa: empolada, previsível, chata. Como é chata, meu Deus".
Tomara que eu tenha citado certo.
Fiz minha boa ação do dia: recomendar "O Afeto Que se Encerra"; buzinar em favor da "prosa clara e instruída".
Já posso voltar a relinchar e a comer farelo.
(outros textos no blog SOPA DE TAMANCO:
http://sopadetamanco.blogspot.com/)
“LULA METALÚRGICO” FAZ UMA CONFISSÃO: “NÃO TENHO VOCAÇÃO POLÍTICA”
O sobrenome não era um sobrenome. Era uma profissão: metalúrgico. O nome não era um nome. Era um apelido: Lula. A combinação esquisita de um nome que era apelido e um sobrenome que era uma profissão servia para identificar aquele sindicalista que despontava para a fama: Lula Metalúrgico. Era assim que nós, repórteres que cobríamos a visita do sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva ao Recife, no remoto ano de 1979, o chamávamos.
Lula já tinha sido capa de uma revista semanal. Começava a atrair a atenção do Brasil como o primeiro líder sindical surgido sob o regime militar. Fazia, ali, a primeira visita a Pernambuco depois de ficar conhecido. Ainda não era uma celebridade.
Quem poderia imaginar que aquele pernambucano que voltava ao Recife para defender um “novo sindicalismo” iria, um dia, subir a rampa do Palácio do Planalto como presidente? Ninguém. O Partido dos Trabalhadores não existia. Era apenas uma idéia na cabeça daquele sindicalista, que, ao abrir a boca diante de platéias, subtraía o “s” do plural das palavras com a mesma desenvoltura com que soltava imprecações contra governos militares que manipulavam os índices de inflação.
O Lula que desembarcou no Recife era um líder sindical que resistia às cantadas para se engajar em partidos políticos – não importa quais fossem. Descubro em meus arquivos uma gravação em que ele avisa: “Não sou filiado a partido político algum. Não sou filiado à Arena, não sou filiado ao MDB. Fui contra o bipartidarismo quando ele foi instituído. Por uma questão pessoal, enquanto houver bipartidarismo, não vou me filiar a partido político algum. Quem sabe, um dia, surja um partido em que os trabalhadores tenham voz, onde os trabalhadores sejam maioria. Quando surgir esse partido, serei – não tenham dúvida – um dos filiados”.
O sindicalista Lula estava a um milhão de anos-luz do candidato Lula que, quase um quarto de século depois, seria capaz de dar bom-dia a poste em troca de um voto – como faz todo candidato que se preza. O Lula Metalúrgico pichava gente da Arena e do MDB, dispensava a ajuda de estudantes que se ofereciam para distribuir panfletos a operários, acabrunhava-se com a intromissão de intelectuais na atuação do sindicato, fazia restrições à ótica das pastorais operárias da Igreja Católica, esculachava a conduta da chamada “grande imprensa”. Aos que tentavam sondar seus planos futuros, oferecia uma resposta que, hoje, soa como curiosidade arqueológica. Lula dizia que, simplesmente, não tinha vocação política. Dava-se por satisfeito no exercício da presidência do Sindicato dos Metalúrgicos.
O então presidente da seção estadual do MDB – Jarbas Vasconcelos, oposicionista brigão que, duas décadas depois, se elegeria duas vezes governador de Pernambuco – é o cicerone na visita que o sindicalista barbudo faz ao arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara. O arcebispo vivia numa casa modestíssima, nos fundos da Igreja das Fronteiras, no bairro das Graças, no Recife. Um pôster de Martin Luther King – com a inscrição “Eu tenho um sonho” – ornamentava a parede da sala. Lula troca gentilezas com Dom Hélder. Diz que a trajetória do arcebispo servia de exemplo para os trabalhadores. Dom Hélder ouve o elogio com um meio-sorriso nos lábios. Lula apresenta aos anfitriões o filho caçula, um menino de um ano e poucos meses: “Ele tem esse nome de costureiro, Sandro, mas é macho!” Dom Hélder, Jarbas Vasconcelos e a mulher de Lula, Marisa, riem.
Aquela viúva que atraíra os olhares do também viúvo Luiz Inácio Lula da Silva se tornaria, tanto tempo depois, a primeira-dama do país. O primeiro marido de Marisa, um motorista de táxi, morreu assassinado num assalto. A primeira mulher de Lula morreu de parto – junto com o primeiro filho do casal.
Depois da visita a Dom Hélder, a estrela emergente do sindicalismo brasileiro faz uma pausa no périplo recifense para conversar com os repórteres. Hoje a cena seria impensável, mas na época era assim que acontecia: em vez de convocar a imprensa para o local da entrevista, Lula é que se dava ao trabalho de ir a uma redação. O “sapo barbudo” (apelido que ganharia dez anos depois, durante a campanha presidencial de 1989) revisita, então, memórias distantes:
Em que situação você saiu de Pernambuco para morar em São Paulo?
Não me lembro se foi em 1951 ou 1952. Mas saí de Pernambuco para não morrer de fome. Fui com toda a família. Meu pai já estava lá. Minha mãe tinha um pedaço de terra em Garanhuns, trabalhava na roça e não conseguia sustentar a família. Então, a única forma que ela encontrou para sobreviver – na época, eu era criança – foi ir embora, para onde estava o marido, para poder tentar cuidar dos filhos. Eu tinha uns seis anos.
Quando você começou a trabalhar em São Paulo?
Comecei a trabalhar em 1958, com 13 anos de idade. Trabalhava como tintureiro, numa tinturaria. Trabalhei quase três anos como tintureiro. Depois, entrei numa empresa metalúrgica. Trabalho hoje nas Indústrias Villares.
Como é que você entrou no sindicato?
Eu entrei no sindicato em 1969. Um dia, fui lá ver uma assembléia, gostei e fiquei.
Você reconhece que é o primeiro líder político que surgiu fora do âmbito parlamentar nesses últimos tempos?
Nem me considero uma liderança. Eu me considero, muito mais, um elemento que conseguiu captar os desejos de uma classe. Tentei levar os desejos dessa classe adiante e transformá-los numa bandeira de luta. Acho que a sociedade inteira tem muita responsabilidade – como os estudantes, com aqueles movimentos de 1977- e os intelectuais. Nós, os trabalhadores, somos um dos setores que entraram na briga.
Você se considera, então, um resultado da abertura comandada pela sociedade civil?
Exatamente. Porque faço parte dessa sociedade.
Além da circunstância política concreta da abertura, o fato de você ter conseguido se tornar porta-bandeira de uma classe pode ser atribuído a quê? Haveria uma vocação pessoal ou foram apenas as circunstâncias políticas que favoreceram?
Já começa a ficar difícil falar a gente... Gostaria que, aí, você colocasse de sua cabeça como é que você vê a coisa. Porque, para mim, fica muito difícil falar...
Alguma experiência passada de partidos políticos no Brasil entusiasmou você?
Não. Lamentavelmente, nenhuma.
Que experiência chegou perto do que você espera de um partido representativo?
Nenhum partido me entusiasmou. O Partido Comunista, por exemplo, sucumbiu da mesma forma que nasceu. Quer dizer: nasceu e morreu. Não foi obra dos trabalhadores. Veio de cima para baixo, um negócio imposto à classe trabalhadora. Alguns partidos que se diziam representantes da classe trabalhadora, como o PTB, o PC e o próprio Partido Socialista, nunca foram legitimamente representantes dos trabalhadores, porque não nasceram da classe trabalhadora. Foram impostos à classe.
Quais são, afinal, os planos de Lula na política?
Não sei. Não pensei ainda. Deixe contar uma coisa: toda essa vida que tenho levado tem me afastado muito de minha mulher e dos meus filhos. Hoje, praticamente, não disponho de um horário para minha família. Não posso permitir que minha mulher fique sozinha na hora de cuidar da família. A única coisa de que tenho certeza é que, no dia 25 de abril de 1981, eu me desligo do sindicato. O que vai acontecer depois daí só vou saber a partir do dia 25. Não tenho vocação política. Por enquanto, o que pretendo é continuar o trabalho no sindicato.
Vinte e três anos depois dessa entrevista, eis Luiz Inácio Lula da Silva aos primeiros minutos de um sábado, véspera da eleição presidencial de 2002. Diante de uma massa compacta de fotógrafos, repórteres e cinegrafistas, ele faz, num púlpito, um pequeno pronunciamento sobre o debate com José Serra, o candidato do PSDB. Depois dos agradecimentos de praxe, volta a exercitar o humor que, há tempos, diante de Dom Hélder, levou-o a brincar com o nome do filho Sandro.
Lula pede uma trégua de “seis horas” aos repórteres e fotógrafos. Diz que, ao final da campanha, já não agüenta encarar microfones e máquinas fotográficas de manhã, à tarde e à noite. “Depois de uma campanha como essa, sou capaz de pegar o barbeador para fazer a barba de manhã e começar a falar, porque vou pensar que o barbeador é microfone. Um candidato pode abrir a geladeira para pegar água: quando a luz da geladeira acender, ele vai fazer uma declaração, porque vai pensar que a luz é de uma câmera...”
De fato: os momentos de solidão de Lula foram raríssimos naquela campanha. Quem observou com atenção o balé dos candidatos durante o debate nos estúdios da Central Globo de Produção flagrou uma imagem rara. Minutos antes de serem chamados ao palco, ambos se concentravam longe dos olhos do público, numa espécie de baia, em extremidades opostas do palco. José Serra trocava confidências com assessores. Num espaço de tempo que deve ter parecido uma eternidade para um homem assediado a cada aparição pública, Lula vivia seus três minutos de solidão. Caminhou de um lado para o outro, no espaço exíguo. Olhava para o chão. Em que estaria pensando?
O líder sindical que em 1979 se incomodava com a falta de tempo para se dedicar à família transformara-se no candidato que, em 2002, clamava por uma trégua no bombardeio dos flashes fotográficos. Eleito presidente, ele teria de aprender a ser observado o tempo todo – pelo resto da vida, como acontece com todos os que um dia subiram a rampa com a faixa no peito.
(TRECHO DO LIVRO "DOSSIÊ BRASÍLIA : OS SEGREDOS DOS PRESIDENTES")
Como se dizia antigamente, "direto ao assunto": tive a chance de ouvir do "Quinto Beatle", o super-produtor George Martin, qual é o segredo que explica a imbatível performance da dupla de compositores Lennon-McCartney.

George Martin e a dupla
Aos fatos:
1) assim que começou a trabalhar com os Beatles, Martin descobriu que a melhor tática para garantir a qualidade das músicas seria incentivar ao máximo a competição - que já existia - entre Lennon e McCartney. O esquema "maquiavélico" deu certo. Certíssimo. Como George Martin aplicou esta tática? (Já,já, daqui a dois parágrafos, ele dirá).
2) meses antes de morrer, ao receber a visita de Martin em casa, no edifício Dakota, em Nova York, John Lennon fez a Martin uma confissão que resume a obsessão do ex-beatle com a qualidade musical - uma bela virtude num compositor pop.
A gravação completa do depoimento de Martin - colhido na igreja que ele transformou em estúdio, em Hampstead, no norte de Londres, em 1998, para o programa "Milênio"(Globonews) - repousa numa prateleira do Centro de Documentação da Rede Globo, o Cedoc. O repórter sai de cena. Passa a palavra para o Quinto Beatle, num depoimento agora publicado pela primeira vez:
"Os Beatles, no começo, não eram grandes artistas. Eram jovens muito inteligentes que, no entanto, não demonstravam sinal algum de que poderiam compor boa música. Não vi evidência alguma de que seriam bons compositores".
"A primeira vez que soube dos Beatles foi quando Brian Epstein, empresário do grupo, trouxe uma gravação para o meu escritório. Era horrível. Pude entender por que todos tinham dito "não" a eles. O melhor que poderiam me dar era "P.S.I Love You". Não era uma música muito boa. Copiaram o que ouviam dos Estados Unidos, mas também aprenderam o ofício bem depressa".
"A combinação entre John e Paul era bastante interessante, pelo seguinte: tínhamos, ali, dois jovens muito talentosos. Cada um de um jeito, os dois eram músicos e compositores muito bons - que trabalhavam juntos, numa espécie de competição: cada um tentava superar o outro. Um subia nas costas do outro o tempo todo".
"Quando comecei a trabalhar com os Beatles, logo no primeiro ano,depois que eles gravaram "Please, Please Me", eu disse: "Senhores, este é o primeiro sucesso..". Propus um desafio: "Agora, tragam-me algo melhor!". Os dois voltaram com "From Me To You" - que era boa. Depois, me trouxeram "She Loves You", melhor ainda. Em seguida, "I Wanna Hold Your Hand",fantástica! A cada vez, compunham algo diferente da anterior. Não era como "Guerra nas Estrelas I", "Guerra nas Estrelas II", "Guerra nas Estrelas III". Davam um tratamento original".
"Digo que esta curiosidade e este esforço para transpor o horizonte é que caracterizaram o pensamento de John e Paul. Isso é que os fez tão bons! Sempre tentavam melhorar, sempre tentavam ser mais originais. Perguntavam-me: "Que som podemos ter? O que é que você pode nos dar? O que é que não sabemos ainda? Ensine!".
Isso é que os tornou excelentes".
"O meu último encontro com John Lennon foi no Edifício Dakota, em Nova York, onde ele morava. Jantamos, meses antes de ele morrer. Yoko não interferiu. Ficou quieta a noite toda. John e eu ficamos, então, conversando sobre o nosso passado. Não tínhamos planos de trabalhar juntos. Eu tinha meus projetos, John tinha os seus. Eu não tinha intenção de voltar a trabalhar com ele. Mas falamos de nossas gravações. John se virou e me disse: "Quer saber? Se eu pudesse, gravaria de novo tudo o que fizemos!". Eu respondi: "Você não pode estar falando sério! Eu detestaria gravar tudo de novo, porque seria maçante". Mas John me disse que poderíamos fazer tudo ainda melhor. Isso foi extraordinário!"
Conhecer gente famosa é uma desgraça. Conviver com um ídolo é pior ainda.
Por dois motivos. Primeiro: por medo de falar uma grande tolice diante do guru, a gente se cobre de constrangimento quando conversa com ele. O encontro pode ser o mais banal, o mais trivial possível. Mas a gente termina medindo cada frase. Fiz o cúmulo: cheguei a me refugiar uma vez numa sala lateral de uma redação, para não envenenar à toa a convivência com o guru. Mas ele, esperto, foi até o meu esconderijo: "Você se escondendo!!!". Retribuí a gentileza com um riso amarelo.
Segundo motivo por que conhecer gente famosa é uma desgraça: a gente fica se policiando para não cometer, diante de amigos, estranhos ou desconhecidos, o pecado horroroso do "name-dropping" (a mania de ficar citando nomes célebres no meio de uma frase, para dar a ilusão de importância....).
Os dois motivos me impediram de escrever um texto na primeira pessoa sobre dez anos de contatos pessoais e profissionais, em redações no Rio, em Londres e em Nova York, com o meu ídolo, Paulo Francis. Fiz pelo menos três gravações com ele. As anotações sobre esta convivência estão feitas. Falta organizá-las.
Feitas as contas, resolvi quebrar o constrangimento. Não posso deixar que o medo do "name-dropping" me condene a guardar na gaveta as cenas que testemunhei ou as frases que ouvi. Pretendo, em breve, produzir um documento sobre Paulo Francis, a estrela máxima do jornalismo brasileiro das últimas décadas.
Quando o assunto é Paulo Francis, considero-me um grande devedor. Os maiores elogios que recebi na vida foram feitos por ele, repetidas vezes, na coluna Diário da Corte. Quem não gosta de ser elogiado que atire o primeiro Prozac. Fora das páginas de jornal, fui alvo de pelo menos uma demonstração de extrema generosidade que Francis praticou sem qualquer interesse.
Em nome dos teclados de São Gutemberg, prometo à minha dezena de leitores: os fãs, os órfãos, os detratores de Paulo Francis ganharão um presente que estou, aos poucos, garimpando. Que ninguém se assuste, porque não cairei na tentação de parir um tratado sobre o homem. Praticarei o exercício básico do jornalismo: publicarei o que vi e ouvi. Ponto. Reproduzirei diálogos entre Francis e grandes feras. Vai ser minha maneira de retribuir os presentes que ganhei. A retribuição virá em forma de livro. É projeto para 2008.
Por ora, pergunto: o que diabos vocês estão fazendo aí? Por que não saem voando para conseguir uma cópia de "O Afeto Que se Encerra" ? É um dos melhores livros de memórias já lançados no Brasil. Autor: Paulo Francis. Uma nova edição acaba de sair do forno da Editora Francis.
O Sopa de Tamanco fará, nos próximos dias, uma seleção de frases marcantes do livro, para animar os preguiçosos.
Além do relançamento de "O Afeto que se Encerra" , há outra boa notícia no arraial: Sônia Nolasco, viúva de Francis, resolveu publicar o romance inédito que ele não teve tempo de lançar.
Às favas com a objetividade jornalística: nem li. Mas já gostei.
Texto na seção Reportagens::
http://www.geneton.com.br/archives/000083.html
aqui, a entrevista:
http://www.geneton.com.br/mt/mt.cgi?__mode=view&_type=entry&id=230&blog_id=1&saved_added=1#
ARIANO APONTA OS NOMES QUE, SEGUNDO ELE, MERECEM IR PARA O TRONO DA CULTURA BRASILEIRA
Autor de um dos mais belos livros publicados nas últimas décadas no Brasil, o imerecidamente pouco conhecido ''Romance da Pedra do Reino'', o escritor e dramaturgo Ariano Suassuna vem se dedicando a uma grande tarefa. Em nome da defesa da cultura brasileira contra a infiltração do ''lixo cultural'' despejado goela abaixo de paises satelites como o Brasil, Ariano vem se dedicando a uma cruzada solitaria em defesa de manifestacoes da criatividade popular.
O cruzado Ariano se esquece até de que tem horror a viajar. Há pouco tempo,foi parar no Rio Grande do Sul,para dar uma ''aula-espetaculo'' - uma facanha digna de registro,na biografia de um homem que se contenta em ver avioes em fotografias. Segunda tarefa : conhecido como autor do ''Auto da Compadecida'', texto teatral que virou até filme dos Trapalhoes,este sertanejo da Paraiba radicado há decadas no Recife pretende lancar em breve um livro em que simplesmente recria e reescreve tudo o que ja' produziu na vida.A tarefa se arrasta ha' anos. Nao e' para menos. Nesta entrevista,alem de acusar de ''equivocados'' os que defendem a abertura dos portos ao ''lixo cultural'' estrangeiro,ele faz uma lista dos artistas e escritores que,segundo ele,realmente representam o Brasil.
Ha' quem diga que quem defende a preservacao da chamada ''arte popular'' defende,na verdade,a manutencao da pobreza.Porque,se conseguissem vencer a pobreza e se tivessem acesso a' educacao,os artistas populares certamente deixariam de produzir obras formalmente rusticas e primitivas.O que o senhor diz a estes criticos ?
ARIANO SUASSUNA : 'Digo,em primeiro lugar,que se realmente a opcao fosse esta eu nao teria duvida : seria melhor que a injustica desaparecesse,mesmo que a Arte popular desaparecesse com ela. Mas acontece que este e' somente um sofisma,criado por por pessoas que,na verdade,detestam as manifestacoes populares da nossa Cultura. Em segundo lugar,eu gostaria de refutar o lugar-comum segundo o qual as obras criadas no ambito na Arte popular sao necessariamente rusticas e primitivas quanto 'a forma.Veja-se,por exemplo,a seguinte Decima que poderia ter sido escrita por Calderon de la Barca - e e' do cantador Dimas Batista :
Na vida material
cumpriu sagrado destino :
o Filho de Deus,divino,
nos deu gloria espiritual.
Deu o bem,tirou o mal,
livrando-nos da ma' sorte.
Padeceu suplicio forte,
como o maior dos herois.
Morreu pra dar vida a nos :
a vida venceu a morte.
Ou entao esta,que Mallarme' assinaria :
No tempo em que os ventos suis
faziam estragos gerais,
fiz barrocas nos quintais,
semeei cravos azuis.
Nasceram,estes tafuis,
amarelos como cidro.
Prometi a Santo Izidro,
com muito jeito e amor,
leva-los,quando la' for,
em uma taca de vidro.
Assim,caso os Poetas,hoje populares,recebessem educacao universitaria,o que poderia acontecer e' que passassem todos a compor seus versos com o rigor das duas Decimas citadas.Nao acredito que o Povo pobre do Brasil perdesse a forca criadora caso melhorasse de vida.Melhorou,na China,e nem por isso o Teatro nacional e popular chines desapareceu ou piorou.Pelo contrario.Ou,para falar em termos brasileiros : J. Borges e' um grande gravador popular.Se tivesse tido formacao ''erudita'',continuaria a ser o grande artista brasileiro que e',somente tratando seu universo pessoal e peculiar com o rigor formal de um Gilvan Samico''.
Se a cultura e' inevitavelmente afetada pela economia,nao e' ingenuidade querer que manifestacoes culturais brasileiras sejam preservadas numa especie de redoma a' prova de influencias externas,numa epoca em que as relacoes economicas sofrem um processo radical de internacionalizacao ?
ARIANO SUASSUNA : ''Colocar a Cultura brasileira numa redoma,alem de ser uma coisa impossivel,e' algo de absolutamente indesejavel.E faz muito tempo que venho fazendo afirmacoes em tal sentido.Por exemplo : no dia primeiro de dezembro de 1963,publiquei no jornal ''Ultima Hora'' um artigo no qual dizia que ''a Arte que se tornasse uniforme nao se tornaria mais pura,tornar-se-ia,isto sim,mais pobre''.Depois,em 1974,ao reunir as ideias centrais do Movimento Armorial,eu afirmava que,ao valorizar o tronco negro,indigena e iberico da nossa Cultura,nao estavamos esquecidos de outras etnias e manifestacoes culturais que tambem sao importantissimas para o Brasil. Tomavamos tal posicao por estarmos convencidos de que ''somente fortalecendo aquele tronco cultural e' que qualquer coisa que nos venha de fora passa a ser,em vez uma influencia que nos esmaga e nos massifica num cosmopolitismo achatador e monotono,uma incorporacao que nos enriquece''.
O que nao posso aceitar e' que brasileiros equivocados queiram que,em nome de nossa bela e fecunda diversidade,aqui seja acolhido tambem o lixo cultural que e' sub-produto da industria cultural americana espalhado pelo resto do mundo como se fosse coisa tao importante - e ate' mais importante - do que os romances de Faulkner.Ou seja : nao tenho nada contra Melville.Mas nao e' possivel que queiram exigir que eu ache que Michael Jackson e Madonna tem a mesma importancia que Melville ou Euclides da Cunha.Quero deixar claro que tenho pelo ''lixo cultural''
brasileiro horror igual ao que tenho por qualquer outro''.
O senhor nao acredita que manifestacoes culturais tipicas de um povo possam absorver criativamente influencias externas ? Um violeiro que ve televisao nao pode se enriquecer com as novas informacoes que recebe ?
ARIANO SUASSUNA - Qualquer um de nos pode se enriquecer com as novas (e boas) informacoes que recebe.Eu leio jornais e vejo televisao.Os cantadores e violeiros nordestinos tambem.Nenhum de nos perde,com isso,a garra brasileira e o senso critico e satirico.Pelo contrario. Ouvi recentemente o cantador nordestino Edmilson Ferreira comentar assim,num Martelo-de-Seis-Linhas,as desventuras conjugais da familia real inglesa :
Na Inglaterra,as coisas andam feias,
todo mundo por la' endoidecendo.
Todia dia,e' uma princesa sem marido,
ou um principe que,so',fica vivendo.
Ou a carne de vaca fez efeito,
ou o chifre do boi esta' fazendo.
Se tivesse de escolher entre passar um fim de semana passeando com Woody Allen pelas ruas de Manhattan ou cavalgando com um vaqueiro pelos morros do sertao da Paraiba,com qual dos dois o senhor ficaria ?
ARIANO SUASSUNA : ''Passear por Manhattan,com Woody Allen ou com qualquer pessoa de tao tipo,e' coisa que,para mim,nao representa qualquer atrativo.Nunca sai' do Brasil,mas,ja' que estamos no terreno das hipoteses,por que voce,que e' meu amigo,nao pensa em alguem melhor e num lugar melhor ? Quanto a' outra alternativa,nao tenho mais a resistencia para sair por ai' afora,cavalgando pelos morros do sertao da Paraiba''.
Qual e' a pior doenca e qual e' a melhor cura para o Brasil de hoje,'as vesperas do ano dois mil ?
ARIANO SUASSUNA : ''Machado de Assis fez uma distincao definitiva entre o Brasil oficial e o Brasil real que,a meu ver,e' o do Povo,o do ''Quarto Estado''.As maiores doencas nossas tem origem no Brasil oficial e a cura so' lhe pode vir do Brasil real.As pessoas que sustentam ideias diferentes das nossas parecem pensar : ''O Brasil oficial e' o problema;na Europa e nos Estados Unidos esta' a solucao''. Eu acho que o Brasil oficial e' o problema,no Brasil real esta' a solucao ''.Ou,um pouco a' moda de Unamuno : ''Brasil e' o problema,Brasil e' a solucao''.
O senhor ainda reclama das guitarras eletricas.Isto nao e' uma discussao superada desde os anos sessenta ?
ARIANO SUASSUNA : ''Vou mais longe,ate' : esta e' uma discussao que nao tem o menor interesse - e desde muito antes.Nem nos anos sessenta ela fez parte das minhas preocupacoes.Em musica,gosto de Monteverdi,Vivaldi,Scarlatti,Stravinsky,Erik Sati,Jose' Mauricio Nunes Garcia,Joaquim Emerico Lobo de Mesquita,Villa Lobos,Guerra Peixe ou Antonio Jose' Madureira. Quando vao me entrevistar,fazem-me pergunta sobre guitarra eletrica,Michael Jackson e Orlando Silva.E' por isso que apareco falando sobre assuntos ou pessoas sobre as quais nao tenho o menor interesse. Nunca me viriam a' lembranca se nao me fizessem tais perguntas''.
O senhor diz que nao tem interesse pela obra de compositores da MPB,como Caetano Veloso e Gilberto Gil,porque eles sao influenciados pela ''massificacao cultural americana''. O senhor nao reconhece na obra de compopsitores como estes nenhuma contribuicao para a modernizacao da musica popular brasileira ?
ARIANO SUASSUNA : ''Por iniciativa minha,jamais fiz qualquer referencia a Caetano Veloso e Gilberto Gil.As pessoas que me entrevistam e' que fazem perguntas a respeito deles e de outros.Depois,na maioria dos casos,quando publicam as materias,ficam me acusando de radical e intolerante por causa das respostas que dou,porque nao costumo esconder nem disfarcar o que penso.Quanto a mim,nao gosto de estar falando mal de nenhum companheiro de trabalho,principalmente quando se trata de pessoas que antes estavam do nosso lado e depois pessaram a emprestar seu talento ao outro''.
Quem e' afinal,para o senhor,o artista que,em qualquer area de producao cultural brasileira, melhor representa o Brasil ?
ARIANO SUASSUNA : ''Artes Plasticas : Aleijadinho,Francisco Brennand e Gilvan Samico. Artes cenicas : Atonio Jose da Silva,o Judeu; Martins Pena,Qorpo Santo e Artur Azevedo. Literatura : Euclydes da Cunha,Augusto dos Anjos.Musica : Jose' Mauricio Nunes Garcia,Villa-Lobos,Guerra Peixe,Ernesto Nazare',Capiba e Antonio Jose' Madureira. Video e cinema : Glauber Rocha,Nelson Pereira dos Santos,Vladimir Carvalho,Guel Arraes e Luiz Fernando Carvalho''.
O senhor reclama de que ''o patrocinio de multinacionais nos eventos e' uma tentativa de adormecer a resistencia de nosso povo e aviltar a cultura brasileira pelo suborno dos intelectuais''. Quais sao os patrocinios ou promocoes que o senhor considera exemplos de ''tentativas de suborno'' ?
ARIANO SUASSUNA : ''Recusei indicacoes para o Premio Shell e para o Sharp.Recusei-me a participar da Bienal Nestle de Literatura. Nao fui eu que passei a noticia das recusas para os jornais,porque nao fiz isto para me exibir nem para incorrer em falta de fraternidade com escritores e artistas que nao tem as mesmas ideias nem as mesmas condicoes que eu tenho.Tais condicoes me deixam a' vontade para recusar.Por isso,peco licenca para,de uma vez por todas,encerrar aqui este desagradavel assunto''.
O chamado ''gosto medio'',a que o senhor se refere com desprezo,e' ''pior do que o mau gosto''. Quais sao, na producao cultural brasileira de hoje,os piores exemplos da vitoria do ''gosto medio'' sobre a qualidade artistica ?
ARIANO SUASSUNA : '' O gosto medio a que me refiro e' ligado 'aquele mesmo lixo produzido pela industria cultural de massas.E' facil identificar na producao cultural brasileira de hoje quem segue tais padroes ou com eles se acumplicia''.
O senhor,que e' secretario de um governador que se declara intransigentemente nacionalista,gostaria de ser ministro de um presidente neo-liberal ?
ARIANO SUASSUNA : ''Sou amigo do governadorArraes,mas so concordei em ser Secretario porque acho que ele representa,no campo da Politica brasileira,o mesmo que eu procuro ser no campo da Cultura.O convite foi honroso.O cargo tem me trazido muitas e ardentes alegrias.Mas esta' me obrigando tambem a fazer coisas que detesto - como,por exemplo,viajar.Imagino o que nao aconteceria como Ministro, motivo pelo qual nao gostaria de exercer tal cargo com nenhum Presidente,neo-liberal ou nao.Eu teria ate' de me mudar para Brasilia,o que,para mim,seria uma verdadeira catastrofe. Felizmente,pertenco à oposicao.Nao existe qualquer perspectiva a tal respeito;de modo que nao vou me preocupar com a possibilidade colocada na pergunta''.
Como se chama e do que tratara' o livro que o senhor vem escrevendo ha' anos ? Que impacto o senhor gostaria que esta livro tivesse no meio literario brasileiro ?
ARIANO SUASSUNA : '' O livro,ainda sem titulo,é um romance que,se for concluido como pretendo,será uma especie de revisao e recriacao de tudo o que escrevi. Terminara' a historia que comecei a narrar com ''A Pedra do Reino''.Quanto ao ''impacto'',nao tenho nenhuma originalidade : gostaria que o livro trivesse boa aceitacao de publico e de critica. Mas,infelizmente,tenho consciencia de que osu um escritor de poucos livros e de poucos leitores. Já me darei por muito feliz se meu corajoso editor nao tiver prejuizo''.
Se um violeiro procurasse o senhor com uma guitarra,o que e' que o senhor faria ?
ARIANO SUASSUNA : ''Um violeiro com uma guitarra na mao seria aquilo que,em Logica,se chama uma contradicao em seus proprios termos : ele nao seria mais um violeiro e sim um guitarrista.E provaria,com a nova opcao,que nem como violeiro ele prestava.Mas so' estou respondendo porque,como se diz nos depoimentos judiciais,com grande alivio meu e dos leitores,chegou a hora do ''mais disse nem nem foi perguntado''.
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1996